Quinta-feira, 26 de Junho de 2008
Vila da Feira

 

Em Santa Maria da Feira (anteriormente: Vila da Feira, um nome que devia ter sido guardado), três juízes (o "colectivo") foram agredidos por algumas das dezoito criaturas que julgavam, num julgamento que decorria num quartel de bombeiros, por o tribunal do lugar – como muitos, parece – não estar em condições (arriscava desabamento). Alguém do governo disse que a proximidade (de facto, quase intimidade) entre juízes e julgados não tivera papel decisivo nos incidentes. Óbvio erro de alguém do governo, pouco sensível a detalhes simbólicos, mas não interessa. O que interessa é que o caso é ilustrativo do país real e mal amanhado que temos. E mais: é ilustrativo da muito imensa incoincidência entre o país real e o país imaginário e quadriculado do primeiro-ministro.
 
Estas coisas são culpa do Engenheiro Sócrates? Não, é claro. Não foi ele que nos fez pobretes (e não alegretes) como somos. E será que a mania de construir um universo muito regulamentadozinho, com asaes e tudo, saiu da cabeça dele? É claro que não. Limitou-se a copiar o que se faz lá fora. E é ele o culpado por a economia estar má? Que se saiba, Sócrates, por mais que o jogging o mantenha em boa forma, não é Deus.
 
O que é culpa de Sócrates é a insensibilidade militante à diferença entre Portugal e, digamos, a Inglaterra. O que é culpa dele é a estupidez – sim, a estupidez – política e humana de fingir que não há diferenças nenhumas, e que somos todos como aquelas criancinhas postiças (lembram-se?) muito contentes por terem uns computadores porreiros, electrizadas por choques tecnológicos.
 
O que é que uma pessoa pode desejar? Um liberal salvífico que o venha substituir? Quem o deseje que o deseje. Até porque o podem desejar muito intensamente que ele não aparece de certeza, nem numa noite de nevoeiro, pelo menos antes de a China se tornar uma democracia liberal, o que ainda deve demorar uns tempos. Mais modestamente, pode-se desejar alguém com bom senso e que perceba que os galos de Barcelos são diferentes dos relógios de cuco suíços e que faça o melhor que pode com o que tem. Parecendo que não, fazia uma certa diferença. Não delirar faz uma certa diferença. Manuela Ferreira Leite fazia. Espero que faça.


publicado por Paulo Tunhas
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Comentários:
De Pedro a 27 de Junho de 2008 às 00:11
Vou fazer aquele papel sempre ingrato: bater palmas. Muito bom.


De Paulo Pinto Mascarenhas a 27 de Junho de 2008 às 00:49
Diria mais: excelente.


De antonio guerra a 27 de Junho de 2008 às 13:21
meus caros amigos, nao deixei de espressar a minha opinião sobre o caso violencia no tribunal da feira) é lamentavel que não noticiem as notias quando esse juiz antonio coelho, trata mal os arguidos, mas sim pelo facto de ele ter levado uns bons pontapés, só se perderam as que cairam no chão, pois a arrogancia dele esta a ser bem paga, tal agressor nao deveria ser preso mas sim condecorado. ha dias estive num tribunal a assistir a um julgamento de 1 individuo por excesso de alcool, pois esse juiz so falta va lhe chmar filho da p.... é esta a democracia que temos no nosso pais, os juizes ja cag... em cima do ze pobinho, enfim tinha que deixar aqui esta mensagem, que o povo nao sabe e nao sai ca para fora estas noticias...


De nuno santos silva a 27 de Junho de 2008 às 00:23
O Tribunal da Feira é do tempo do Laborinho Lúcio, não é? Se calhar na altura aquilo não era um pântano, por isso é que ninguém notou...
Já agora, os juízes têm poder para escolher o local físico do Tribunal onde exercem funções? É que eles suspenderam as audiências enquanto o Tribunal estiver instalado nos Bombeiros...


De Eva Monte a 29 de Junho de 2008 às 11:34
Caro Paulo,

O que esperava? Tribunal de esplanada, com cadeirinhas de plástico , ventoinha apontada para os arguidos, um polícia para cada dez pessoas... Cada vez estou mais de acordo consigo: o meu bilhete de identidade também dita nacionalidade portuguesa.

Já agora só um à parte: sempre ouvi dizer que cházinho não cai mal a ninguém... Sr. António Guerra não confunda democracia e consequente liberdade assertiva de opinião com anarquia e consequente lançamento meteórico de ideias "pessoais, intrasmissíveis" e (a meu ver) despropositadas.


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