Sábado, 29 de Dezembro de 2007
2007 em revista
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Revista Atlântico de Junho de 2007 . Nº 27]
Opinião Internacional A alma da Turquiapor
Vasco Rato, em Istambul
Existem argumentos para apoiar ou rejeitar a adesão da Turquia. Mas independentemente da posição adoptada, convém salientar que a discussão em volta desta eventualidade é, hoje, uma questão da política interna turca. Estamos perante um país onde o islamismo assume um impulso liberalizador
Vista da colina do distrito comercial de Bayoglu, a assombrosa Mesquita Azul domina o horizonte da Istambul histórica. A grandiosidade da mesquita, as chamadas à oração diárias e o número elevado de mulheres que, obedecendo à tradição, optam pelo uso do lenço para tapar a cabeça, recordam-nos que a Turquia é uma sociedade onde a religião se encontra solidamente enraizada no quotidiano.
A “questão islâmica”, periodicamente suscitada na Turquia, regressou a propósito da eleição de um novo Presidente da República. Eleito pelo parlamento, o chefe de Estado possui escassos poderes. Pode, porém, nomear pessoal dirigente nas universidades, na administração e nos tribunais. Tem, portanto, uma influência significativa no recrutamento das elites nacionais. É justamente este poder – melhor dizendo, a possibilidade de o perder – que perturba o establishment laico que domina a república. Gozando de uma maioria absoluta no parlamento, o partido da Justiça e do Desenvolvimento (AK), liderado por Recep Tayyip Erdogan, propôs o actual ministro dos negócios estrangeiros, Abdullah Gul, para o cargo. De imediato, os sectores laicos, com destaque particular para as forças armadas, declararam que se tratava de uma proposta inaceitável na medida em que a eleição de um islamista constituía um perigo mortal para o laicismo.
No Ocidente, a instabilidade política das últimas semanas é descrita como um conflito em volta da “alma da nação”, como uma batalha entre o Islão e a república secular fundada por Kemal Ataturk e depois preservada pelas forças armadas. Não deixa de haver alguma veracidade nesta leitura. Mas se é verdade que o AK tem as suas origens no islamismo, é igualmente verdade que o partido não pode ser caracterizado como fundamentalista, ou como uma organização dedicada à islamização do país. Na ausência de provas quanto a essa “islamização”, as forças armadas e os partidos laicos apontam para uma “agenda secreta” do AK, agenda invocada para justificar a ameaça de golpe de Estado proferida pelo chefe do Estado Maior, no dia 27 de Abril.
Com efeito, o governo de Erdogan tem dado um contributo colossal para a democratização do país. Essa abertura democrática tem vindo, paulatinamente, a levantar dúvidas quanto ao papel de “guardiães da constituição” desempenhado pelos militares. Dito de outra forma, torna-se crescentemente evidente que o perigo islamista continua a ser invocado para legitimar a tutela militar do sistema político e a preservação dos privilégios (também económicos) da elite laica.
Dir-se-á que os islamistas do AK são a força que mais está a contribuir para a democratização plena da Turquia. Por esta razão, as questões de política interna turca convergem com a eventual adesão do país à União Europeia. As elites laicas e nacionalistas demonstram uma crescente desconfiança em relação à Europa e começam a adoptar um discurso hostil às “imposições” da UE. Em contrapartida, o governo do AK tem pautado o seu mandato pela tentativa de “harmonizar” as leis turcas com os critérios de adesão, ou seja, prosseguem uma estratégia de europeização. Também por esta razão, Bruxelas imediatamente se opôs à ameaça de golpe militar de 27 de Abril.
Existem, é certo, argumentos para rejeitar a adesão da Turquia. Uns dirão que, com a sua população de 70 milhões de muçulmanos, o país representa um “cavalo de Tróia” que tornará a Europa vulnerável à “penetração islâmica”. A integração da Turquia seria, pois, o princípio do fim da Europa como entidade civilizacional. Por outro lado, o subdesenvolvimento turco significa que os custos da integração seriam proibitivos, e, invariavelmente, acabariam por ser suportados pelos membros mais periféricos.
Para os adeptos da integração turca, trata-se de uma decisão que conduziria à consolidação da democracia e a um modelo alternativo ao fundamentalismo islâmico e às ditaduras autocráticas que alastram pelo Médio Oriente. Para além de conferir legitimidade aos reformistas que hoje combatem pela democratização do mundo árabe, uma Turquia democrática integrada na União Europeia refutaria a ideia de que existe uma incompatibilidade entre o Islão e a democracia. Nesse sentido, a adesão turca afigura-se como um contributo, porventura decisivo, para a alteração da carta política do Médio Oriente. A presença da Turquia também reforçaria a segurança da Europa, particularmente no seu flanco sul, onde se registam as ameaças mais preocupantes.
Independentemente da posição adoptada relativamente à integração da Turquia, convém salientar que a discussão em volta desta eventualidade é, hoje, uma questão de política interna turca. Actualmente, os islamistas do AK representam uma força de democratização, enquanto o laicismo republicano dos kemalistas ameaça degenerar num nacionalismo chauvinista e autocrático. Estamos, pois, perante um país onde o islamismo assume um impulso liberalizador. Perante a tragédia que é hoje o Médio Oriente, e face à popularidade dos fundamentalistas, o AK está a emergir como um modelo alternativo que nos oferece esperança quanto ao futuro.