Terça-feira, 8 de Abril de 2008
Podem os católicos ser liberais?
Na semana passada, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa queixou-se que o Governo exclui a presença católica da política. D. José Ortiga, arcebispo de Braga aproveitou para acrescentar que o Estado não deve ser "militantemente ateu". Este assunto, chama à baila um ensaio, escrito por mim e pelo
Adolfo Mesquita Nunes, na Revista Atlântico em Maio do ano passado, intitulado ‘Os Católicos e o Estado Laico’.
Nesse artigo, tanto eu como o Adolfo, defendemos que os católicos enfermam de um problema que caracteriza o país: gostam demasiado do Estado e pretendem que este atenda, na medida do possível, os seus pontos de vista. Da mesma forma que os socialistas, os católicos pretenderam fazer valer os seus valores através do poder público. Ao fazê-lo, tornaram-se nuns socialistas que se diferenciam destes apenas por acreditarem em Deus. Dizem-se de direita tão só por serem católicos conservadores, numa distinção política digna do século XIX.
A Igreja deve ser livre de difundir as suas crenças. Não de as impor. Se acha que a visão que tem da sociedade está a ser destruída, deve lutar para fazer valer os seus princípios, em todo o lado, mas nunca utilizando o poder do Estado. A Igreja tem preocupações sociais? Que as resolva, por si, sem esperar apoios e reconhecimento. Pode começar por propor que as suas escolas sejam livres de escolher os programas de ensino que considere mais convenientes. Reconhecendo que as suas escolas são caras, pode sugerir que o Estado deixe o mercado funcionar, permitindo o surgimento de mais escolas privadas, com propinas mais baratas e acessíveis a um maior número de alunos. A Igreja (e os católicos) devem desistir do Estado e recuperar, dessa maneira, a liberdade de escolha. Que cada cidadão tenha mais poder para decidir a sua vida e, dessa forma, não seja ameaçado pelas decisões centralistas de quem é ateu.
De Um católico a 8 de Abril de 2008 às 12:17
Nem mais! Subscrevo inteiramente
Como deve saber, pelo menos desde a ascenção do Liberalismo em Portugal, a Igreja tornou-se um departamento de estado. Primeiro as nacionalizações dos conjuntos monásticos e a transferência das nomeações dos sacerdotes para os governos, depois, já com a República, o confisco dos bens eclesiásticos comutou a acção da Igreja. Hoje em dia, quem paga as obras na igreja, os lares paroquiais, os adros, os altares exteriores e os coretos para a festa? Desistir do Estado? E depois?
Nem mais
Muito bom, com duas excepções:
1. a pergunta do titulo «podem», parece-me pouco liberal e muito ortodoxa.
2. A generalização (ou colectivização, se preferirem) pela expressão «os católicos», parece-me inadequada, pois que há, como sempre houve, correntes liberais dentro do catolicismo.
De
jmvfaria a 8 de Abril de 2008 às 18:26
Os subsídios camarários para a Igreja e suas festas religiosas são enormes. Mesmo em pequenos concelhos.
De Carlos Fernandes a 8 de Abril de 2008 às 20:16
Caro amigo, como catolico discordo do seu texto, o Estado pode ser laico, a sociedade e os cidadaos contribuintes que sustentam o aparelho -tantas vezes parasitario e perdulario - do Estado, nao sao, salvo uma pequena mas muito activa minoria.
(não ficou o anterior comentário)
Um texto interessante (que se compreende onde quer chegar), mas que «peca» em dois detalhes: a pergunta «pode?», pouco liberal e de tendencia ortodoxa, e a colectivização «dos católicos», pois que os há de todas as cores e feitos, sendo que a corrente de pensamento liberal tem um longa tradição dentro do catolicismo.
Sendo católico (e pela vossa classificação de esquerda ainda por cima) faz-me um pouco confusão a vossa classificação. Pessoalmente concordo inteiramente que o estado deve ser inteiramente laico, que não deve existir nenhuma vantagem para a igreja católica excepto nos casos específicos em que esta cumpre uma função social para além da estritamente religiosa e que esta vantagem deve ser exactamente igual a qualquer outra entidade que a faça de acordo com as regras estabelecidas. E agora onde é que eu fico na vossa matriz?
De libertas a 9 de Abril de 2008 às 00:09
«os católicos enfermam de um problema: gostam demasiado do Estado e pretendem que este atenda os seus pontos de vista»
Sou católico e não sei discutir em abstrato. O André Abrantes Amaral fala de quê? Eu casei na minha igreja e não queria que o acto fosse registado na conservatória. Mas ao contrário das testemunhas de Jeová o Estado não me deu essa possibilidade. Foi discriminado por ser católico!
Agradeço os comentários de todos. Respondendo ao Gabriel Silva, devo dizer que concordo com os reparos. Conheço católicos liberais, pelo que tal é possível. Por isso mesmo generalizei. É a única forma num texto de três parágrafos.
De
Afonso a 9 de Abril de 2008 às 13:11
Concordo com o Gabriel Silva e acrescento que a generalização podeia ser feita com mais propriedade se perguntarmos se o clero pode ser liberal? A igreja, a comunidade católica, está cheia de liberais...
abraço
Afonso
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