Sábado, 29 de Dezembro de 2007
2007 em revista
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Revista Atlântico de Maio de 2007 . Nº 26]

Tese A Europa e os novos manuais de ideologiapor
João Pedro MarquesAqui se rejeita proposta peregrina de um só livro de História para os ensinos secundários de todos os estados membros da União Europeia. Por ser apenas mais um degrau na escalada em direcção à criação de polícias do pensamento politicamente correcto
Recentemente os jornais e outros meios de comunicação deram destaque a uma proposta da ministra da educação alemã para criar um só livro de História para os ensinos secundários de todos os estados membros da União Europeia. O intuito manifesto é o de ajudar, por essa via, a firmar os supostos valores comuns europeus. Por surpreendente que possa parecer, esta proposta já era esperada – pelo menos eu já a esperava. Efectivamente, no Verão passado, publicou-se um manual franco-alemão para o secundário, concebido e produzido em partes iguais por franceses e alemães.
Por razões profissionais que não interessa detalhar aqui, fui forçado a escrever um comentário sobre o assunto (
http://www.iict.pt/dociict/HL07020501.pdf) e fiquei perfeitamente esclarecido quanto a propósitos e métodos deste tipo de parcerias intra-europeias. A génese do manual franco-alemão conta-se em poucas palavras. Em 2003, o Presidente Chirac e o Chanceler Schröder, apostados em reforçar a aproximação política dos respectivos países, decidiram promover a elaboração de manuais comuns que pudessem ser adoptados no ensino da História no secundário francês e alemão. No ano seguinte, formou-se um comité dito científico – constituído maioritariamente por altos funcionários dos dois países – que assumiu a direcção de um grupo de professores liceais de História, irmãmente divididos entre alemães e franceses, ao qual coube a redacção do texto. Até ao momento saiu apenas um dos três volumes previstos, justamente o que se debruça sobre a história da Europa e do Mundo no pós-guerra, ou seja, de 1945 até à actualidade. No prefácio do livro, os membros do comité científico que dirigiu o projecto alinham vários argumentos para justificar a iniciativa: garantem que o entrecruzamento de perspectivas franco-alemãs e a correspondente multiplicação de pontos de vista produz uma história mais completa, mais verdadeira e mais profunda; asseguram que a aprendizagem de uma história comum aplaina as desinteligências entre os povos; e afiançam que esse livro constitui uma mais-valia pedagógica e científica, tanto quanto ao método como quanto ao conteúdo. Esperam, por isso, que o seu manual faça escola e que possa servir de modelo e de incentivo a um futuro manual europeu.
Muita desta argumentação é simples presunção e água benta, que, como sabemos, cada qual é livre de tomar à sua vontade. Os membros do dito comité científico perfilham manifestamente a crença de que a aprendizagem de uma história comum dissolverá a conflitualidade entre os povos – esquecendo que as guerras civis provam, infelizmente, o contrário. Acreditam, também, que a visão que propõem é mais imparcial, sem valorizarem o facto de o manual transportar consigo as marcas do seu nascimento e objectivo, isto é, de se afadigar na promoção de uma ideologia pan-europeísta – sob direcção do eixo franco-alemão – e na diabolização dos Estados Unidos. Mas, se estas e outras ideias são demasiado ingénuas para merecerem grandes comentários, importa, por outro lado, assinalar que a expectativa manifestada quanto à fertilidade do exemplo se materializou rapidamente e que a ideia de um manual único já aí está a bater à porta dos parceiros europeus.
Alguns, como a Espanha, aplaudem tal ideia; outros, como a Dinamarca ou a Polónia, rejeitam-na. As razões são óbvias: os grandes países têm interesse em patrocinar projectos em que, por inerência do seu peso relativo, sairão enaltecidos; os pequenos países, receiam precisamente o contrário. A acreditar nas notícias, Portugal fez de conta que não estava em casa e não respondeu à chamada, preferindo, para já, não se pronunciar, o que também é uma forma de se posicionar.
Este jogo de interesses não surpreende, tal como não surpreende o combustível de que se alimenta. A possibilidade de moldar o passado de acordo com as metas e conveniências de cada momento é demasiado tentadora e desde os alvores do tempo histórico que os políticos procuraram promover alianças através da manipulação da memória do passado. As sociedades que não dispunham de registo escrito desse passado usaram a genealogia como forma de soldar os seus segmentos. Foi desse modo, com base numa ideologia do parentesco que se reconstruía de acordo com as conveniências, e não com base na consanguinidade como geralmente se julga, que as tribos se construíram. As sociedades com escrita continuaram a aplicar os mesmos métodos mas complementando-os com um mecanismo mais poderoso: a manipulação da História. Aquilo a que assistimos agora, com a proposta da ministra alemã, é, pois, um novo passo em direcção a um velho objectivo: apaguemos diatribes antigas, tornemos o relato insonso e inodoro de modo a ser digerível por todos, e teremos os condimentos indispensáveis para construir a grande tribo europeia.
Tudo nesta mecânica remete para a ideologia, nada remete para a História e, a bem dizer, pouco inova. O que surpreende – e preocupa – é a forma como a nossa passividade e complacência tem permitido que o pensamento politicamente correcto avance à velocidade da luz, ganhando metros sobre metros a cada segundo que passa. Aqueles que me têm lido sabem como nos últimos anos essa preocupação tem vindo a alimentar vários dos meus escritos na Atlântico e noutros locais.
A ideia peregrina de um livro de História único é, em minha opinião, apenas mais um degrau na escalada em direcção à criação de polícias do pensamento, cada vez mais omnipresentes, exigentes e coercivas. Há, na Europa uma miríade de Big Brothers que nos vigia, que nos impõe o ritmo e que nos diz o que devemos e não devemos pensar, tanto quanto ao futuro como quanto ao passado. Essa gente tomou posse da História e converteu-a numa espécie de casa dos espelhos onde pode adelgaçar ou engordar os acontecimentos ao sabor das circunstâncias. Dizem-nos que esse jogo de espelhos servirá nobres fins. Mas, ainda que isso fosse verdadeiro, seria uma justificação suficiente para o legitimar?
Dei aulas no secundário numa época em que o ensino da História estava ao serviço da promoção da democracia. Falava-se muito de Atenas e nada de Esparta; nada, também de Alexandre da Macedónia e muito pouco do Império Romano – tidos, ambos, por inadequadamente “imperialistas”. Um programa assim desenhado poderá ter contribuído para promover a democracia, mas os resultados em termos de conhecimentos adquiridos pareceram-me desde logo catastróficos. Tive, desde o início, a sensação de que alguém se esquecera, nessa engenharia didáctica, de que a História não é um mero instrumento para atingir fins políticos, por mais louváveis que sejam. É, também, entre outras coisas, uma maneira de compreender a trama dos acontecimentos humanos, de desenvolver o sentido crítico dos alunos e de estimular a procura da verdade.
Ora, será que o manual único com que nos acenam – ou ameaçam – lá da Alemanha promoverá tudo isso? Como será que através de um manual tendencialmente asséptico – para ser aceite por todos – se desenvolverão a curiosidade e sentido crítico dos alunos? Como poderá um livro deste género digerir e apresentar a história riquíssima de cada um dos países europeus? Que dimensão e espessura terá, por exemplo, a história de Portugal num manual desse tipo? Ficará reduzida a um pequeno digest da história dos Descobrimentos?
Estas e outras perguntas alimentam a preocupação com que venho assistindo à progressiva plastificação das nossas referências culturais. Uma plastificação que, significativamente, se processa ao mesmo tempo que disciplinas como História e Filosofia vão perdendo terreno nas organizações curriculares, e que cresce, em seu lugar, um pronto-a-vestir ideológico que se adopta de forma acrítica.