Domingo, 30 de Dezembro de 2007
2007 em revista
[Revista Atlântico de Fevereiro de 2007 . Nº 23]

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Deus nos dê coragem


por Vítor Cunha
O medo dita o acto. No país do respeitinho as certezas paralisam. Ai que saudades dos maoístas: “Ousar lutar, ousar vencer”

1 Há uma vontade natural de julgamento definitivo do efémero e do presente. É por isso que nos enganamos. Permitimos que a emoção ou a razão das ideias se sobreponha à razão das coisas. O ano de 2006 foi de alguns enganos calculados e de outros surpreendentes. 2007, aguarda-se, será tempo de mais calma e menos exasperação.
Os destinos da Pátria estão nas mãos de dois homens singulares e deles se espera muito, sabendo nós por antecipação que não são homens de grandes rupturas nem ideias novas. Aníbal Cavaco Silva ficará como o político da normalização democrática conseguida pela estabilidade de políticas e pela garantia de competência e seriedade. Admite-se que ninguém o verá como o revolucionário que liderou movimentos de descontinuidade ou propôs mudanças de paradigma. Com ele, acima de tudo, conquistou-se a certeza institucional. Primeiro nos dez anos de governo, agora em dez anos de presidência.

[Os nove que ainda faltam não trarão surpresas, porque o presidente não gosta delas e não sabe viver com elas.]

José Sócrates é um homem de sorte. Cavaco Silva é o presidente ideal: percebe bem o clima macro e não é capaz de deslealdades ou birras, como outros mais maduros, mais interessantes, mas menos consistentes. E mesmo quando quiser afirmar a sua autonomia estratégica, Cavaco não beliscará o seu modelo de “cooperação”.

Ainda é cedo para avaliar o governo deste PS de agora. Até 2009 temos um campo minado pela frente; não sabemos se a economia cresce, se os impostos descem, se a erosão do poder molesta muito ou pouco. Mas, até agora, e com os dados que vamos tendo, sabemos que o PS tem condições para repetir a maioria absoluta. Nestes dias esta certeza atravessa a sociedade, dita as manobras partidárias, as opções dos empresários e as expectativas de quem assiste da bancada ou do balneário. Este tipo de certeza, a prazo, mata. Porque é fundada no medo e na ausência de pensamento próprio estabilizado.

2 Bancada, balneário. Os leitores da Atlântico não merecem linguagem de taberna, mas não vejo melhor para a circunstância. O país está poluído de treinadores de bancada e de jogadores que não arriscam sair do balneário. No poder ou na oposição, à Esquerda e à Direita. Criou-se um dicionário comportamental que todos seguem, como se “realmente” tivesse que ser assim. O pequeno cálculo matreiro é mais valorizado que o risco. Veja-se o “caso Nuno Melo”: o deputado disse o que pensava e acabou crucificado porque alguém inventou que o líder parlamentar deve obediência ao dono da direcção. Mesmo aqueles que sabem – e dizem no conforto do anonimato – que a direcção do CDS é pouco eficaz, não perderam tempo a criticar. O medo é um agente terrível.

3 – Por falar em CDS: a actual direcção política merece ser preservada e devia levar o partido às eleições legislativas de 2009. Merece, pelo esforço. Há muitos anos que defendo um único partido na Direita e no Centro. Ribeiro e Castro, e as evidências não mentem, tem dado um bom contributo para esse fim. Todos sabemos que não é fácil, mas não é impossível. O sector mais jovem e liberal do CDS devia unir-se por Castro e obrigá-lo a resolver um problema sério que o CDS tem: um partido pequeno de mais para tantas ambições. Mas como têm medo de sair ou de extinguir a agremiação, vão ficando.

4 – A agenda política do país é inteiramente dominada pelo Governo e pelo primeiro-ministro. José Sócrates é um político transparente e sério: tem um programa e aplica-o da melhor forma que sabe e pode (às vezes com o sofrimento próprio de quem tem de carregar ao colo alguns seres menos dotados para a governação). Pode não gostar-se do estilo, das políticas ou até das suas gravatas, mas tem de reconhecer-se que o PM se mantém fiel ao plano.

Dos outros lados, das oposições, chegam-nos gritos, lamentos, contradições, mentiras e muita demagogia. Se fizermos um exercício sumário e perguntarmos quais os contributos válidos e substantivos do PCP, do BE, do PSD e do CDS para o país desde as eleições legislativas de 2005, facilmente concluiremos que aqueles partidos não mereceram os votos que tiveram. E é este facto que está a ditar o sucesso provisório do governo: os portugueses aguentam o “reformismo” do momento porque não conhecem outro. E agora é a minha vez de ter medo: mais seis anos “disto” (até 2013) não trarão nada de bom, porque nenhum corpo aguenta tanta dormência.

5 – No essencial, a obra deste governo tem consistido na reforma do Estado Social. É uma boa receita para garantir uma certa paz, mas não conseguimos antecipar a magnitude dos resultados. Sabemos, também, que há uma agenda alternativa, mas não conhecemos quem a defenda: é o impasse do medo, do medo de mudar e do medo de assumir.

publicado por Atlântico
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Comentários:
De viverumdia ( A dedicação da minha vida) a 18 de Novembro de 2008 às 19:17
È verdade! Mas que que lindo e verdadeiro este artigo. Pois tinha que ser um parente e que por sinal patriota, muito bem, parabéns ...Portugal precisava de muita gente desta a dizer as verdades, por vezes ficam nos bastidores, mas o parente sabe enfrentar a realidade, não está só! Eu estou consigo.


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