Nunca gostei de tirar fotografias. Sempre achei que se a minha memória não conseguisse guardar os meus momentos importantes queria dizer que não mereciam ser recordados. Inconscientemente, fui alargando isto a quase tudo na minha vida: nunca fiz cópias de segurança, não guardo textos, documentos, números de contas, enfim, todas as coisas normais da minha vida pessoal e profissional que não fosse no meu computador portátil. Dizia, muitas vezes, que a minha vida estava toda naquela coisa rectangular. Para ser franco nunca levei muito a sério essas palavras. Talvez por pensar que aquela coisa nunca desapareceria ou, mais provável, por achar que não tinha lá nada de especialmente relevante.
Perdi ou roubaram-me o meu portátil e a verdade é que sinto que perdi uma parte de mim.
Tinha coisas importantíssimas a dizer sobre o congresso do PSD e sobre a humanidade em geral. Estou até convencido que era hoje que Pacheco Pereira, esmagado pelo meu brilhantismo, me ia linkar.
Para ainda piorar as coisas era no portátil que guardava a localização da cicuta.
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