Sábado, 29 de Dezembro de 2007
2007 em revista
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Revista Atlântico de Maio de 2007 . Nº 26]
In Partibus Ter opiniõespor
Paulo TunhasPor inconcebível que pareça, o escrito impresso goza ainda, para muita gente, da presunção de intimidade com a verdade: certamente um vestígio de analfabetismo
Os jornalistas são vítimas fáceis. É verdade que produzem diariamente opiniões, à vista de toda a gente (penso sobretudo na televisão), quando, na maior parte dos casos, deviam transmitir, na medida do possível, apenas informação. Por isso irritam. Aquele ar de certezinha satisfeita e virtuosa com que falam de tudo e mais alguma coisa, de Israel à “cultura”, exibindo invariavelmente a opinião comum ao conforto ideológico “progressista”, irrita. Irrita imenso.
Mas é quase sempre uma facilidade dizer mal dos jornalistas. Porque eles são muito parecidos com o resto. Eu ando desde há anos a surpreender-me com amigos – sublinho amigos; não “inimigos” – pela capacidade instantânea de, sem sinalzito de dúvida, mesmo passageira, adoptarem como indiscutível uma opinião sobre um qualquer assunto de que em nada a vida e os interesses do espírito os fazem parentes ou que, pela sua natureza própria, se encontra para lá da possibilidade de inquérito. De vez em quando, lá satisfaço, depois, a curiosidade: vinha no Expresso, ou noutro sítio qualquer. (Por inconcebível que pareça, o escrito impresso goza ainda, para muita gente, da presunção de intimidade com a verdade: certamente um vestígio de analfabetismo.)
E as crenças fortes, mesmo artificialmente induzidas, engendram entusiasmo, o que as torna naturalmente apetecíveis. No princípio do ultraje com aquilo sobre Salazar pensei, na minha ingenuidade, que toda a gente estava maluca – uma suposição, que, de resto, nada tinha de implausível. Só depois percebi verdadeiramente do que se tratava. Era um exercício de entusiasmo colectivo em que se tratava sobretudo de mostrar a força das crenças, e tão mais intenso quanto movido por uma mola poderosa: a indignação. O “operador-indignação”, por assim dizer, não falha. É tratá-lo com jeitinho e ficamos entusiasmadíssimos e muito verbais. E no fundo, no fundo, quem é que não quer andar entusiasmado?
Eu lembro-me. Entre os meus dez e catorze anos fiz a experiência de três crenças irredutíveis, absolutas, sem vestígio de qualquer dúvida. Omito as duas primeiras, por uns restos de pudor (e com pena: a segunda era bem interessante). A terceira posso contar. Era o sentido da história. Provavelmente por causa do Manifesto de Marx e Engels e do espírito do tempo (1974) a coisa não me parecia susceptível de qualquer hesitação. Havia um sentido da história, perfeitamente definido e visível, manifestamente palpável. Não era a evidência das evidências? Negá-lo era como se me dissessem que aquela mesa que estava ali não existia. Literalmente. Passou relativamente depressa, mas lembro-me perfeitamente.
As dúvidas chegam de diversas maneiras e, normalmente, vêm para ficar. Esquerda/direita, por exemplo. Percebe-se que as pessoas digam “ser” de esquerda ou de direita quando querem agir politicamente. Tecnicamente, é um performativo. Eu digo que sou de esquerda (ou de direita) – e torno-me de esquerda (ou de direita), o que é, em parte, condição de acção. Dizer é fazer. Mas, fora da esfera estrita da acção política empenhada – quer dizer: da acção partidária -, os conceitos não possuem qualquer valor descritivo ou explicativo, e muito menos ontológico (“ser” de esquerda, “ser” de direita). São perfeitamente legítimos, é claro – mas, fora desse domínio restrito, espúrios, porque relevam mais daquilo que se poderia chamar “estética política”. Uma espécie de fetichismo. Sobre o qual não fica mal duvidar.
A filosofia talvez ajude. Quando se estuda um autor – digamos: Rousseau, ou Fichte – é-se obrigado a perceber a sua maneira de pensar. Não apenas a doutrina, mas o gesto que a constrói. Mais simplesmente: o que se passa na cabeça dele. O que, se não nos obriga a abandonar completamente uma perspectiva crítica sobre o autor, coisa de resto impossível no caso da cabecita exercer a sua função, exige-nos certamente que a façamos conviver com a reprodução em nós da maneira de pensar que lhe é própria (o que os brilhantes exercícios superficiais de Isaiah Berlin, e do grosso da “história das ideias”, omitem por inteiro). A utilidade das disciplinas não-cumulativas, como a filosofia, ou da arte, reside em elas nos ensinarem que em muitas esferas não há progresso, linear ou outro. Kant não “progride” relativamente a Aristóteles, Manet relativamente a Tintoretto. Newton sim, relativamente a Galileu (pelo menos num sentido banal). Mas, no plano não-cumulativo, os pontos de vista são inúmeros e absolutamente singulares. Convém fazer o périplo.
Qual é a vantagem disto? É que, habituando-nos a conviver com vários pontos de vista, e ao esforço que isso requer, ajuda a ter dúvidas, a ser mais parcimonioso nos entusiasmos e a pensar menos a crédito, como diria Montaigne. O que não é obviamente incompatível com ter opiniões: não digo que, contrariamente a duas teses célebres, no princípio seja a inacção ou o silêncio. É incompatível é com um certo modo entusiasta e delirantemente virtuoso de opinar, que irrita como o diabo. Enfim, pelo menos irrita um bocadinho.