Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007
Sócrates não é populista, claro que não
É verdade: Luís Filipe Menezes tende para o risível. Ora são as portas das fábricas a fechar que afinal só serão visitadas em sentido figurado; ora são os filhos que se quedam doentes por causa do mauzão do Rui Ramos; ora são os anúncios semanais sobre as preocupações e dificuldades que no futuro muito próximo vai criar ao Primeiro-Ministro. E por aí adiante, não vale a pena continuar, que houve quem já tivesse apontado as limitações de LFM e do seu discurso antes de mim e muito bem. Por amor de Deus, estamos a falar do presidente da câmara de Gaia - Gaia!, que nem o Cais de Gaia nem o El Corte Inglés conseguem transformar em algo cosmopolita; ainda se fosse de Matosinhos, que agora tem uma parte sul toda catita, mas Gaia?! E, como se não bastasse, ainda se afirma de esquerda - not my cup of tea.

Claro que o que se espera de um líder da oposição é uma pose séria, sisuda, de quem está precocemente envelhecido com o fardo pesado do poder que um dia terá de suportar. Tal e qual foi António Guterres antes de ganhar as legislativas, em especial quando, em frente às câmaras de televisão, penteava a sua melena rebelde enquanto nos garantia a sua total oposição à política de Cavaco do "escudo forte", que precedeu a adesão do escudo ao mecanismo das taxas de câmbio do sistema monetário europeu, que por sua vez precedeu a moeda única - e Guterres, como PM, teve como objectivo aderir ao Euro logo no início; com certeza é esquizofrénico.

Ou como Sócrates, cujos chavões de campanha foram o choque tecnológico (controlem as gargalhadas, se faz favor) e a criação de 150.000 postos de trabalho. Esta última promessa (depois redenominada de objectivo) foi a ideia mais populista que eu já ouvi em Portugal; e, no entanto, recordo-me de se ter questionado como poderia um PM garantir a criação de postos de trabalho, mas não me lembro de acusações de populismo a esta promessa totalmente vazia.

A mim também me apetece fugir perante o líder da oposição, reconheço. Ou escrever palavrões nos bolentins de voto. Tenho um problema, no entanto: o único sucesso governativo deste governo na política interna, a redução do défice orçamental, foi conseguido à custa de um brutal aumento da carga fiscal, vulgo roubalheira ao contribuinte. De resto, o governo prometeu-nos paraísos verdejantes em todas as áreas da governação e foi o que se viu; a reforma da Admnistração Pública não se faz sentir; o desemprego aumentou; festeja-se sem qualquer pudor a possibilidade de Portugal em 2007 conseguir o estonteante crescimento de 2% do PIB. E um extenso etc.

Por muito esotérico que Menezes se apresente, Sócrates é consideravelmente pior. Apesar de tudo, prefiro quem tenha como objectivo liberalizar a legislação laboral, privatizar actuais serviços do Estado e encolher o mesmo Estado. Não é nada provável que Menezes ganhe as legislativas de 2009; contudo, se fizer perder a maioria absoluta ao PS já presta um grande serviço a Portugal. Teremos um PR que nos quer com legislaturas de termo e um PM teimoso, mas sabe-se como os socialistas não suportam que não gostem deles. Lembremo-nos de como Sampaio não parava de nos informar como terminava o seu segundo mandato no meio de um enorme clima de afectividade com os portugueses, como se isso interessasse alguma coisa - ou fosse, sequer, verdade. Ou de Guterres, que não resistiu ao desgosto que os portugueses lhe deram ao fim de quatro anos como PM. Sócrates pretende ser mais cerebral - as photo ops com o filho são só para adoçar a imagem - mas também não resistirá à obrigação de justificar a um parlamento as suas políticas ou de negociar maiorias parlamentares. O animal feroz sucumbiria.

Se conseguir que este pesadelo socrático termine antes de 2013, por mim LFM pode ser populista e risível quanto quiser. Eu agradeço.

publicado por Maria João Marques
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Comentários:
De Maria Marques a 30 de Dezembro de 2007 às 15:17
Caro Pierluigi Trotinete, faça o favor de não desconsiderar o chá, assunto muito sério na minha vida e a bebida mais ingerida por mim...

Tenha um bom 2008!


De Maria Marques a 30 de Dezembro de 2007 às 15:15
Caro MPJ, também concordo consigo. Não quero nem parecer que sou menezista ou que o admiro. Mas quero menos ainda dedicar-me a crucificá-lo e ajudar Sócrates a ser reeleito com maioria absoluta. O problema dos sociais-democratas com estatura e mérito para enfrentar Sócrates é simples: nenhum se quis queimar em 2009, dando como certo que o PS voltaria a ganhar. E isto é vergonhoso, tendo em conta o estado da nossa desgovernação socialista que conseguiu asfixiar empresas e particulares com impostos, diminuindo o rendimento disponível das famílias e dificultando a competitividade das empresas, entre várias outras malfeitorias.

Tenha um excelente 2008!


De Pierluigi Trotinete a 29 de Dezembro de 2007 às 05:40
Tea? Que se lixe o tea. E uma aguardentezinha de são domingos, marcha?


De António de Almeida a 28 de Dezembro de 2007 às 17:49
"Apesar de tudo, prefiro quem tenha como objectivo liberalizar a legislação laboral, privatizar actuais serviços do Estado e encolher o mesmo Estado."
-Também eu, mas pretender colocar militantes sociais democratas na CGD, em lugar de desmontar todo o processo interventivo do governo, na condução do dossier BCP, poderá ser enquadrado como encolher estado?
"Não é nada provável que Menezes ganhe as legislativas de 2009; contudo, se fizer perder a maioria absoluta ao PS já presta um grande serviço a Portugal."
-Será suficiente para manter Menezes na liderança do partido? Em caso afirmativo, teremos socialistas no governo até ás calendas, na melhor das hipóteses, iremos ter este socrático regime até 2013, o que significará uma quase dinastia (1995-2013), com um breve interregno 2002-2004, de regência social-democrata/democrata-cristã! Concordo com a análise, mas pobre deste país, onde não se vislumbram opções alternativas.


De Maria Marques a 28 de Dezembro de 2007 às 18:01
" mas pobre deste país, onde não se vislumbram opções alternativas."

Caro António de Almeida, concordo inteiramente. Esta é uma escolha do menor dos males.


De MPJ a 28 de Dezembro de 2007 às 19:54
Cara Maria,

tem razão, mas não posso ficar resignado a um mero Luís Filipe Menezes. É triste mas é o país que temos, mas é isso que devemos contrariar e não pedir tão pouco, embora ache que o problema é mais profundo.

Actualmente, e apenas no período do Governo de Cavaco Silva e brevemente no de Durão (aquele senhor que se vendeu à Europa em vez de ter ficado sossegado como PM), o mal é igual dos dois lados - PS e PSD.

O grande problema de Portugal é a mentalidade que nos assombra. Não sei se sempre fomos assim, mas a verdade é o nosso futuro não é risonho. Todos sonhamos com um "novo" Cavaco, mas não passa de uma miragem - ainda tenho a esperança que dentro do PSD, por exemplo a Manuela Ferreira Leite, possa fazer um pouco mais do que retirar a maioria ao PS.

Enfim, é natal e um homem pode sonhar.....


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