Quando escrevemos sobre alguém que morreu e que de alguma forma nos marcou temos muitas vezes a tentação de falarmos sobre nós próprios. Com o Torcato Sepúlveda é inevitável, porque deve ter atravessado a vida de muitos jornalistas. Também atravessou a minha e não me esqueço de jantares e noitadas comuns com outros jornalistas da redacção do Independente. O Torcato não tinha idade apesar dos cabelos e das barbas brancas. Era um patriarca do jornalismo mas tinha a minha idade e a idade dos estagiários, porque estava connosco como estava com todos os camaradas de profissão, independentemente de condição ou estatuto. Trabalhei com ele pouco tempo mas foi o tempo suficiente para o ficar a admirar. Porque o lia e ele sabia escrever como poucos. Admirei-o ainda mais como Pessoa. Como Homem de coragem. Depois de muito tempo sem o ver, reencontrei-o há poucas semanas no Snob, numa noite em que o bar foi invadido pela ASAE. Sentámo-nos na mesma mesa. Claro que levantou a voz grossa contra os agentes da autoridade, mas sempre de sorriso irónico, com algum divertimento partilhado. Falou-me da revista Atlântico, que disse gostar muito, ainda que eu fosse "um bocado de direita". Por razões profissionais, pedi-lhe na altura um artigo - excelente, escusado dizer - que tinha escrito sobre o arcebispo de Braga. Ele teve a paciência de o procurar - não tinha a revista mas arranjou as páginas - e marcou encontro. Fui buscar o artigo há duas semanas à sede da "NS". Lá estava ele, sentado à frente do computador, os olhos vivíssimos, a gentileza de um grande Senhor do jornalismo. Vou ter saudades de o ver. E de o ler. Adeus, Torcato. E obrigado por tudo.
Outros Mares
Outras Ondas