Terça-feira, 29 de Julho de 2008
Com um brilhozinho nos olhos

Henrique,

 

regresso à nossa conversa - que se mais virtudes não tivesse, já me valeria pelo menos ter sido referido nominalmente pelo maradona, uma autêntica medalha blogosférica no que me diz respeito - para te dizer que estou feliz. É que sempre me senti muito isolado na minha intuição sobre o potencial reaccionário de Foucault. Das poucas vezes que partilhei esta intuição, senti uma incompreensão só comparável à que encontro quando confesso que "vi" e gostei da "Branca de Neve" do João César Monteiro. Por isso, quando leio a tua asserção "Foucault é um reaccionário vitalista da cabeça aos pés" sinto-me um pouco como o Sérgio Godinho quando andava com um brilhozinho nos olhos: é que hoje fiz um amigo, e coisa mais preciosa no mundo não há.

 

Claro que amigo não empata amigo, e por isso não temos que estar de acordo em tudo. Ressalvando sempre que as minhas leituras de Foucault são parcelares e longínquas, não me parece que a noção de bio-poder - ou mesmo a leitura foucaldiana do poder em geral - seja assimilável a um holismo de tipo durkheimiano, por exemplo. Mas isto pode ficar para outra ocasião.

 

Compreendo que a metáfora dos carreirinhos não remetia para outra coisa senão uma leitura institucional do poder - mais precisamente para a necessidade de ordenar o uso do poder político através de instituições bem desenhadas. Estou, aliás, a 100% contigo nessa luta. Mas não me parece que o institucionalismo - quer o tomemos como ponto de partida analítico ou como orientação normativa - implique uma visão reificada do poder.

 

Eu, pelo menos, sinto-me confortável na defesa de um poder político limitado constitucionalmente, justamente porque concebo o poder não como um dispositivo que se activa ou desactiva, mas como uma relação, ou um conjunto de relações, que é inerente à própria vida social e se expande com ela. Quando te vejo dizer que "dê por onde der, aquele que tem poder vai usá-lo", ou "não podemos paralisar a natureza indomável do poder", fico com a sensação que estamos de acordo neste ponto.

 

Quanto ao bio-poder, vejo-o não como um tipo diferente de poder, mas como uma via de expansão do poder. Uma via de expansão que tem vindo a ser trilhada desde há muito tempo. E que explica bem não apenas a paranóia actual com a saúde e com o terrorismo, mas igualmente o desenvolvimento do Estado Social no século XX; ou a renitência contemporânea em aceitar baixas em conflitos armados; ou a crescente importância da capacidade económica dos Estados na hierarquia do poder internacional e a correlativa desqualificação do potencial militar nessa mesma hierarquia.

 

Por isso, sim, é um conceito interessante. E tenciono continuar a explorá-lo. Até porque a expansão do poder deve ser sempre muito bem vigiada. A seu tempo darei notícias das minhas explorações...

 

Abraço,



publicado por Vasco Campilho
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