
Público: Depois disso, foi o caso da Fernanda Câncio, [...] que também não correu muito bem. Foi ideia sua?
António Cunha Vaz: Claro que não. Foi um pedido que foi feito ao meu amigo Rui Gomes da Silva.
P: Quem é que lhe pediu isso?
ACV: Não posso dizer. Pediram-lhe e ele achou que, estando na comissão política, tinha duas hipóteses: ou se demitia ou tinha de fazer aquilo. Decidiu fazer e foi entalado.
Tragédia. Há dilemas morais insuportáveis. Decisões que dilaceram quem tem de as tomar. Rui Gomes da Silva merece a nossa admiração. Entre a demissão e o disparate optou por “fazer aquilo”. Depois regressou à penumbra, à solidão do herói trágico e entalado. É provável que muitos cobardes que não ousam dar a cara lhe tenham agradecido a coragem. Mas o que é a coragem quando comparada com o dever cívico? Não é o sacrifício em prol dos superiores interesses da nação o fardo dos grandes homens? Se alguém lá do Partido lhe pede delicadamente que demonstre o seu desapego à inteligência pode um homem sério recusar? O país precisa de homens desta estatura moral, deste calibre ideológico. Homens que se recusam a vergar perante o sentido do ridículo. São homens assim que fazem deste país o que ele é.
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