Porquê Foucault? Bem, não tenho aqui à mão o "Il faut défendre la société" - único livro de Foucault que li com olhos de ler, e ainda assim há uma data de anos - nem a "História da Sexualidade", com cujo primeiro volume cheguei a ter alguma intimidade há ainda mais anos.
Por isso limitar-me-ei a ilustrar o ponto de encontro que detectei entre o Henrique Raposo e Foucault - ou melhor, entre a metáfora do poder como água que se espalha por um sistema de rega e a concepção do poder que Foucault desenvolve - por palavras próprias e com o grau de incerteza que a escrita de memória permite.
Do que li de Foucault sobre o poder, retive essencialmente que ele encara o poder não como uma coisa mas como uma relação. Ou melhor, como uma série de relações. Um universo de relações sem centro - mas com centros e pontos de apoio. O poder, portanto, como algo de imanente à própria sociedade; como uma imanência inerente à própria vida social. Ora o próprio deste poder foucaldiano é "não parar quieto", é "estar sempre a correr para algum lado". Também na obra de Foucault, "não podemos parar o poder": como parar um universo de relações que ninguém controla inteiramente? É como a água na horta.
Não fiquei, contudo, com a sensação que Foucault visse o poder como um sistema desgovernado: nos tais centros e pontos de apoio que animam as redes de poder, há sujeitos dotados de vontade, tal como a "avó [do Henrique] desviava a água através do sistema de canais". Vendo bem, a metáfora da rega casa-se lindamente com a noção foucaldiana de bio-poder. É que regar e fazer carreirinhos é exercer um poder sobre a vida: não um poder que mata e deixa viver, mas um poder que dá a vida e deixa morrer (neste caso, às hortaliças).
La boucle est bouclée: quando o Henrique Raposo critica José Sócrates por invadir "a nossa vida privada e social", está a denunciar exactamente o que Foucault apontava quando falava de bio-poder. Isto é, a propensão do poder a estender o seu domínio de actuação à totalidade da vida social. Façamos justiça a Sócrates: "o paradoxo terminal do regime político português" que o Henrique Raposo justamente identifica é o paradoxo de todas as governamentalidades contemporâneas. O nosso primeiro-ministro é apenas um intérprete particularmente zeloso e inconsciente daquilo que é a tendência geral.
P.S.: caro Paulo Tunhas, se vir este texto, tenha a caridade de o desmontar com uma benevolência compatível com a manutenção do meu amor-próprio. O silêncio também serve. Antecipadamente grato.
Outros Mares
Outras Ondas