Sábado, 30 de Agosto de 2008
Cantas bem, mas não me alegras

O concerto dos Beatles no Shea Stadium, em 1965, foi um ponto de viragem na carreira dos quatro de Liverpool. Dezenas de milhar de pessoas aos gritos, pouquíssimo interessadas em escutar a música, impediram inclusivamente os músicos de se ouvirem uns aos outros. Impressionados com o delírio filistino dos seguidores e frustrados com o atraso da tecnologia - que ainda não permitia o poder sonoro dos grandes concertos de hoje -, Macca, Lennon, Harrison e Ringo decidiram deixar de tocar ao vivo e dedicar-se a aprimorar a escrita de canções e a experimentar as potencialides do estúdio de gravação. Daí em diante, foi o que foi: o Rubber Soul, o Revolver, o Sgt. Pepper's, o Magical Mystery Tour, o álbum branco, o Abbey Road e o Let It Be. Quatro anos maravilhosos.   

 

A rock star Barack Obama teve ontem o seu Shea Stadium. Só que, apesar da gritaria e da choradeira, a técnica sonora lá lhe permitiu continuar a deliciar-se com as "suas" palavras e a ser ouvido. Pelo que não houve uma epifania beatleiana e não parece que, caso seja eleito, venhamos a ter quatro anos mais enxutos de cançonetismo popularucho.

 

Ontem vi o discurso em directo, consciente da importância histórica do momento e, portanto, sinceramente disposto a ser arrebatado. Também eu tenho o meu módico de mitomania. Mas o que vi foi pouco mais que pobrezinho. Para líder inspirador do Mundo Livre, todo aquele populismo rasteiro e piadolas é de uma insuficiência atroz.

 

Bem espremida a prestação, o que é que tivémos?

 

Em primeiro lugar, o argumento familiar de sempre, repetido até à náusea: o homem merece ser Presidente do seu país por causa da maravilha que são a Michelle e as petizes, pelas dificuldades que a mãezinha e o paizinho tiveram de suportar durante a vida, etc, etc. Como se isso (seguramente importante e admirável) desse substracto às ideias e credibilidade à candidatura. Como se tudo isso fosse uma categoria política. (Gostaria que McCain não fosse pelo mesmo caminho, utilizando o seu passado de prisioneiro de guerra, mas não tenho grandes esperanças).

 

Depois, um recrudescer da fulanização cretina contra McCain, com simplismos retóricos que deveriam envergonhar um blogger diletante, quanto mais um candidato a Presidente dos Estados Unidos da América. O melhor exemplo foi aquela insinuação de que McCain não estaria muito empenhado em apanhar Bin Laden.

 

Finalmente, também não faltou a velhinha retórica do populismo económico: roubar aos malvados dos ricos para dar aos pobres, com um elenco de propósitos inexplicáveis. Desde logo, uma "medida" que vou apontar para memória futura: "fechar" paraísos fiscais. Quais? Onde? Fora dos EUA? Como? Invadindo os territórios e depondo os respectivos governos? Ou estava a falar dos regimes favoráveis que existem dentro do território americano? Mas como contornará a soberania dos Estados nessa matéria e, antes de mais, os governos desses Estados? E, já agora, se "fechasse" os "paraísos fiscais" americanos, como impediria que os seus utilizadores passassem a utilizar os dos territórios estrangeiros? E o que diria aos seus grandes financiadores?

 

O resumo ideológico da proposta Obama (pelo menos na sua versão verbalizada que escutámos ontem) é bem claro: desmontar a "ownership society", alegadamente entendida em Washington como a sociedade do "desenrasca-te a ti próprio". O problema é que, segundo o próprio Obama, o objectivo dessa proposta é o de restaurar a força do "sonho americano". O qual - esquece o candidato - foi construído, precisamente, à conta do "desenrasca-te a ti próprio". O Estado paternalista que Obama defende é o oposto acabado do modelo em que assentou a prosperidade da América. Toda a base programática da sua candidatura é, portanto, um grande paradoxo. E, já agora, estranho cada vez mais que pessoas que, para efeitos domésticos, passam a vida a deplorar os lirismos esquerdistas dos Louçãs e dos Jerónimos, dos Alegres e dos Soares, venham agora entusiasmar-se com este discurso, só - aparentemente - por razões de estilo. Será talvez porque, pronto, é moda lá fora. Mas a isso, na minha terra (da província), chama-se provincianismo.  

 

Pois bem: o discurso foi bonito, muito bem estruturado e magnificamente dito - como um concerto de alinhamento perfeito e delivery antológica. Mas Obama deveria procurar lá no disco dos Smiths que o David Cameron lhe deu aquela canção sobre música oca. Because the music that he constantly plays, it says nothing to me about my life.



publicado por Francisco Mendes da Silva
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Comentários:
De Manuel Leão a 30 de Agosto de 2008 às 12:09
Claro! A campanha Republicana é sempre consistente, onde nunca aparecem famílias com a lágrima ao canto do olho e onde os "kids" nem sequer entram nos eventos. Além disso, a música é celestial, com vozes puras, cristalinas e bem timbradas.
É preciso ter lata, muita lata mesmo! E, acima de tudo, hipocrisia,
E quanto a presidentes com tiradas "cretinas", fulanizadas ou não, é coisa que os republicanos não têm. Nem por sombras.

PS - Por vezes até as armas cantam, estrategicamente, onde e quando der jeito. Mas devem ser armas abençoadas.

A estes argumentos, o nosso Eça responderia apenas: corja!


De ezequiel a 30 de Agosto de 2008 às 14:29
Este post merece mesmo uma resposta.

Mas só depois do jantar.

Até logo.



De ezequiel a 30 de Agosto de 2008 às 16:57
1. O carácter do candidato a Presidente é uma categoria relevante. Será possível avaliar o carácter, a formação ética, de um candidato sem considerar o seu percurso, as suas experiências, a sua família, os amigos que tem etc. Como é que eu separo a vida privada de McCain do seu percurso como figura pública. Gostaria de ter um Presidente na Casa Branca que se rodeia de amiguinhos corruptos ou que se faz acompanhar de uma esposa corrupta, com ligações a personas duvidosas? Não me parece. A avaliação pública de um candidato nunca é meramente política. Nem deve ser. A apresentação da família ao eleitorado enquadra-se nesta categoria, a do carácter. Trata-se de uma prática firmemente enraizada na cultura política Americana e que surge com a proximidade dos town hall meetings. Uma prática que persiste até aos dias de hoje e que na polis grega não era negligenciada. A partir do momento em que um cidadão decide participar na esfera pública, a sua vida, toda ela, deve ser pública, considerada e avaliada por todos. McCain faz muito bem em salientar o seu passado ( será que o facto de ele não ter abandonado os seus compatriotas, quando o poderia ter feito sem qualquer problema - estamos a falar de uma "estadia" prolongada com os viet congs - é politicamente irrelevante? O homem foi torturado mas nunca abdicou dos seus princípios. O que é que isto me diz acerca dele? Será isto irrelevante? O facto de Bush ter "escapado" à guerra do Vietname não é relevante? O facto de ter sido um péssimo aluno não é relevante? Trata-se de um sistema presidencial. O Presidente desfruta de um imenso poder. A capacidade de um Presidente ser responsável depende apenas das suas propostas políticas? É evidente que não. Os programas políticos são elaborados com tempo e ponderação. Não são situações de crise. Nas situações de crise o carácter, o make up psicológico do presidente, é uma consideração vital. When you participate in public affairs your life is ours. A accountability não é um processo meramente político. Nunca foi.

2.Além disso, a família de Obama é a personificação do American Dream, um dos mais importantes "valores" da cultura política Americana. Seria absurdo ou até desonesto não explicitar este facto. A pertença comunitária não é coisa banal, asseguro-lhe. Mas, a bem da verdade, tudo isto resultou. em grande parte, da hedionda campanha da direita religiosa que visou a "estrangeirização" da família Obama. Obama teve que demonstrar que É Americano, that he and his family are part of the American tradition. Para não falar da questão do mérito. Michelle é brilhante, deu no duro para chegar onde chegou. Não chegou lá pela via dos favorzinhos e das cunhas. Lutou muito para chegar onde chegou. Mérito, meu caro. Mérito e integridade ética. O mérito pessoal é uma categoria política a partir do momento em que se participa na vida pública. Simples. A separação das esferas privada e pública é uma ficção legal inconsequente na deliberação pública. Há coisas mais ou menos relevantes, evidentemente. Um Presidente ou PM depressivo não é necessariamente algo de problemático...se souber que o sr Presidente ou PM consegue lidar com o seu problema (Churchill). Se Churchill tivesse sido incapaz de lidar com a ameaça nazi por causa do "black dog", esta incapacidade teria sido relevante. Toda a classe política sabia do seu problema. Mas todos sabiam tb que o Winston não sucumbia quando confrontado com esta "debilidade." E respeitavam-no por isso.

3. Bin Laden. McCain é um dos mais importantes peritos em segurança nacional no congresso dos EUA. Ou seja, sabe, muito bem, que a guerra do Iraque deflectiu recursos vitais que deveriam ter sido usados no Afeganistão. Todos os recursos militares dos EUA deveriam ter sido utilizados na persecução deste objectivo: apanhar Bin Laden. O facto de não ter sido ainda apanhado é um escândalo e um insulto a todos os Americanos , especialmente aqueles que pereceram naquele sórdido dia. Ao optar pela guerra do Iraque, McCain, assim como todos os outros que votaram a favor da decisão, negligenciaram o objectivo de apanhar bin laden. Eles sabiam que os recursos militares Americanos não são infinitos. A negligência deve ser punida. Hoje podemos ver o que se passa no Afeganistão e no Paquistão. continua...


De ezequiel a 30 de Agosto de 2008 às 17:46
3. Não será necessário fechar os paraísos fiscais. Não é isto que Obama propõe. É possível dificultar, sobremaneira, a exportação, muitas vezes ilegal ou "loopholish", de fundos que, sendo gerados nos EUA, deveriam ser taxados. Simples. Se é possível fazer isto com os fundos utilizados para fundar actividades terroristas não será muito difícil conseguir algo de muito semelhante com as fugas ao fisco. Não seria necessário invadir seja quem for. Bastaria adoptar legislação relevante que fosse escrupulosamente implementada pelo FBI e o Treasury. As companhias são Americanas. O Obama não é apoiado por grandes financiadores. A vasta maioria dos seus apoiantes são cidadãos, que contribuem pequenas quantias. O Silicon valley é o maior dos seus grandes financiadores. As empresas tecnológicas Americanas raramente exportam os seus lucros para paraísos fiscais. Reinvestem-nos em R&D. Todavia, a questão relevante parece-me a seguinte: serão as dificuldades em impedir a fuga ao fisco uma justificação para a inacção? Não me parece.

3. Afirmar que a cultura política Americana resume-se ao "desenrasca-te a ti próprio" é de uma ignorância monumental. A cultura política Americana não é uni-dimensional. Ao "desenrasca-te a ti próprio" podemos juntar as nobres tradições de activismo cívico (participação comunitária), participação democrática e o patriotismo. O New Deal de Roosevelt não faz parte da herança política Americana? Seria paradoxal se este fosse o único pilar cultural da política Americana. Mas não é. Logo, não é paradoxal. O facto de ter optado pela miopia diz muito acerca da sua honestidade intelectual. Se isto não é demagogia....O "We the People"...não é um desenrasca-te a ti próprio...que magnifica e sofisticada interpretação da cultura Americana...eh ehe eh

Obama não defende um estado paternalista. Pelos vistos, tal como o Rui Tavares, o Francisco não se deu ao trabalho de ler as propostas concretas de Obama (no site) e a entrevista a Goolsbee (repito: a partir do minuto 12, hardtalk, citado num outro comentário, em resposta aos argumentos de Rui Tavares)

Quanto à falta de juice, de substância: o Francisco esqueceu-se, por completo, que não é nas convenções que se debate detalhadamente as policy options.

São m foruns como este e em muitos encontros em town hall meetings que as coisas são debatidas de forma mais rigorosa...

as convenções são grandes eventos onde se anunciam orientações gerais. É assim em todo o mundo. Uma convenção é, na sua essência, uma celebração. Todavia, nunca ouvi Louçã ou Alegre a explicar como implementariam os seus ambiciosos projectos de justiça social. O Obama explica. Basta visitar o seu site, ouvir os muitos dos seus discursos e os dos seus conselheiros (Goolsbee, Greg Graig e muitos outros).

Para concluir, gostaria de pedir-lhe que corroborasse a sua tese de que o Obama pretende criar ou recriar um "estado paternalista". O que é que entende por "estado paternalista"? Os programs ROTC são paternalistas? Os apoios estatais para os estudantes brilhantes são paternalistas? Explicite melhor a coisa para ver se o compreendo melhor.

reduzir a carga fiscal da classe média é um acto "paternalista"?? Que ignorância!


http://www.youtube.com/watch?v=rRJkoRfhetk


http://www.youtube.com/watch?v=IhLiiIDLN4U

http://www.brightcove.tv/title.jsp?title=1381682549

http://austinist.com/2008/06/13/johnson_family_asks_presidential_ca.php


De ezequiel a 30 de Agosto de 2008 às 17:51
errata: Obama não defende a criação de um estado paternalista


De ezequiel a 30 de Agosto de 2008 às 18:19
http://www.ft.com/cms/s/0/77526942-73ce-11dd-8a66-0000779fd18c.html

"Many people do not pay close attention to policies early in an election. After the conventions and Labor Day they start comparing platforms - and as soon as anybody does that the choice will be clear."



De ezequiel a 30 de Agosto de 2008 às 18:28
desculpas pela insistência.

Francisco, não confunda despesismo com paternalismo.

O progr de Obama é despesista em muitos sectores. Porquê? Visitou os EUA recentemente. Apercebeu-se do estado lastimável em que se encontram muitas infraestruturas elementares, como estradas etc??? Pois bem, garanto-lhe que não estão up to standard.

Querem boas estradas? Não são de graça nem são oferecidas pelo pai natal.

http://www.washingtontimes.com/n...-economic-plan/

a questão central é: despesista em que sectores e porquê????



De ezequiel a 30 de Agosto de 2008 às 18:42
oops, very sorry..mas este post entusiasmou-me...


tax havens:

End Tax Haven Abuse: Building on his bipartisan work in the Senate, Obama will give the Treasury Department the tools it needs to stop the abuse of tax shelters and offshore tax havens and help close the $350 billion tax gap between taxes owed and taxes paid.


in http://www.barackobama.com/issues/fiscal/

presumo que tenha lido que ele, Obama, pretendia "acabar" com os tax havens no WSJournal ou no FT. To "stop the abuse" is NOT the same as saying that one intends to close tax havens.

Mais uma das muitas distorções desta campanha.

http://www.senate.gov/~levin/newsroom/release.cfm?id=269479

melhores cumprimentos,
ezequiel


De Francisco Mendes da Silva a 30 de Agosto de 2008 às 19:08
Eu escrevi as minhas impressões sobre O DISCURSO. Onde, pelos vistos, Obama defende coisas ligeiramente diferentes do que está escrito no seu programa. Por exemplo, ele diz que vai "close loopholes and tax havens".


De Francisco Mendes da Silva a 30 de Agosto de 2008 às 19:08
Eu escrevi as minhas impressões sobre O DISCURSO. Onde, pelos vistos, Obama defende coisas ligeiramente diferentes do que está escrito no seu programa. Por exemplo, ele diz que vai "close loopholes and tax havens".


De Manuel Leão a 31 de Agosto de 2008 às 12:40
Afinal não era tanto assim.
Tanto empolgamento para tão pouco.
Se são coisas ligeiramente diferentes porquê tanta importância. Ou queria que o discurso do homem consistisse na leitura completa do programa?
O que lhe chamaria depois? Sessão sonolenta?

Fique descansado: Os paraísos fiscais não vão acabar assim tão depressa.


De ezequiel a 30 de Agosto de 2008 às 20:36
Sim, é verdade. No discurso Obama diz querer fechar os loopholes e os paraísos fiscais...

será difícil? sim. sem dúvida.

conseguirá fechar todos os que absorvem os lucros daqueles que fogem ao fisco nos EUA? não.

não obstante, deverá tentar implementar esta política (de os fechar)?

SIM.

Os cidadãos Americanos pagam os seus impostos ao Uncle Sam. O cidadão comum, de classe média, não consegue fugir ao IRS. As multinacionais e os que ganham exorbitâncias conseguem-no. É uma questão elementar de equidade, Francisco..."equal protection under the law " so says the founding document of America's liberal democracy. Palavras ocas? NO. NO WAY.

(depois do minuto 2, ouve com atenção, caro Francisco)

http://www.youtube.com/watch?v=WzdthMhvkTE


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