Sábado, 29 de Dezembro de 2007
2007 em revista
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Revista Atlântico de Julho de 2007 . Nº 28]
Conversas AtlânticasNuno Wahnon Martins entrevista
Bat Ye’Or:
“A Europa submeteu-se à Jihad”A académica britânica Bat Ye’Or é autora de oito livros, entre os quais se conta o famoso “Eurabia: o Eixo Euro-Árabe”. Especializada na História das comunidades não-muçulmanas do Médio Oriente, Ye’Or afirma que existe uma aliança euro-árabe que deu lugar a “uma justificação europeia da Jihad ideológica e militar palestiniana contra Israel”. A guerra santa islâmica é ocultada na Europa
A sua pesquisa histórica tem sido feita sobre a sobrevivência das comunidades não-muçulmanas nos países do Médio Oriente, ou seja, do conceito de dimitude. A que se deve o seu interesse neste tema?Nasci no Egipto, de pai italiano e mãe francesa. Tive uma infância muito feliz. Durante a II Guerra Mundial, embora fosse muito jovem, percebi que os meus pais tinham medo e se sentiam muito inseguros. Mais tarde vim a perceber qual o motivo que os preocupava e o perigo que enfrentavam. Os nazis e os fascistas italianos tinham uma forte aliança com os países árabes, em especial com o Egipto. O anti-semitismo e a propaganda palestiniana eram demasiado fortes, tendo influenciado os acontecimentos após a II Guerra. Refiro-me aos ataques e saques realizados contra os judeus e contra os ingleses. Este perigo acentuou-se com a independência do Estado de Israel. A partir de 1956 acentuou-se a ameaça às comunidades judaicas, nomeadamente através do aumento da natureza de excepção particular dos judeus face à sociedade em geral. Assisti a todo um êxodo e à morte de uma comunidade milenar no Egipto. Compreendi depois, através da minha pesquisa, que este êxodo não era somente característico do Egipto, mas de vários países árabes. Todas as privações que a comunidade judaica enfrentava e que levaram à instalação de um clima de terror, fez-me procurar e pesquisar sobre as causas destes ataques, tendo ai encontrado o conceito de dimitude.
O que significa o conceito de dimitude?Este conceito, que acaba por abranger todos os não-muçulmanos, nomeadamente os judeus e os cristãos, levou à sua destruição pela guerra militar, tentando inscrevê-los no sistema de dimitude. É uma classificação legal inscrita na lei islâmica e que seria aplicável a qualquer população conquistada por um governo islâmico, conduzindo à sua eliminação e destruição em todos os pontos de vista: políticos, culturais, sociais, etc. A minha pesquisa conduziu ainda à descoberta de que o conceito de Jihad, que é um conceito histórico dinâmico e contínuo, está intimamente ligado ao conceito de dimitude. A intenção é dominar as populações não-muçulmanas, através da Jihad, inserindo-as depois no sistema de dimitude.
Pensa que o conceito de dimitude se manifesta no Ocidente?Depois de 1973 [após a Guerra do Yom Kippur e a consequente crise petrolífera], os países da Comunidade Europeia, submetidos à ameaça do petróleo e do terrorismo palestiniano, decidiram entrar numa aliança informal com os países da Liga Árabe. Para assegurar esta aliança toda a história da Jihad, que era ensinada nas escolas europeias, foi banida e ocultada para não ferir as susceptibilidades das comunidades muçulmanas da Europa. Alteraram-se os factos históricos. Esta aliança euro-árabe foi estabelecida num programa económico, cultural e político, baseado na unidade do mundo mediterrâneo. Um programa inserido na nossa sociedade através do multiculturalismo. A Europa aceitou ainda apoiar os movimentos palestinianos como fundamento desta nova aliança. Tendo começado aqui uma guerra subterrânea da Europa contra Israel. Uma justificação europeia da Jihad ideológica e militar palestiniana contra Israel. A Europa decidiu assim submeter-se à Jihad.
Mas isso não prova que exista uma manifestação de dimitude no Ocidente?A dimitude europeia manifesta-se do seguinte modo. Na Lei Islâmica o estatuto do judeu é similar ao do cristão. A Europa, ao fazer uma aliança contra a soberania territorial israelita, negando-se a legitimidade da sua existência, está a autocondenar-se. Resumindo: primeiro temos uma ideologia, a Jihad, depois temos a recusa da história, quando a Europa faz desaparecer os conceitos de dimitude e de Jihad, e em terceiro aceitamos a ideologia islâmica, não a podendo criticar, sob pena de sermos acusados de islamofobia. Na verdade, a Jihad é uma guerra genocidária que a Europa deixou de considerar com tal. Por outro lado, para o Islão, o conceito de dimitude é, igualmente, uma definição ética que apresenta o Islão como generoso e pacífico e que não oprime as comunidades conquistadas.
Que exemplos concretos pode dar?O principal exemplo que se pode dar é o do mito do Al Andaluz, como o modelo árabe por excelência.
Mas porque é que considera o Al Andaluz um mito?Considero-o um mito porque na Andaluzia do século VIII foi adoptado como sistema político o rito maliquita da Sharia, que é um dos mais severos face aos não muçulmanos. A partir daí existiram guerras contínuas contra as populações subjugadas e um estado constante de insegurança.
Como vê a cidade de Toledo neste contexto?Toledo teve o seu apogeu após a reconquista cristã. Todos os anos o emir de Andaluzia, que tinha o título de Califa, tinha a obrigação de realizar a Jihad contra o inimigo cristão. É óbvio que, embora todas as guerras fossem horríveis nesta época, a Jihad era uma guerra particularmente horrível, porque o objectivo era eliminar e não conquistar. Em seguida eram praticadas Hazias nas terras cristãs de forma a obter escravos para a corte do califa, nomeadamente crianças cristãs para a guarda pessoal deste. A escravatura foi um dos pilares do império árabe. O governo tinha como base a escravatura. Esta página da escravatura nas sociedades árabo-islâmicas ainda não está devidamente estudada.
Pensa que existe um sentimento de reconquista da Europa por parte dos defensores da Jihad?Claro que sim. Existe a vontade de reconquistar todos os territórios que foram muçulmanos. Contudo é preciso distinguir entre aqueles que querem impor a Sharia [Lei Islâmica] e os outros que apenas praticam a religião. Estamos perante uma ideologia, e como em todas as ideologias, existem os que são a favor da Sharia e os que são contra. Não temos estatísticas para saber quem pertence a que lado. Existem muçulmanos que fugiram para a Europa para fugir desta ideologia, para fugir dos regimes que os perseguiam como apóstatas. Existe uma luta interna entre os muçulmanos para impedir que esta ideologia avance para o Ocidente. Os que se opõem à Jihad no interior dos países muçulmanos são a primeira linha contra a islamização do Ocidente por uma ideologia sustentada pelo petróleo e pelo Irão.
Poderão os governos europeus combater este desígnio? O problema é que os governos europeus não se querem mexer pois qualquer acção poderá ter consequências a vários níveis: económico, político e social. Veja o exemplo do caso das caricaturas de Maomé. Com esta atitude as populações europeias não ficam ao corrente da ideologia da Jihad, já que a política da União Europeia consiste no desenvolvimento de uma aliança de civilizações. Este novo conceito que é o multiculturalismo consiste numa aliança entre a Europa e o mediterrâneo, ou seja, os países árabes. O contexto é de aliança e não de oposição. Uma oposição significa guerra e a Europa opõe-se por natureza ao princípio belicista. Esta é a diferença em relação aos Estados Unidos, já que estes guardaram o conceito da guerra para se defenderem. Para a Europa não há inimigos, não há Jihad, adoptou-se a soft diplomacy ou seja, a concessão continua. No contexto desta concessão, encontramos a aplicação de algumas leis da Sharia na Europa. Como exemplo temos a condenação da liberdade de expressão perante a acusação de islamofobia, ou seja, a impossibilidade de criticar o Islão. Podemos criticar todas as religiões, excepto o Islão. Não podemos criticar a Jihad. Não podemos criticar o contexto histórico da conquista islâmica do ocidente, isto é, vivemos como nos países árabes, debaixo de uma censura. O que é isto senão a aplicação do conceito de dimitude na Europa?
Há pouco falou daqueles que se opõem internamente à Jihad. Qual é o papel dos moderados do Islão? Pensa que Tarik Ramadan faz parte desse grupo?Quando me refiro a moderados penso especialmente em Bassam Tibi, professor de origem síria na universidade de Gottingen e que agora ensina nos EUA. Este é um dos maiores críticos desta ideologia totalitária e que rege a estrutura das relações entre a Europa e os países árabes. Ele não tem medo de criticar este aspecto do Islão sem abdicar da tentativa de modernização dos aspectos jurídicos e religiosos do passado. Tarik Ramadan coloca-se no plano oposto, o que ele pretende na verdade, é islamizar a modernidade. O que é bastante diferente. Esta é uma atitude intelectual que começou por ser ensinada em Inglaterra, no Instituto do Pensamento Islâmico de Londres e no Instituto do Conhecimento Islâmico de Leicester. É uma atitude que pretende islamizar o conhecimento, ou seja, fazer entrar nos conceitos modernos um conjunto de definições islâmicas radicais que acabam por justificá-las por pertencerem à modernidade. Ficamos dependentes de um discurso que roda por si mesmo. Justificamos a guerra contra Israel, justificamos a diferença entre os sexos, justificamos a Jihad e a oposição à soberania não muçulmana.
Mas também é verdade que existe uma oposição entre os Estados do Golfo e o Irão. Havendo esta oposição porque é que ambos apoiam financeiramente a Jihad na Europa?Sempre houve um entendimento entre as diversas facções muçulmanas. Foi assim que o Islão conseguiu sair de Meca no século VII e conquistar um vasto território em três continentes. Há uma estratégia que é o da conquista do Ocidente. Existem igualmente tácticas que se adaptam às possibilidades de cada época, contudo, a estratégia está sempre lá. O que é preciso é jogar com as possibilidades oferecidas pelas conjunturas. Sempre houve uma oposição entre os sunitas e os xiitas. O Império Otomano entrou em guerra com a Pérsia. Continuamos na história e nunca poderemos sair dela. A estratégia sunita, que é criticada pelas massas islâmicas, é a da aliança com o Ocidente de forma a receber enormes fundos financeiros dos países ocidentais. Veja o que a América e a Europa pagam aos países árabes. Veja o que se passa na Palestina. São estes fundos que fazem viver a própria população palestiniana. Os chefes de estado sunitas necessitam do Ocidente para fazer viver os seus próprios países. Assim sendo, estes chefes acreditam que o Irão veio reforçar as posições críticas dos movimentos fundamentalistas nos seus próprios países, como por exemplo em Marrocos e no Egipto. Dai existir esta forte oposição ao Irão.
Acha que a Europa se possa opor ao financiamento da Jihad?A aliança de civilizações estabelecida entre Zapatero e Erdogan leva-nos na direcção oposta. Aliás, o primeiro-ministro turco está no topo de um movimento islamista que sonha com a reconquista dos Balcãs, que foi muçulmana até ao século XVII e até à primeira guerra mundial em alguns territórios. No mesmo sentido em que os árabes sonham em reconquistar a Andaluzia, a Turquia sonha com a Europa Oriental que lhe pertenceu. Vivemos numa situação similar à das cruzadas, ou seja, os almorávidas e os almóadas a oeste, os turcomanos contra o império bizantino. A história continua ao cercar-se a Europa por este e oeste. Vemos o regresso desta ideologia através da aliança de civilizações, através da imigração que se verifica em Espanha. A Europa deverá impor aos governos islâmicos uma mudança de política através da proibição dos fluxos migratórios. Devemos aceitar os refugiados políticos mas não todo o tipo de imigrantes. Devemos exigir aos imigrantes a sua integração na identidade europeia e a aceitação das leis dos países europeus. Isto é algo que não fizemos até hoje. Esta aliança de civilizações baseia-se igualmente no ódio à América e em enfraquecer os poderes americanos ao criar uma aliança latino-americana com o mundo árabe. Zapatero fez isto na esperança de diminuir a ameaça da Jihad, mas os efeitos tem sido precisamente os contrários. Para se opor à Jihad é preciso usar a força. As forças jihadistas destroem-nos por dentro, o que não nos permite que nos aliemos a elas.
Acredita que a entrada da Turquia na União europeia será benéfica para a Europa?Não acredito. Será um sucesso para a Jihad e uma derrota para a Europa. A União Europeia foi construída através da destruição dos nacionalismos e das culturas nacionais. Além do mais vivemos num contexto fragmentado onde não existe uma direcção. Não sabemos para onde vamos no plano espiritual e no plano intelectual. A Turquia é um país militarista extremamente estruturado e que não corresponde à ideia existente hoje em dia na Europa, o da renúncia ao militarismo.
Mas também é verdade que é um país laico...A laicidade da Turquia é diferente da laicidade europeia. A Turquia é um país onde não se pode falar do genocídio arménio. É um país laico com muitos parênteses. Não se pode construir igrejas. É um país com uma forte identidade islâmica e que vai entrar num Europa fragmentada, desunida. A Turquia não é igualmente um país europeu geograficamente. Então porque deve entrar na Europa? A Turquia pretende demonstrar que o Império Otomano, tal como o Al Andaluz, era um governo tolerante face aos não-muçulmanos. O que não é verdade. A Turquia não está preparada para fazer a autocrítica da sua história de Jihad, da sua história de dimitude, da sua história de conquista e de opressão. E esta opressão, que era uma virtude e não uma injustiça, está prestes a recomeçar. O que é justo na Turquia não é o mesmo para a Europa. As ordens sociais não se entendem. Para concluir, considero que seria um grande erro fazer entrar o mundo muçulmano na Europa. Existe ainda esta ideia de conquistar a Europa. Se nos opusermos a esta ideologia haverá um futuro, caso contrario reinará o regime da dimitude na União Europeia.