Sábado, 29 de Dezembro de 2007
2007 em revista
[
Revista Atlântico de Maio de 2007 . Nº 26]
Ponto de Vista Do jornalismo de sarjetaPedro Boucherie MendesPortugal e o seu jornalismo têm uma tradição valorada de não entrar no quarto das pessoas que são notícia. Há algumas excepções, mas servem como válvula de escape ao jornalismo e à curiosidade dos comuns
O ministro que me tutela profissionalmente – Augusto Santos Silva – definiu jornalismo de sarjeta como aquele que não respeita os artigos 25 e 26 da Constituição. Esses artigos dizem respeito à integridade moral e física das pessoas (que é inviolável e muito bem) e diz que a todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom-nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra quaisquer formas de discriminação. o fundo, julgo que posso resumir dizendo que o jornalismo de sarjeta é aquele que revela que X dorme com Y, Z engana a mulher ou que W é gay.
Estas letras são figuras públicas ou ocupam cargos públicos (e ou notórios) que os tornam notícia. As outras formas de jornalismo (descriminar, atentar contra a integridade, impedir alguém de desenvolver a personalidade, etc.) resultariam em crime, não em jornalismo (de sarjeta ou outro). A rule of the law é suficiente; não é necessário falar de sarjetas.
Se ainda está a ler este texto, que começa chato e ainda vai ser chato durante mais algumas linhas, suponho que está a concordar em pleno com a vontade do ministro.
Portugal e o seu jornalismo têm uma tradição valorada de não entrar no quarto das pessoas que são notícia. Há algumas excepções, mas servem como válvula de escape ao jornalismo e à curiosidade dos comuns (e provavelmente aos próprios).
Insisto que essa reserva da vida privada que caracteriza o nosso jornalismo é valorada por quem opina e se manifesta sobre o assunto. Se tivéssemos realeza, o nosso príncipe Harry bêbado não sairia nos jornais. Se Britney Spears fosse nome artístico de uma Ana Cristina, não a veríamos de cabelo rapado.
Mas o Harry britânico bêbado e a Britney americana careca saíram nos nossos jornais (de referência), sabiam? Bem sei que não faz mal, que eles estão longe e que são figuras públicas e, como li imensos textos densíssimos de semiótica e discurso dos media, estou em condições de explicar porque é que isso aconteceu nos nossos jornais de referência. Trata-se de… Bom, seria uma chatice explicar, o espaço é pouco, a atenção escassa e prefiro passar em frente. Os leitores da Atlântico são gente que não gosta de ser chateada, isso é um ponto a seu favor e proponho prosseguir.
Em Portugal, não é jornalismo de sarjeta perguntar se as pessoas (públicas mas não só) crêem em Deus, embora isso me pareça obviamente fazer parte da intimidade que a Constituição me assegura que posso manter reservada. Para mim, pelo menos, a fé religiosa é uma coisa íntima, donde a pergunta é de sarjeta. Mas a nossa tradição jornalística permite a pergunta e respectivas variantes: “costuma rezar?”; “apela a Deus?”, etc. E as pessoas respondem.
E há mais, muitas mais perguntas desse tipo, aparentemente inócuas, mas cujas respostas obrigam aquele que responde a abdicar de certos graus da reserva da sua vida privada. Vejam estas por exemplo.
– Gosta de viver em Lisboa?
– Não vivo em Lisboa. Estou em Lisboa de segunda a sexta. A minha cidade, o Porto, é a minha pátria. Gosto do granito do Porto, do escuro do Porto, da chuva do Porto, gosto sobretudo daquela cidade comercial e burguesa, a Invicta.
– Mas em Lisboa vai ao cinema, a concertos?
– Sim, sim. Aliás traçam às vezes perfis meus como ministro da área da Comunicação Social, depreciativos, dizendo que é público que eu detesto ver televisão e adoro ler livros, ver filmes e ir a óperas. Não detesto televisão, mas registo que ler livros e ver ópera é negativo para certos órgãos de Comunicação Social.
– É do FC Porto?
– Sou do Salgueiros. Estou na posição de sem-abrigo futebolístico. O clube acabou o futebol profissional, portanto estou assim. Tenho ligações ao Boavista, o meu filho joga lá andebol, e prefiro que ganhe sempre um clube do meu círculo eleitoral.
São perguntas e respostas ao ministro Santos Silva, na mesma entrevista ao Correio da Manhã onde ele falou do jornalismo de sarjeta. O ministro, como quase todos os nossos concidadãos, não ia perder a oportunidade de dizer que adora ler e adora ópera, não é verdade?
O jornalista, com as suas perguntas, julgou que estava a prestar serviço aos seus leitores, ao dar informações sobre a pessoa-que-é-ministro. Julgou e julgou bem. As perguntas estão bem feitas e são pertinentes. Mas, segundo o ministro são jornalismo de sarjeta.
O jornalista, a bem do jornalismo e do país e da Constituição, não perguntou ao ministro se ele foi para a cama com cinco, dez ou vinte namoradas antes de casar; não lhe perguntou se ele foi infiel; nem lhe perguntou se já injectou heroína, antes de chegar ao governo. Isso seria um absurdo, além de ser jornalismo de sarjeta. Certas coisas não se perguntam. Nenhuma destas respostas entronca na competência técnica e política do ministro e a entrevista era a um ministro. A um ministro que adora ópera, ler e torce pelo Salgueiros.
A minha categoria profissional não me define, embora seja, para todos os efeitos legais, jornalista. E ser jornalista em Portugal pode ser facílimo, como extremamente difícil. O que vale são certas e determinadas certezas que existem para me guiar.