Sexta-feira, 6 de Junho de 2008
Livros Atlânticos

 

Orientalismo invertido

 

 

 

Patrick West, The Poverty of Multiculturalism, London, Civitas, 2005, 80pp.

por Henrique Raposo


O multiculturalismo/relativismo cultural é a ortodoxia da moda. Um digno sucessor do marxismo. Aliás, vários autores descrevem o multiculturalismo enquanto ‘marxismo cultural’. E quais são as bases desta proletarização da cultura? Duas: um dogma quase religioso e uma receita médica. O dogma que percorre escolas, faculdades e Media: não podemos comparar culturas; não existe uma Verdade racional e moral; tudo é relativo, tudo tem uma justificação cultural. A receita médica para aderentes: criticar, cinco vezes ao dia, a facínora civilização ocidental; disparem sobre o Ocidente, perguntem depois. Neste estranho ambiente cultural, quando elogiamos o Ocidente, somos acusados de ‘eurocentrismo’ (quando o nível epistemológico procura ser erudito) ou de ‘racismo’ (quando a conversa ocorre entre a cerveja e o tremoço).


E, como nos recorda Patrick West (Londres, colaborador do TLS, da Spectator, etc.), o multiculturalismo não é apenas um delírio intelectual dos seus ideólogos (Said, Paresh, Young, Kymlicka, etc.). É, desde há décadas, uma política de Estado em países anglo-saxónicos (Canadá, Reino Unido, EUA, Austrália). Avolumadas burocracias estatais distribuem quotas a indivíduos. Porquê? Ora, porque nasceram com uma cor de pele não-branca. Os multiculturalistas afirmam que o Estado deve proteger e incentivar, através de financiamento público, as diferenças culturais, pois esta é a única forma de garantir a tolerância em relação às minorias. Um absurdo intelectual e político-social. Uma coisa é respeitar as diferenças - civilização cosmopolita (onde ainda vivemos…?). Outra coisa é promover, através da lei, essas diferenças – a barbárie burocrática do multiculturalismo.

 

O multiculturalismo, diz-nos West, não assenta no respeito mas na ignorância (voluntária) das diferenças culturais. Tolerância significa respeitar um hábito cultural mesmo quando não concordamos com o dito (ex: touradas em Espanha; burka no Afeganistão). Ora, o multiculturalismo ‘ordena-nos’ a não julgar. Não interessa se concordamos ou não. Apenas temos de fazer uma coisa: aceitar a burka ou a tourada como factos tão naturais como a lei da gravidade. Suspende-se o juízo. Entra-se no irracionalismo.

 

Razões de fundo que expliquem a força do multiculturalismo em todos os sectores da sociedade? West aponta duas. Em primeiro lugar, há que considerar a crise de identidade europeia após o fim dos impérios. Em meados do século passado, e após séculos de domínio, os europeus confrontaram-se com estas questões: que fazer? Quem somos? O multiculturalismo preencheu este vácuo. Porquê? Porque o Ocidente é a única civilização que se alimenta da sua própria culpa. A montante das doutrinas multiculturalistas, encontramos o suposto pecado do imperialismo/colonialismo europeu. Quem somos? Somos aqueles que sentem a culpa pelos pecados dos nossos antepassados. Os defensores do multiculturalismo não são os emigrantes, mas membros nativos das sociedades ocidentais – aqueles que se alimentam da culpa pós-imperial. A segunda causa de fundo apontada por West é a seguinte: o multiculturalismo é uma das manifestações de um tempo dado ao irracionalismo: «vivemos uma Era de Contra-Iluminismo» (p. 5). O multiculturalismo é reaccionário, irracionalista e anti-iluminista. Recusa a ideia de Razão, Homem, Direito. Aqui, tudo é relativo. Como no romantismo germânico. Como no reaccionarismo francês J. de Maistre.

 

O autor inglês é ainda meticuloso na forma como analisa as restantes contradições irracionais do multiculturalismo. E são várias. (1) Se «toda a verdade é relativa, então, por que razão deveremos acreditar numa pessoa que afirma que toda a verdade é relativa?» (p. 35). Elucidativo. (2) Se tudo é ‘cultural’, então, as afirmações de um relativista ocidental são verdadeiras apenas no... Ocidente. (3) A ideia de que todas as culturas são iguais é uma formulação exclusiva do património intelectual ocidental (romantismo alemão, antropologia anglo-saxónica, pós-modernismo francês). Hilariante auto-contradição. (4) Os multiculturalistas declaram que todas as culturas são iguais, mas, em simultâneo, afirmam que o Ocidente é a pior de todas as civilizações. Conclusão: a veneração do “outro” é apenas uma forma de criticar o Ocidente. (5) O multiculturalismo foi desenhado para proteger o “outro”, mas, na verdade, acaba por revelar o velho paternalismo europeu. É quase proibido falar sobre uma prática (bárbara) de um não-ocidental porque, dizem-nos, essa prática “faz parte de cultura X”. Ou seja, podemos criticar as touradas espanholas mas temos de manter silêncio em relação à excisão feminina em África. Por outras palavras, os não-ocidentais são tratados como crianças. Não são responsabilizados (paternalismo moral). E, de forma racista, os multiculturalistas acreditam que o “outro” não pode compreender algo como Direito, Igualdade, Tolerância (paternalismo intelectual).

 

O orientalismo inverteu-se. Tem uma aparência mais simpática. Mas continua por aqui.



[Publicado na Revista Atlântico]



publicado por Atlântico
link do poste | comentar

Comentários:
De Luis Rainha a 7 de Junho de 2008 às 00:06
Delírio total. Que tem o tal multiculturalismo a ver com o marxismo ou com quotas? E quem é que escreveu que todas as civilizações "são iguais", seja lá o que isso quer dizer? E o "ocidente"é pior? Diz quem? Tanto simplismo parece coisa de literatura para crianças...


De JC a 7 de Junho de 2008 às 12:22
Excelente análise.

A Europa vai ter de mudar...vai ter de recuperar o nacionalismo e o “estado-nação “; vai ter de rejeitar o multiculturalismo nas questões civilizacionais.
Registe-se que vários países já começaram a inquirir os valores dos candidatos a imigrantes, em questões como a igualdade das mulheres, a tolerância religiosa, os conhecimentos da língua e da história, etc.

E vamos ter de remeter para a prateleira da estupidez congénita, os bacocos da “Nova Esquerda” niilista que manifestam constantemente o seu despeito pelas sociedades que lhes dão abrigo e liberdade, advogando todas as causas que almejam a destruição dessas mesmas sociedades.
Trata-se de gente incapaz de aceitar esta nossa sociedade feita de compromissos, de tolerância mútua , enfim sem os absolutos que os débeis mentais precisam para se sentirem bem.
Estes “revolucionários sem causa” , orfãos da utopia, estão tão embriagados pela pulsão niilista, como os terroristas islmicos. A única diferença é que estes últimos ainda têm um "Deus Irae", pelo qual morrem, e os bacocos só têm as fotografia falsas de “heróis” falsos...Che, Marx, Mao, etc.
Mas o ódio é o mesmo e dirigido aos mesmos demónios.

Os LR deste mundo são os idiotas úteis de que falava Lenine. E ele usou-os bem...


De Luis Rainha a 8 de Junho de 2008 às 17:47
Interessante seria responder, em vez de disparatar pelo insulto fácil. Responda: quem é que toma o tal multiculturalismo por um "novo marxismo"? Ninguém.


Comentar post

pub
pesquisar
 
linques
blogs SAPO