Lembra-se da batalha do telemóvel? Quem poderá esquecer aquelas personagens engalfinhadas numa luta existencial, discutindo a posse do deus das moscas com toques polifónicos? A velha quase caía, a nova gritava, a tribo zurrava. A direita autoritária recusou-se a aceitar que se tratava de um caso simples de indisciplina –ou de incapacidade de estabelecer a disciplina– susceptível de ser resolvido pela direcção da escola respectiva. Vai daí saltou, indignada, e exigiu medidas políticas ‘exemplares’. Não ocorreu aos indignados do telemóvel que o legislador contemporâneo não precisa de grandes pretextos para estender o controlo político sobre a sociedade.
Agora os que saltaram de indignação façam o favor de explicar a Fernanda Câncio que não tem razão na sua crónica deslavada, onde utiliza evidência incidental para fazer extrapolações abusivas, envolvendo uma série de banalidades de teor racista e discriminatório atribuídas a todos os portugueses em geral e a nenhum em particular. O episódio serve-lhe como pretexto para dois propósitos. O primeiro, é uma apologia previsível do candidato presidencial Barack Obama. Ironicamente, trata-se do candidato que cita como seus guias espirituais dois notórios racistas: Jeremiah Wright e Michael Pfleger –este último com a agravante de ser aliado de Louis Farrakhan, o conspícuo líder da “Nação do Islão”, também ele apoiante de Obama e igualmente racista e anti-semita.
O segundo propósito é uma (nem tanto) subliminar defesa das chamadas ‘políticas de identidade’: para Câncio “não é fácil perceber por que razão não temos mais negros entre as elites políticas, culturais e económicas do país”. A sugestão, claro, é que se trata de conspiração racista. Como é que se pode lutar contra esta ‘injustiça’? Obviamente através de mais leis, que em nome da luta contra a discriminação... discriminam. Mas como servem para promover as clientelas políticas da extrema esquerda, são discriminação ‘positiva’. Não admira o elogio a Obama: afinal trata-se do candidato que já avisou que iria prosseguir este género de medidas, se for eleito presidente. No ano passado, a propósito dos critérios que adoptará nas nomeações para o Supreme Court, Obama declarou: “We need someone who's got the heart… the empathy to understand what it's like to be poor or African-American or gay or disabled or old – and that's the criteria by which I'll be selecting my judges”. A ‘mudança’ consistirá na aplicação provável de um conjunto de políticas discriminatórias, assentes na utilização conjugada dos poderes legislativo, executivo e judicial. Robespierre e Marat estariam orgulhosos. E a jornalista Câncio suspira e sonha com a ‘mudança’.
A jornalista do DN sabe muito bem o que faz. Bem sei que me arrisco a fazer uma generalização abusiva semelhante à de Câncio no seu artigo de hoje, mas a mistura de sentimentalismo manipulador com a sugestão farisaica de ‘injustiças’ vai direitinha ao coração duma nação de costureirinhas pidescas, sempre à escuta, entupidas de virtuosa indignação e prontas a ‘denunciar’ condutas ‘reprováveis’. E saltam imediatamente, a exigir ‘medidas’ que ‘ponham cobro’ à situação. Eu não saltei, não salto e desconfio que as costureirinhas saltitantes vão cosendo ponto a ponto o bordado do inferno. Those who in fields Elysian would dwell/ Do but extend the boundaries of Hell. Se for preciso, a jornalista Câncio traduz.
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