A forma como Obama reagiu à súbita notoriedade mediática de Wright e das suas posições políticas motiva três questões. Em primeiro lugar, quão excêntricas são as opiniões de Wright? Em segundo lugar, quais são os elementos essenciais da interpretação teológica do cristianismo em que assenta a experiência religiosa de Obama e qual é o conteúdo da black politics que ela define? Por último, qual a credibilidade de Obama e da elite política do partido Democrata quando afectam distanciamento e desconhecimento relativamente às opiniões de Wright? As respostas a estas três questões são importantes para compreender melhor o carácter de alguém que espera vir a ser eleito presidente dos EUA em Novembro de 2008.
2. Heresias
“Fuck the uptown brothers. They never pass the ball, they don't want to play defense, they take fives steps on every lay-up to the hoop. And then they want to turn around and blame everything on the white man. Slavery ended one hundred and thirty seven years ago. Move the fuck on!”
The 25th Hour (Dir. Spike Lee, 2002).
As opiniões políticas do pastor Wright tornaram-se incómodas ao ponto de motivarem o repúdio formal pela candidatura de Obama. Mas serão as opiniões do líder espiritual de Obama ‘heresias’ políticas?
Wright atribui a responsabilidade moral dos ataques terroristas de Setembro de 2001 ao governo americano. Esta inversão moral é frequente entre a elite da esquerda ocidental e, no mínimo, já li opiniões mais estranhas de Noam Chomsky. Wright acusa também o governo americano de utilizar a droga como instrumento de destruição dos negros e de ter criado o vírus da SIDA com o mesmo propósito. São versões particulares da teoria da ‘conspiração branca’, a ideia de que os brancos americanos estão empenhados numa campanha política permanente com o objectivo de destruir os negros. A aceitação desta teoria é tão generalizada entre algumas comunidades negras urbanas que é simplesmente conhecida como ‘O Plano’ [5]. Por absurda que seja a ideia, uma sondagem realizada em 1990 pelo The New York Times mostrou que 60% dos negros nova-iorquinos acreditavam que era verdadeira. Em Chicago, um assessor do Mayor Eugene Sawyer foi despedido depois de declarar que médicos judeus andavam a injectar bebés negros com o vírus da SIDA [6] – a ‘conspiração branca’ é frequentemente uma proxy para a ‘conspiração dos judeus’. Num estudo divulgado pela Rand Corporation em 2005, cerca de 25% dos negros norte-americanos declaravam acreditar que o vírus da SIDA tinha sido criado pelo governo; 16% acreditavam que o propósito era o extermínio dos negros [7]. O pastor Jeremiah Wright poderá ser um lunático, mas não é especialmente original nas teses que subscreve.
Barack Obama também não é imune à teoria da conspiração branca: em The Audacity of Hope na análise dos estragos causados pelo furacão Katrina, apresenta de forma acrítica uma opinião que atribui a terceiros: os diques teriam sido destruídos por quem pretenderia ver Nova Orleães sem negros [8]. Quem senão os ‘diabos brancos’ que atormentavam os pesadelos de Malcolm X?
O discurso de Jeremiah Wright tem, segundo o próprio, um ‘contexto histórico, teológico e político’, definidor do que designa como a ‘experiência religiosa negra’. A retórica anti-imperialista dos movimentos revolucionários latino-americanos influenciou essa experiência. Nos anos 80, a igreja de Obama apoiou a guerrilha sandinista, ao mesmo tempo que teorizadores da ‘experiência religiosa negra’, como James H. Cone, absorviam a exegese da teologia da libertação, adoptando-a como base da sua ‘teologia negra’.
O argumento teológico de Cone constrói-se em torno de uma ideia simples: os negros são ‘oprimidos’ e a libertação dos oprimidos constitui o núcleo da acção divina. Desde modo Cone identifica a ‘libertação dos oprimidos’ com a essência de Deus, que se revela no acto de libertação. ‘A promessa escatológica do paraíso não é suficiente para justificar a dor do sofrimento negro na Terra’ [9]: na teologia negra Deus é uma força imanente à história e o paraíso constrói-se neste mundo. Cone assume simplesmente que os negros são ‘oprimidos’; os ‘opressores’ são, evidentemente, os brancos. Esta oposição étnica implica um Deus libertador, não universal e adversário dos brancos: ‘we must know where God is and what he is doing for the revolution. There is no use for a God who loves whites the same as blacks’ [10]. Novamente, a afirmação poderá ser aberrante mas não é certamente nova: em 1898 Henry McNeal Turner proclamara, para escândalo geral, 'God is a Negro'.
O conteúdo da ‘teologia negra’ é provavelmente herético, mas importa sobretudo perceber a natureza da acção política que ele encerra. Em particular, as semelhanças com o marxismo são mais do que ocasionais. Cornel West, apoiante de Obama e ex-professor de Harvard, à época envolvido na polémica que conduziu ao pedido de demissão apresentado por Lawrence Summers, reconhece a convergência metodológica e política entre a ‘teologia negra’ e o marxismo. Mas se a ‘teologia negra’ insiste especialmente na necessidade de ‘libertação’, é pouco específica quanto à forma que a sociedade ‘libertada’ deve revestir. É aqui que o contributo programático do marxismo se pode revelar um auxiliar fundamental, ao ligar explicitamente a ‘libertação’ à transformação radical do sistema de produção e da estrutura social[11]. É o controlo dos meios de produção que confere aos brancos o poder de opressão. Mudar as relações sociais exige criticar e rejeitar o modelo de produção que sustenta as relações de poder. Por outras palavras: a ‘libertação dos oprimidos negros’ é, afinal, uma variante étnica da luta de classes contra o capitalismo.
Em 1919, com o final da 1ª Grande Guerra, o presidente Woodrow Wilson estava preocupado com a possibilidade dos soldados negros regressados da Europa serem um meio de disseminação das ideias bolchevistas nos EUA[12]. Porquê apenas, ou especialmente os soldados negros, não é claro, mas a preocupação era desnecessária: a ligação entre o nacionalismo negro e o anti-capitalismo é recente. Os nacionalistas negros rejeitaram sempre qualquer solução de integração, independentemente do sistema económico. Em alternativa à integração civil propunham a criação de estados negros americanos independentes dos EUA, ou o ‘regresso a África’ – financiado pelos brancos. Qualquer das alternativas é obviamente racista. A primeira aproxima-se do modelo dos bantustões sul-africanos; a segunda, na sua visão de uma África para os negros é tão inadmissível como a geopolítica do arianismo nazi.
Qual é a relevância das opiniões políticas do pastor Wright, ou das origens e conteúdo da ‘teologia negra’ para a candidatura presidencial de Obama? Manifestamente Obama não subscreve a tese da conspiração branca –pelo menos não nas formas mais grotescas. Também não é relevante o facto de muitos dos seus apoiantes aderirem a tais teses: à esquerda e à direita é fácil encontrar defensores do indefensável. Mas quando Obama alega desconhecimento das opiniões de Wright é evidente que há uma probabilidade elevada de não estar a dizer a verdade. O momento que escolheu para tornar público o seu repúdio pelas ditas opiniões também é curioso: não o fez quando elas se tornaram objecto do interesse jornalístico, apenas o fez mais tarde, quando receou que elas pudessem retirar-lhe votos e apoios na corrida presidencial. Ambos os factos são relevantes para a apreciação do carácter do presumível candidato presidencial Democrata.
Mais importante ainda é a história política da ‘teologia negra’ professada por Wright. Obama deixou muito claro que foi a ‘tradição religiosa afro-americana’ e o poder de transformação política a ela associado que o atraiu para a igreja de Wright. Ora a ‘tradição’ a que Obama se refere é a tradição do ‘nacionalismo negro’, que sempre se opôs ao integracionismo defendido por Martin Luther King, entre muitos outros. Confrontados com o racismo branco, perante o dilema de W.E.B. Du Bois (‘é possível ser simultaneamente negro e americano?’) a resposta integracionista é ‘naturalmente sim’. Em contraponto, os nacionalistas negros responderam historicamente com propostas de auto-segregação étnica assente numa vitimização alienante.
Numa entrevista recente concedida à Atlantic Monthly[13], Obama pronunciou-se sobre o sionismo e sobre as relações entre os EUA e o estado de Israel. As questões de política externa causaram alguma polémica –escusada, porque as relações entre os dois estados são o resultado dos interesses estratégicos convergentes, por isso tendem a ser invariantes relativamente à identidade do ocupante do cargo presidencial americano. A parte mais interessante da entrevista é a inicial, onde Obama discorre sobre a influência do sionismo na sua formação política. Obama refere-se à busca de um território onde os judeus sobreviventes do Holocausto pudessem ‘enraizar’ a sua tradição cultural e sublinha especialmente a ‘afinidade’ que sente relativamente ao ‘ideal de justiça social’ contido no sionismo inicial e consubstanciado no kibbutz. A comparação entre a condição bíblica e histórica dos judeus e dos negros norte-americanos é uma pedra de toque do nacionalismo negro: em 1920, na Convenção Internacional dos Povos Negros do Mundo, realizada em Nova Iorque, o líder nacionalista Marcus Garvey reclamava ‘uns Estados Unidos de África’, uma casa para os negros americanos, governada pela raça negra unida e orgulhosa da sua história[14]. Depois dele, muitos outros nacionalistas negros reclamam para os negros norte-americanos o estatuto de ‘povo escolhido’. Quanto a Israel, não é exactamente o moderno estado democrático, liberal e capitalista que Obama aprecia: tem saudades da experiência igualitarista e colectivista dos primeiros anos de Israel. Uma vez mais, estas declarações são importantes pelo que revelam sobre o posicionamento político do candidato presidencial.
Os Democratas que apoiam Obama afectaram igualmente grande perplexidade perante as opiniões de Wright. Trata-se de uma esplendorosa manifestação de hipocrisia. O ‘culto da etnicidade’, como o designou o historiador e antigo membro da administração de John F. Kennedy, Arthur Schlesinger Jr.[15], dominou e perverteu a elite intelectual de esquerda ao longo das últimas décadas, que promoveu e conferiu respeitabilidade académica aos programas de ‘estudos afro-americanos’. Foi a consequente notoriedade intelectual de personagens como Cornel West, ou o lunático e anti-semita Leonard Jeffries, que conferiu visibilidade à teologia negra, sem a qual esta permaneceria essencialmente obscura e politicamente irrelevante.
A integração civil dos negros foi decretada indesejável por gerar ‘sentimentos de inferioridade’ e preterida em nome de uma nova política de auto-segregação étnica, que transformou radicalmente o discurso público sobre a história, educação e a condição política dos negros norte-americanos. Nomes anglo-saxónicos –nomes de ‘escravos’– foram trocados por nomes africanos. As exigências de uma educação ‘afrocêntrica’ de alguns gurus étnicos foram acolhidas nos programas oficiais. Entre outras ideias interessantes, as crianças negras aprenderiam ‘através do ritmo e da rima’[16]. A história passou a ser encarada como instrumento de terapia social. Com o propósito de aumentar a ‘dignidade’ e o ‘reconhecimento’ dos negros, surgiram manuais onde os principais momentos da descoberta científica e da criação artística eram atribuídos a negros –convenientemente ‘roubados’ por brancos, que tinham pelo menos o mérito de serem ilusionistas magníficos, capazes até de esconder do mundo a origem étnica de civilizações como a egípcia, que teria sido, afinal, ‘negra’. Se estudasse história por alguns desse manuais, ficaria a ‘saber’ que Napoleão rebentou o nariz da esfinge a tiro para que não fosse possível perceber que era negra[17]...
3. Conclusão
Agora que o radicalismo político da teologia professada pela sua igreja e as intervenções públicas de Wright se revelam incómodas, Obama negou não três mas oito vezes o seu mentor e repudia a sua filiação religiosa. Mas Obama não pode alegar que vinte anos foram insuficientes para perceber a proposta de auto-segregação contida no discurso religioso de Wright. Esses vinte anos de proximidade espiritual e intelectual não podem ser apagados: são uma parte da sua vida, à qual, aliás, conferiu enorme significado nos seus textos autobiográficos. A conduta política de Obama lança dúvidas sobre o seu carácter e sobre a sua identidade política, em especial sobre o alegado carácter pós-racial da sua candidatura. Recorde-se que foi precisamente a incapacidade de anteriores candidatos negros ao cargo presidencial, como Jesse Jackson, ou Al Sharpton, em superar o que Reinhold Niebuhr designou como o ‘limite tribal do sentido de obrigação perante o outro’ que lhes limitou os resultados eleitorais.
Ainda assim, Obama terá conseguido a nomeação Democrata. Mas o preço político poderá ser proibitivo e custar-lhe a eleição presidencial. Agora que passam 40 anos sobre o Maio de 1968, é fácil esquecer quão elitista foram os tumultos de então. Como recorda Niall Ferguson[18], os estudantes revoltosos eram essencialmente oriundos da classe média alta, enquanto que as forças policiais, de origens sociais humildes, mantiveram-se alinhadas do lado da autoridade. As primárias democratas mostraram que essa divisão social não desapareceu: hoje, a base de apoiantes de Hillary Clinton é formada pelos descendentes dos brancos que a aristocracia liberal Democrata despreza. São os filhos daqueles que não tinham dinheiro para ir a Altamont ouvir os Rolling Stones. Muitos deles não votarão em Obama. Ao mesmo tempo, os eleitores americanos vão-se apercebendo que a imagem meticulosamente fabricada pela sua candidatura esconde um candidato que durante a maior parte da sua vida adulta esteve comprometido com posições indiscutivelmente radicais. O seu passado político e a percepção pública do seu carácter estão a tornar-se um ónus eleitoral: se Obama não conseguir unificar a base eleitoral Democrata e convencer o eleitorado do centro político a votar nele, perderá a eleição presidencial.
[1]R. Wolffe, Jessica Ramirez and Jeffrey Bartholet, ‘When Barry became Barack,’ Newsweek, 22-03-2008.
[2] B. Obama, The Audacity of Hope: Thoughts on Reclaiming the American Dream (New York, 2006). Capítulo 6.
[4] K. Rove, ‘Obama’s Revisionist History,’ The Wall Street Journal, 29-05-2008.
[5] J. DeParle, ‘Talk of Government Being Out to Get Blacks Falls on More Attentive Ears,’ The New York Times, 29-10-1990.
[7] J. Lapidos, ‘The AIDS Conspiracy Handbook,’ Slate, 19-03-2008.
[8] Obama, The Audacity of Hope. Capítulo 7.
[9] J. Cone, A Black Theology of Liberation (New York, 1970), p. 44.
[10] James Cone, A Black Theology …, p. 132.
[11] C. West, ‘Black Theology and Marxist Thought,’ in C. West and Eddie Glaude Jr., African American Religious Thought (Louisville, 2003), pp. 874-92.
[12] C. Grant, Negro With a Hat (London, 2008), p. 125.
[13] J. Goldberg, ‘Obama on Zionism and Hamas,’ Atlantic Monthly, 12-05-2008.
[14] Colin Grant, Negro With a Hat, pp. 331-3.
[15] A. Schlesinger Jr., The Disuniting of America (New York, 1991).
[18] N. Ferguson, ‘Rebellion without a cause,’ Financial Times, 17-05-2008.