Sábado, 29 de Dezembro de 2007
2007 em revista
[Revista Atlântico de Maio de 2007 . Nº 26]

capa26.jpg

Opinião da Casa 

Lá vamos nós outra vez?

por Luciano Amaral
Uma pessoa pergunta-se se a política portuguesa estará condenada a ser uma sucessão de palermices e escandaleiras medonhas, onde o debate das ideias e das práticas políticas não tem qualquer lugar

Já pareceu mais longe. Mas neste momento talvez não surpreenda se o actual primeiro-ministro não cumprir o seu mandato até ao fim, e tudo por causa do célebre folhetim suburbano em torno da sua “licenciatura”. Não estou a dizer que vá acontecer. Estou a dizer que não surpreenderá se acontecer. É espantoso como esta trapalhada ligeiramente grotesca pode ameaçar a sobrevivência política de uma das figuras públicas que, ainda há menos de um mês, mais opiniões positivas concitava no país. Ora, caso a história se revele mortal para ele, lá vamos nós outra vez ter um governo que não acaba o mandato, ainda para mais por razões desprovidas de verdadeira relevância política. De facto, se assim se passar, com este seria o quarto governo a terminar extemporaneamente as suas funções, depois de Guterres, Barroso e Santana, e sempre por motivos laterais à governação. Mesmo que não seja o fim do primeiro-ministro, esta história não deixará de o marcar na sua credibilidade e não deixará de afectar a sua eficácia governativa. Uma pessoa pergunta-se se a política portuguesa estará condenada a ser uma sucessão de palermices e escandaleiras medonhas, onde o debate das ideias e das práticas políticas não tem qualquer lugar. Recorde-se que nem a oposição escapou ao veneno do escândalo, quando o PS se viu ameaçado pelo celebérrimo “Caso Casa Pia”, ou quando, antes, Paulo Portas foi envolvido no agora já um pouco esquecido “Caso Moderna”.

Mal começou a parecer que o caso da “licenciatura” ia ser sério, houve logo alguma gente na direita que se agarrou a ele como gato a bofe. Espreitaram logo aqui uma oportunidade e, quais Testemunhas de Jeová, trataram de pôr o pé na porta para ver se ela não fecha. Sejamos claros. A direita que por aí anda não merece governar o país, ou pelo menos não demonstrou, nos últimos dois anos, que o mereça. Na verdade, não o demonstrou nos últimos cinco anos, se contarmos com o seu triste desempenho governativo. Não me refiro apenas aos meses de Santana Lopes, a quem o folclore nacional atribui todos os males. Refiro-me ao anterior desempenho barrosão, que nos seus melhores momentos foi pior do que Sócrates e, nos piores, foi absolutamente desastroso. Basta pensar na grande fuga para Bruxelas, sem mais comentários. A direita não conseguiu durante este período afirmar-se como alternativa decente a Sócrates e, por isso, muito francamente, não mereceria o bambúrrio.
Não é que Sócrates seja uma maravilha, ao contrário do que tanta gente parece pensar. As suas chamadas reformas não passam de meras coisitas, muito superficiais, que não resolvem qualquer problema de fundo nas finanças públicas, no sistema de saúde, na segurança social ou na “competitividade” da economia portuguesa. Mas vale a pena perguntar o que é que as presumíveis alternativas ao “engenheiro” teriam para oferecer. Provavelmente o mesmo, em versão mais incompetente. Se é para isso, mais vale estarem sossegados e deixarem o “engenheiro” chegar ao fim. Ao menos, graças à propaganda e à cooperação estratégica, até dá a ideia de que está tudo mais ou menos a correr bem.
É um pouco desgostante que a política portuguesa esteja resumida a este jogo de ratazanas, em que há sempre alguém a farejar a última informação escabrosa em circulação nos mentideros, para depois a lançar ao público. A menos que este seja, precisamente, o grande problema político português. De facto, olha-se para os envolvidos no romance da dita Universidade Independente e as questões não podem deixar de surgir. Ele há administradores da CGD licenciados pela universidade que também já foram ministros pelo PS e criadores de fundações estranhas; ele há reitores que são funcionários da CGD e, também, deputados municipais do BE em Salvaterra; ele há professores que são empresários covilhanenses da área do “ambiente”, a quem foram “adjudicadas” muitas obras, deram muitas aulas a “engenheiros” e que também já participaram nas tais fundações estranhas e em governos do PS, deles tendo saído a pretexto de histórias bizarras; ele há vice-reitores que são advogados de embaixadores acusados de pedofilia. Ou seja, uma espécie de “duzentas famílias” em versão vão-de-escada. Há isto tudo e há muito mais e cabe perguntar se não serão estas redes clientelares que andam a tornar inviável qualquer governação. Talvez o problema político português seja mais simples do que parece: se calhar, não estamos perante a necessidade de grandes ideias alternativas, estamos perante a necessidade de pessoal político alternativo. Tratar-se-ia então de limpar as instituições daqueles que se apropriaram delas como se fossem sua propriedade privada e pôr lá pessoas novas. E daqui a trinta anos voltávamos a repetir a coisa.

publicado por Atlântico
link do poste | comentar
Categorias:

Comentários:
De David Silva a 31 de Dezembro de 2007 às 19:55
As núvens eram negras, mas nem um aguaceiro caiu...


Comentar post

pub
pesquisar
 
linques
blogs SAPO