Domingo, 30 de Dezembro de 2007
2007 em revista
[Revista Atlântico de Junho de 2007 . Nº 27]

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Europália 

As lições de Sarkozy

por João Marques de Almeida
O que nos disseram as eleições francesas sobre o estado das direitas e das esquerdas na Europa? Nicolas Sarkozy demonstrou que as eleições não se ganham ao ‘centro’. Ganham-se unindo a direita

As eleições presidenciais em França foram mais do que eleições francesas. Não me refiro às implicações para a política europeia de Paris e às respectivas consequências para a Europa. O ponto que interessa analisar aqui é o que as eleições francesas nos disseram sobre o estado das direitas e das esquerdas na Europa, assim como o impacto dos resultados nas respectivas famílias políticas.

Há uma questão preliminar que é importante chamar à atenção. A crescente proximidade entre os diferentes partidos nacionais das várias famílias políticas é um dos efeitos mais relevantes da integração europeia e, simultaneamente, dos menos estudados. As direitas e as esquerdas europeias também se estão a integrar (e aqui o Parlamento Europeu tem um papel decisivo). A integração ocorre a dois níveis. Por um lado, no plano ideológico e doutrinal. A “terceira via” foi um exemplo recente, na área do centro-esquerda. Por outro lado, no plano da identidade e da solidariedade política. Décadas de democracia e de competição política entre partidos das esquerdas e das direitas moldam as identidades políticas dos líderes europeus. E, obviamente, a institucionalização das famílias políticas europeias ajudam a consolidar essas identidades. Os sentimentos de partilha de valores e de interesses com os outros partidos da mesma família política, e mesmo a tendência de homogenização de doutrinas, são cada vez mais fortes. Além disso, a normalidade democrática, juntamente com a integração europeia, transforma os partidos das outras famílias políticas nos principais adversários.
Aliás, este antagonismo está a tornar-se no segundo factor de identidade política na Europa, a seguir ao nacionalismo.

Ainda não tem a mesma influência, mas vai aproximando-se. Hoje, os líderes políticos europeus passam muito mais tempo em debates, em discussões e em competições com rivais de outros partidos, mas da mesma nacionalidade, do que com adversários de outras nacionalidades. Pode-se falar cada vez mais de direitas e esquerdas europeias; e de competição entre elas, e não apenas entre nações.

É neste contexto que se deve discutir as lições da vitória de Sarkozy. A primeira lição foi a afirmação clara do candidato de que pertence à direita, logo no discurso de apresentação da candidatura em Janeiro. Não se escondeu atrás do “centro”. Disse donde vinha, o que defende e onde está politicamente. De resto, o discurso é um exemplo de clarificação de um projecto político. Esta afirmação foi decisiva para a sua vitória. Os eleitores gostam de identidades claras. Vêm nisso um sinal de força política e estão dispostos a seguir os líderes fortes, principalmente em tempos de incertezas. Foi assim que Sarkozy mobilizou e uniu, desde o início, as várias direitas francesas. A afirmação, e não a ambiguidade, é a mãe dos grandes triunfos políticos. O resultado foi uma votação acima dos 30% na primeira volta, uma das mais altas de sempre da história das eleições em França, e cinco pontos de avanço em relação à candidata socialista. A partir daí, só um desastre, ou sinais de grande fraqueza é que poderiam evitar a eleição de Nicolas Sarkozy, como de resto reconheceram os próprios socialistas, depois da segunda volta. E Sarkozy poderia ter fraquejado. Após a primeira volta, a maioria dos analistas afirmou, sem hesitações, que o eleitorado de Bayrou, o “candidato do centro”, seria a chave para a vitória. A tentação de muitos poderia ser a “viragem para o centro”, ao encontro dos 18% de eleitores centristas. Foi aliás o que fez a candidata socialista. Sarkozy resistiu à tentação e fez o oposto. Manteve o seu discurso, preservando a mobilização do seu eleitorado, e “obrigou” parte do “centro” a ir para a direita, aceitando o mérito das suas propostas. Ao contrário do que muitos dizem, Sarkozy demonstrou que as eleições não se ganham ao “centro”. Ele ganhou-as unindo a direita e convencendo uma margem importante do eleitorado do “centro”. Esta é a segunda lição da sua vitória.

Mas há ainda uma terceira lição. Para se seguir a estratégia de Sarkozy, é necessário algumas qualidades. Antes de mais, a coragem daqueles que têm mais vontade de ganhar do que medo de perder; e orgulho nas suas ideias e na sua identidade política. O orgulho e a afirmação dão força e mobilizam. A ambiguidade enfraquece e dispersa. Mesmo quando se conseguem maiorias, elas desfazem-se às primeiras contrariedades. Sarkozy não se limitou a ganhar. Ganhou com 85% dos franceses a votar. Tinha toda a razão quando disse, “comigo vai ganhar a maioria silenciosa”.

publicado por Atlântico
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