Orientalismo invertido
Patrick West, The Poverty of Multiculturalism, London, Civitas, 2005, 80pp.
por Henrique Raposo
O multiculturalismo/relativismo cultural é a ortodoxia da moda. Um digno sucessor do marxismo. Aliás, vários autores descrevem o multiculturalismo enquanto ‘marxismo cultural’. E quais são as bases desta proletarização da cultura? Duas: um dogma quase religioso e uma receita médica. O dogma que percorre escolas, faculdades e Media: não podemos comparar culturas; não existe uma Verdade racional e moral; tudo é relativo, tudo tem uma justificação cultural. A receita médica para aderentes: criticar, cinco vezes ao dia, a facínora civilização ocidental; disparem sobre o Ocidente, perguntem depois. Neste estranho ambiente cultural, quando elogiamos o Ocidente, somos acusados de ‘eurocentrismo’ (quando o nível epistemológico procura ser erudito) ou de ‘racismo’ (quando a conversa ocorre entre a cerveja e o tremoço).
E, como nos recorda Patrick West (Londres, colaborador do TLS, da Spectator, etc.), o multiculturalismo não é apenas um delírio intelectual dos seus ideólogos (Said, Paresh, Young, Kymlicka, etc.). É, desde há décadas, uma política de Estado em países anglo-saxónicos (Canadá, Reino Unido, EUA, Austrália). Avolumadas burocracias estatais distribuem quotas a indivíduos. Porquê? Ora, porque nasceram com uma cor de pele não-branca. Os multiculturalistas afirmam que o Estado deve proteger e incentivar, através de financiamento público, as diferenças culturais, pois esta é a única forma de garantir a tolerância em relação às minorias. Um absurdo intelectual e político-social. Uma coisa é respeitar as diferenças - civilização cosmopolita (onde ainda vivemos…?). Outra coisa é promover, através da lei, essas diferenças – a barbárie burocrática do multiculturalismo.
O multiculturalismo, diz-nos West, não assenta no respeito mas na ignorância (voluntária) das diferenças culturais. Tolerância significa respeitar um hábito cultural mesmo quando não concordamos com o dito (ex: touradas em Espanha; burka no Afeganistão). Ora, o multiculturalismo ‘ordena-nos’ a não julgar. Não interessa se concordamos ou não. Apenas temos de fazer uma coisa: aceitar a burka ou a tourada como factos tão naturais como a lei da gravidade. Suspende-se o juízo. Entra-se no irracionalismo.
Razões de fundo que expliquem a força do multiculturalismo em todos os sectores da sociedade? West aponta duas. Em primeiro lugar, há que considerar a crise de identidade europeia após o fim dos impérios. Em meados do século passado, e após séculos de domínio, os europeus confrontaram-se com estas questões: que fazer? Quem somos? O multiculturalismo preencheu este vácuo. Porquê? Porque o Ocidente é a única civilização que se alimenta da sua própria culpa. A montante das doutrinas multiculturalistas, encontramos o suposto pecado do imperialismo/colonialismo europeu. Quem somos? Somos aqueles que sentem a culpa pelos pecados dos nossos antepassados. Os defensores do multiculturalismo não são os emigrantes, mas membros nativos das sociedades ocidentais – aqueles que se alimentam da culpa pós-imperial. A segunda causa de fundo apontada por West é a seguinte: o multiculturalismo é uma das manifestações de um tempo dado ao irracionalismo: «vivemos uma Era de Contra-Iluminismo» (p. 5). O multiculturalismo é reaccionário, irracionalista e anti-iluminista. Recusa a ideia de Razão, Homem, Direito. Aqui, tudo é relativo. Como no romantismo germânico. Como no reaccionarismo francês J. de Maistre.
O autor inglês é ainda meticuloso na forma como analisa as restantes contradições irracionais do multiculturalismo. E são várias. (1) Se «toda a verdade é relativa, então, por que razão deveremos acreditar numa pessoa que afirma que toda a verdade é relativa?» (p. 35). Elucidativo. (2) Se tudo é ‘cultural’, então, as afirmações de um relativista ocidental são verdadeiras apenas no... Ocidente. (3) A ideia de que todas as culturas são iguais é uma formulação exclusiva do património intelectual ocidental (romantismo alemão, antropologia anglo-saxónica, pós-modernismo francês). Hilariante auto-contradição. (4) Os multiculturalistas declaram que todas as culturas são iguais, mas, em simultâneo, afirmam que o Ocidente é a pior de todas as civilizações. Conclusão: a veneração do “outro” é apenas uma forma de criticar o Ocidente. (5) O multiculturalismo foi desenhado para proteger o “outro”, mas, na verdade, acaba por revelar o velho paternalismo europeu. É quase proibido falar sobre uma prática (bárbara) de um não-ocidental porque, dizem-nos, essa prática “faz parte de cultura X”. Ou seja, podemos criticar as touradas espanholas mas temos de manter silêncio em relação à excisão feminina em África. Por outras palavras, os não-ocidentais são tratados como crianças. Não são responsabilizados (paternalismo moral). E, de forma racista, os multiculturalistas acreditam que o “outro” não pode compreender algo como Direito, Igualdade, Tolerância (paternalismo intelectual).
O orientalismo inverteu-se. Tem uma aparência mais simpática. Mas continua por aqui.
[Publicado na Revista Atlântico]
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