Quinta-feira, 17 de Abril de 2008
O nosso império é a língua portuguesa
RUI RAMOS, no Público de ontem:

Já venho tarde, mas não queria deixar de saudar a boa nova. Não me refiro à baixa do IVA, anunciada pelo ministro das Finanças, mas à nossa "expansão", prevista pelo ministro da Cultura. É verdade: vamos expandir-nos. Está para chegar um Portugal maior. Talvez a sua população e riqueza até venham a diminuir, mas que importa? Temos uma arma secreta para conquistar o mundo: aquela que Fernando Pessoa insinuou maliciosamente ser a "pátria" dele - a língua portuguesa. É o que nos prometem os crentes do Acordo Ortográfico: um Reich na ponta da língua.

Não vou discutir ortografia, mas os termos curiosos em que a temos debatido nas últimas semanas. De um lado, falaram-nos do "c" de "facto" com a intransigência possessiva que os sérvios dedicam ao Kosovo, e avaliou-se o Acordo "estrategicamente", como se estivéssemos perante uma nova partilha de África, com o Brasil no papel oitocentista da Inglaterra. Do outro lado, recomendaram-nos a nova grafia como a oportunidade de não "ficar aqui como uma espécie de dialecto" (horror), e podermos desfilar ao lado do Brasil na "afirmação de um poder à escala mundial" (segundo o nosso entusiasmado embaixador em Brasília).

Acho comovedor este uso despudorado da linguagem típica do imperialismo ("expansão", "estratégia", "afirmação do poder à escala mundial", etc.) para nos referirmos à língua que partilhamos com mais umas dezenas de milhões de pessoas de outras origens e nacionalidades. Quando nos puxam pela língua, acontece-nos isto: de repente, este país pachorrento e decadente revela-se uma potência beligerante, ciosa das suas aquisições e decidida a novas conquistas. Sim, porque através da "pátria" de Pessoa, nós somos grandes. Tal como a casa da velha canção brasileira, o nosso "império" não tem soldados, nem dinheiro, mas é feito com muito esmero - da língua que outros usam na América, na África e (segundo gostamos de acreditar) na Ásia. E assim prosseguimos a nossa expansão ultramarina, por mais que ninguém dê por isso. Definitivamente, continuamos a não ser um país pequeno. No tempo do Estado Novo, isso provava-se com os mapas das colónias; agora, pacífica e correctamente instalados em democracia, evocamos a "quarta língua a nível mundial", e os seus "200 milhões" de súbditos.

É compreensível. No fundo, há algo de deprimente nas nações reduzidas. George Simenon dizia que ser belga é como não ter país. E talvez por isso, muita gente está preparada para lhe atribuir a ele ou a Hergé, tal como aos suíços Rousseau e Constant, uma pátria (a França) mais consentânea com a sua grandeza individual. As elites portuguesas, que durante a Monarquia sonharam fazer aqui um país tão próspero como a Bélgica e durante a I República tão democrático como a Suíça, nunca se conformaram com o estatuto de pequeno país que era o dessas nações, apesar de liberais e ricas. E depois de perdida a soberania com que nos ampliámos em África, agarrámo-nos à língua, a ver se por aí continuávamos a fazer uma sombra grande no mundo. Não nos fica mal desejarmos ser muito mais do que aquilo que somos. O que talvez seja menos recomendável é o modo como usamos esta grandeza imaginária para nos pouparmos ao reflexo da nossa realidade. A Europa pesa cada vez menos no mundo, e Portugal pesa cada vez menos na Europa. A língua é a balança avariada com que nos atribuímos robustez. Infelizmente, tudo o que assim sobe acaba por descer: eis que a Venezuela proíbe às suas crianças os Simpson e quer (como compensação?) ensinar-lhes português - e logo o nosso Governo tem de confessar que nos falta dinheiro e pessoal para acompanhar o último capricho de Chávez.

O Brasil, muito citado acerca do Acordo Ortográfico, forma outro capítulo pungente do nosso irrealismo. Nunca percebemos que a ignorância mútua, ritualmente lamentada, não está à mercê de um "acordo". Fingimos desconhecer o fenómeno do "nativismo" no Brasil, que faz com que por cada Gilberto Freyre haja dez Sérgio Buarque de Holanda, ardendo em fervor antilusitano. Imaginamos que a incapacidade dos livros portugueses para hoje chegarem onde chegou Cabral em 1500 se deve simplesmente ao "c" de "facto".

Nem sequer admitimos que o Brasil, no fundo, não nos importa demasiado. Vamos lá de férias: quantos aproveitam para ir ao teatro ou às livrarias? E quantos conhecem a política ou os escritores mais recentes do Brasil? A verdade é que o Brasil ainda não é suficientemente interessante para nós, e nós já não somos suficientemente interessantes para o Brasil. O resto é conversa de um império de conversa.

publicado por Paulo Pinto Mascarenhas
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Comentários:
De Capitão-Mor a 16 de Abril de 2008 às 19:28
Excelente artigo! Eu estou a residir deste lado do Atlântico e entendo perfeitamente o sentido destas palavras!


De d pt mdr a 16 de Abril de 2008 às 22:11
O problema é que o Brasil e a sua Sociedade Civil ( foi espelhado por todos os trajeitos dos rostos dos Srs/as nos P& Contras) considera Portugal como se fossemos CRIANÇAS DE RUA! POBRES E INDEFESOS!!
Eles sem dúvida é que para a Comunidade Internacional não passariam mais de uns Colombianos ou Uns Hugos Chaves se não fosse a sua Ligação a PORTUGAL! Isso eles sabem-no BEM! Não lhes convem é admitir enquando não lhes demonstrarmos BEM CLARO QUAL É DE FACTO O SEU DEVIDO LUGAR! E Isto deveria começar AGORA pela LÍNGUA!
Já agora o que eles querem é da exacta dimensão da solicitação de um Autocne de São MIGUEL O PORTUGUES DE PORTUGAL CONTINENTAL aproximar-se graficamente da sua Fonética de são MIGUEL! Há os Brasileiros são muitos! Pois é! Mas não foi por isso que a Suécia ou a Noruega mandaram as suas Polícias Matar criancinhas para a rua, depois daquele episódio de triste memória cuja sociedade civil Brasileira ( Inclusive a mais informada) acompanhou em apluso e em encolher de Ombros!
É pena termos editores em PORTUGAL que se desleixem e permitam a publicação de uma quantidade impensável de gentalha mediocre ( Escritores e pseudo-poetas) que estão a desempenhar o belo papel de CANGALHEIROS da língua Portuguesa. Por aí se pode ver bem o nível das criaturas! UM BOICOTE À FEIRA DO LIVRO DE LISBOA SERIA UMA EXCELENTE FORMA DE OS COLOCAR NO SÍTIO CERTO.
Vale!


De Ricardo Bonassi a 16 de Abril de 2008 às 23:27
"...Eles sem dúvida é que para a Comunidade Internacional não passariam mais de uns Colombianos ou Uns Hugos Chaves se não fosse a sua Ligação a PORTUGAL!...."

ahahahahahahah eu quase cai da cadeira de tanto rir, vocês portugas são realmente as criaturas mais patéticas caminhando sobre este planeta. Vocês não são nem importantes pros desdentados da ilha da Madeira quanto menos pro Brasil. Portugal não passa de um país carrapato vivendo grudado nas costas da União Européia, ou melhor, vivendo do dinheirinho da esmola da UE a mais de 20 anos. Recolha-se ao seu estado de mediocridade portuga mendigo.


De isa a 17 de Abril de 2008 às 01:04
e este seu comentário é tão idiota quanto o que transcreveu do comentário anterior...


De Zé da Burra o Alentejano a 17 de Abril de 2008 às 10:08
A Língua portuguesa está a passar por um período de implantação, quer nos países Africanos de Língua Portuguesa, quer em Timor Leste. Na Guiné-Bissau esteve até para ser adoptado o Francês como língua oficial e em Timor-Leste o Inglês. Daí será fácil concluir que a língua portuguesa nas nossas ex-colónias não ficou muito bem cimentada. Esses países já não são colónias portuguesas, são livres e tanto poderão seguir o português falado em Portugal, por 10 milhões de habitantes, como o português falado no Brasil, por 220 milhões.

A teoria de Darwin é mesmo verdadeira e Portugal, se teimar em não se aproximar da versão de português do Brasil sujeita-se a ficar só e, mesmo assim, não vai conseguir manter a pureza da língua porque ela evolui todos os dias, independentemente da questão que agora se nos põe: todos os dias há termos que caem em desuso e outros novos que são adoptados pela nossa língua, em especial termos ingleses que são adoptados sem quaisquer modificações.

Se não houver aproximações sucessivas ambas as versões do português continuarão a divergir e daqui a algumas gerações serão línguas completamente distintas. Será então a altura de Portugal confirmar que saiu a perder porque ficou agarrado a um tabu que não conseguiu ultrapassar.

O Brasil tem um impacto muito maior no mundo do que Portugal, dada a sua dimensão, população e poderio económico que em breve irá ter. O nosso português tem hoje algum peso muito em função dos novos países africanos (PALOPs) e de Timor Leste, mas ninguém garante que esses países não venham um dia a aproximar o seu português da versão brasileira e há até já alguns sinais nesse sentido. Não poderemos esquecer-nos de que são países independentes e poderão decidir como muito bem entenderem.

Se Portugal permanecer imutável um dia poderá ficar só: a língua portuguesa de Portugal será então considerada uma respeitável língua antiga (o Grego é ainda mais), da qual derivou uma outra falada e escrita por centenas de milhões de habitantes neste planeta. O nosso orgulho ficar-se-á por aí e pronto, foi-se o nosso "Império da Língua Portuguesa"!

Ambas as versões de português têm uma raiz comum e divergem há apenas cerca de 250 anos. Outros tantos anos a divergir e já não nos entenderemos, terá então que ser considerada uma outra língua.

O acordo ortográfico é uma decisão apenas política que os técnicos terão depois que aceitar e seguir. Será uma pena rejeitarmos agora o acordo que o Brasil está disposto a aceitar.

Zé da Burra o Alentejano



De Brazuca Tosco a 21 de Abril de 2008 às 03:14
Sobre um dos comentários acima,
não somos nós brasileiros que dizemos, é
a revista britânica The Economist que nos chama
de superpotência (pode até haver um certo
exagero).

http://portalexame.abril.com.br/ae/economia/m0157465.html

Qual é a comparação mesmo, com Lisboa, Porto, Alentejo ?



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