Quarta-feira, 30 de Abril de 2008
Reler Paulo Tunhas na Atlântico de Março
O Elogio de Bento XVI



Numa altura em que a formidável regressão islâmica, na sua dedicação ao ódio e no seu aplauso à morte, dá a pior imagem possível da crença religiosa, conforta constatar que não tem de ser sempre assim. Aquilo que aprendemos a apreciar – a bondade, a inteligência, o amor, o desejo de liberdade e de melhor viver – tem guarida noutras crenças. Como prova a encíclica Deus caritas est de Bento XVI

por Paulo Tunhas

Permito-me começar por uma pergunta interesseira. Pode um ateu, filho de pais ateus e, muito coerentemente, não baptizado, admirar a encíclica Deus caritas est de Bento XVI? Resposta. Pode perfeitamente, e acrescentaria mesmo: deve.

Porquê? Porque se trata de uma excelente meditação sobre a época actual, uma época, como é dito na Introdução, em que “ao nome de Deus se associa por vezes a vingança ou mesmo o dever do ódio e da violência”. E a utilidade da sua leitura não vem apenas da finura de espírito de Joseph Ratzinger, conhecida de quem quer que o tenha lido antes. Claro que ajuda imenso. Mas vem também da prova concludente que oferece de um facto que, sendo simples e banal, os tempos militantemente se encarregam de obscurecer: a religião pode ser um veículo de sabedoria (é, apesar de tudo, a palavra que convém), e, nessa sabedoria, ou na busca dela, crentes e não-crentes podem encontrar-se. Não se trata de atenuar sentimentos anticlericais patetas e muito sobreviventes até, ignorantes de si, sob vestes de respeito e afectos ecuménicos. Trata-se mesmo da constatação da possibilidade de um encontro, e isso, particularmente nestes dias, aquece o coração.

A primeira parte da encíclica é dedicada ao conceito de amor. Bento XVI exprime obviamente o ponto de vista da Igreja – mas exprime-o, e isso é que é precioso, de uma forma que, sem minimamente se diluir em abdicação da especificidade católica, é compreensível e em larga medida apropriável pelos não-crentes. Do princípio ao fim da encíclica, sem uma única falha, é esta atitude mental que é admirável. Tome-se, por exemplo, o que é dito sobre a relação entre eros, philia e ágape. Bento XVI procede por uma distinção erudita e precisa do campo semântico das palavras. E depois mostra convincentemente como eros e ágape (a caridade) devem conviver. A riqueza destas páginas não deixa dúvidas sobre a competência filosófica de quem as escreveu. Elas valem por si.

É indiscutível que na matéria do amor as regras são sempre más quando não são descobertas, ou criadas, em parte, pelo próprio. Ou, melhor dito, quando não há espaço, dentro da sociedade, para as decisões individuais e para a dignidade ganha na luta contra o viver pouco. Num certo sentido – sem que isso, de resto, vá dar a qualquer relativismo -, pão ou pães é questão de opiniães, como dizia o jagunço de Guimarães Rosa. O que espanta, no entanto, nesta encíclica, é que o próprio plano em que se coloca a reflexão de Bento XVI exclui qualquer violência no juízo. E, deve-se acrescentar, qualquer niquinho de sapiencialidade rebarbativa. Há uma doutrina sólida, expressa com subtileza óptima  – as páginas sobre o amor a uma “única pessoa”, “para sempre”, ou sobre o “próximo”, ou sobre o “amor possessivo” e o “amor oblativo”, entre muitas outras, são fascinantes -, mas ela é apresentada como doutrina da Igreja, uma doutrina que esta não tem por missão implementar politicamente. Solidez doutrinal e amor da liberdade não são incompatíveis. Um escândalo para os incréus mais militantes, e, suponho, para muita gente que, dentro da Igreja, gostaria de a ver, saltitona e lampeirinha, aos beijinhos às dietas mentais do século.

Mas não é isso que é, para o não-crente, o mais importante nesta encíclica. O mais importante é, por exemplo, o que lá vem escrito sobre a autonomia do político – a “autonomia das realidades temporais” - por relação ao religioso. A esfera da política é a esfera “da razão auto-responsável” (Weber vem, apesar da distância toda, ao espírito), e ela visa a “formação de estruturas justas”. “A justa ordem da sociedade e do Estado é o dever central da política.” Não o da Igreja. Mais: é negado explicitamente que caiba à Igreja “impor, àqueles que não compartilham a fé, perspectivas e formas de comportamento” que à Igreja pertencem. Quando muito deve a Igreja, “pela via da argumentação racional”, tentar fazer valer os seus pontos de vista sem se colocar ao serviço de “partidos e ideologias” e de “estratégias mundanas”. Parece simples e óbvio? Os tempos que correm desmentem absolutamente que seja simples e óbvio.

Aqui, vale a pena lembrar a actualidade. Nada mais arredado da elementar compreensão das coisas do que a atitude daqueles que pretendem pôr no mesmo plano cristianismo e islamismo. (Não é necessário explicar porque é a comparação com o Islão que naturalmente ocorre.) É uma solução de facilidade para quem não se arrisca a pensar, quer dizer: a exercer a sua faculdade de julgar. A posição de Bento XVI não surge do nada: ela prolonga uma tradição que quase se poderia dizer encontrar-se nos antípodas da do Islão. Uma tradição que é beneficiária da herança judaica, grega e romana. E se nos concentrarmos no presente – como, de certo modo, temos a obrigação de o fazer -, então mais urgente se torna distinguir. As crenças não convivem todas num éter difuso e insubstancial, as continuidades não anulam as descontinuidades e diferenças entre elas. Nem se vê que tipo de razão haveria para que assim tivesse que ser (permito-me sublinhar que, no contexto em que vivemos, este comentário não é trivial). A ausência de juízo releva aqui da preguiça e de motivações ideológicas e políticas que encontram nessa diluição das distinções um apoio estratégico oportuno mas totalmente desprovido de fundamento. As declarações piedosas (e já de si, diga-se de passagem, muito discriminatórias) sobre as “religiões do Livro” são, na maior parte dos casos, um colossal embuste.

Mas voltemos à encíclica. A defesa da caridade como missão da Igreja – mas não só da Igreja: Bento XVI refere que a Igreja é apenas uma das “forças vivas” que devem apoiar as “pessoas carecidas de ajuda” - é, de igual modo, convincente. Um dos seus assentos é a convicção de que um Estado “que queira prover a tudo e tudo açambarcar, torna-se, no fim de contas, uma instância burocrática” que deixa de fora “a amorosa dedicação pessoal”. As “estruturas justas” não tornam supérfluas “as obras de caridade”. O pensamento sobre as funções do Estado, aqui e noutras passagens desenvolvido, bem como aquilo que é dito sobre a complementaridade da justiça e da caridade, constituem um dos pontos mais importantes da encíclica.

Por último, Bento XVI lembra, em perfeita coerência, que a fé que a encíclica recomenda nos salva “da prisão das doutrinas fanáticas e terroristas”. No fundo, trata-se do corolário de todo o pensamento da encíclica. A acção comum da política como exercício da busca de uma sociedade justa, onde bem viver seja possível, e da caridade, praticada na Igreja e fora da Igreja, formam um poderoso obstáculo ao fanatismo.

Pela minha parte, fico contente pelo facto de a autoridade espiritual da religião dominante na parte do mundo em que vivo pensar e escrever assim. Tão simples quanto isso. Em todo o documento, nada há que ofenda um ateu ou que ambicione uma indevida jurisdição sobre os seus actos. Nada há que faça corpo comum com as intolerâncias que alegremente varrem o mundo. Tudo isto, repito, sem que a mensagem propriamente religiosa se dissolva num confuso magma ideológico ao gosto de todos ou de uns poucos. Muito pelo contrário: a segurança doutrinal da encíclica, volto a repetir, é impecável. E, por sobre isto, o que Bento XVI escreve sobre o amor, a justiça, a autonomia do político e a caridade levam, no mínimo, a reflectir (sobre o amor, por exemplo), e, em certos casos (a relação entre justiça e caridade), merece aplauso inteiro.

Numa altura em que o retorno do arcaico, a formidável regressão islâmica, na sua dedicação ao ódio e no seu aplauso à morte, dá a pior imagem possível da crença religiosa, conforta constatar que não tem de ser assim, e que aquilo que aprendemos a apreciar – a bondade, a inteligência, o amor, o desejo de liberdade e de melhor viver – tem guarida dentro de outras crenças. Pela força das circunstâncias, pela pressão do século, pelo confronto com os momentos que, na história do Ocidente (sem aspas e com boa consciência), marcaram mais decisivamente a história da liberdade? Sem dúvida. Mas também – é imperativo reconhecê-lo - pela sua própria natureza e por um lógica interna do seu desenvolvimento, sem a qual a reflexão cristã não poderia obviamente ser o que é. As religiões, todas iguais umas às outras? Valha-nos Deus!

Há mais de vinte anos, porque andava interessado pela doutrina da graça – uma das mais fascinantes doutrinas do cristianismo –, dei comigo a ler vários volumes de um Curso de Teologia Dogmática da autoria de Johann Auer. Li, além do Evangelho da graça, o volume sobre Os sacramentos da Igreja (óptimo, também) e o tomo dedicado à Escatologia, saído da pena de Ratzinger. A erudição e a agudeza de espírito do autor eram impressionantes. Reli-o há pouco e a impressão manteve-se. Um exemplo, quase escolhido ao acaso: “Em política trata-se daquilo que não é escatológico. Neste sentido, uma das tarefas fundamentais da teologia cristã é a de manter separadas a escatologia e a política.” Esta encíclica prova que Bento XVI mantém intactas as imensas qualidades do teólogo Ratzinger. Temos sorte com o Papa.





publicado por Paulo Pinto Mascarenhas
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