Mário Soares publicou ontem um artigo no DN, a que deu o nome de ‘Pobreza e Desigualdades’, no qual disserta sobre a "crise profundíssima a que a globalização neoliberal conduziu o mundo". Discorre sobre muitos problemas, desde a subida do preço do petróleo, a queda do dólar, o crédito mal parado e, (pasme-se!) a "agressiva concorrência dos países emergentes que antes não contavam".
Soares esquece que a "agressiva concorrência dos países emergentes que antes não contavam" resulta do facto de muitos cidadãos, pessoas com inúmeras aspirações justas e legítimas viverem hoje melhor que em 1988, antes de "duas décadas de neoliberalismo, puro e duro". Seres humanos que têm hoje mais dinheiro, acesso a mais e melhores empregos, mais e melhor comida, mais e melhores casas, mais e melhor educação, mais e melhor saúde. Um futuro mais risonho, com mais oportunidades. Que 20 anos após a derrocada final da vergonhosa experiência que foi o socialismo, milhões de seres humanos começaram a viver.
É esta a herança do capitalismo: Milhões de homens e mulheres a viverem melhor. A terem esperança. É deste resultado que Mário Soares (um homem com imensas preocupações sociais) lamentavelmente se queixa.
O que o ex-presidente da República esquece, aquilo em que Soares falha, é em não querer ver isto. Não querer ver que a crise de hoje é uma adaptação a uma nova realidade: De milhões de pessoas que há vinte anos passavam fome e hoje têm uma palavra a dizer sobre o seu destino. Esquecer o quanto isso pode afectar o equilíbrio mundial, o quanto essa melhoria pode ser afectada com a regulamentação do mercado e da globalização que ele propõe. Que o Estado não ensina ética, não ensina a respeitar regras sociais, nem nunca teve consideração pelas ambientais, como até há 20 anos se viu nas sociedade reguladas do leste da Europa e se assiste, hoje, de forma continuada na China.
É na referencia que faz aos "países emergentes que antes não contavam" que vemos como o artigo de Soares é pobre e preconceituoso. É um artigo ideologicamente marcado e sempre na base do eu bem que avisei ("como tantas vezes disse e escrevi"), que apela à desconfiança e ao medo, que se reduz a um ajuste de contas contra quem traiu o socialismo. Não é mais do que isso. Não é mais do que o artigo de um homem que nos diz estar a apontar para o futuro, mas que o faz com os argumentos, os estigmas e os pontos de vista de um passado. O seu passado.
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