Domingo, 7 de Setembro de 2008
Sinatra e as mulheres.

 

George Jacobs era escarumba, judeu, mordomo de Frank Sinatra e o último dos Rat Pack. Em Mr.S The Last Word On Frank Sinatra esmiúça os pormenores mais sórdidos da relação de Sinatra com JFK, a Máfia e sobretudo as mulheres: Ava Gardner, Kim Novak, Natalie Wood, Sophia Loren, Grace Kelly, Lauren Bacall, Marilyn Monroe, Mia Farrow, senhoras prostitutas, quecas e semi-estrelas. Joe Kennedy, pai de JFK, que torceu e apostou em Hitler durante a Segunda Guerra Mundial e era famoso por contar anedotas aos amigos (‘Sabes qual é a diferença entre uma pizza e um judeu? A pizza não chora a caminho do forno’), enriqueceu primeiro a vender álcool durante a proibição, depois com um estúdio em Hollywood e por último com o jogo, casinos e afins em parceria com a máfia que particionou a eleição do filho. Através de Sam Giancana (padrinho de Chicago), convidou Sinatra e os Rat Pack para a campanha de JFK, o que lhes valeu os votos de milhões e milhões de pré-hippies. Aliás, Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis, Jr. e companhia começaram por se chamar O Clan, mas isso era demasiado parecido com Ku Klux Klan e durante as eleições mudaram para Rat Pack. Se contarmos que no dia das eleições JFK ainda estava empatado com Nixon e que a máfia tinha pessoal espalhado por toda a América cuja especialidade era ‘falar com pessoas’, podemos dizer que Sinatra e a máfia puserem Jack Kennedy na Casa Branca. JFK e Sinatra estavam unidos pelo melhor amigo, Jack (Jack Daniels), e o ‘been there, fuck that’. Chegaram a partilhar Marilyn Monroe e Judy Campbell, uma Elizabeth Taylor menos atarracada e prostituta de Sinatra. Que preferia as profissionais (chegavam, viam, chupavam e iam embora sem fazer barulho) às amadoras (gostavam de falar depois do sexo sobre o ‘depois do sexo’ e Sinatra só tolerava ser acordado por um broche; seguia a filosofia ‘blow me or blow out’). Ava Gardner foi o grande amor de Frank Sinatra. Tinha tudo: pernas, cara, inteligência, sentido de humor, mamas que constituíam uma excepção às leis de Newton, e aqueles olhos de lince. Num mundo perfeito, Ava Gardner seria uma prostituta que eu poderia pagar. Durante duas décadas, mais de 10 anos após o divórcio, milhares de prostitutas (uma por noite, todas as noites), centenas de estrelas em ascensão através do broche, Lauren Bacall e Marilyn Monroe, Sinatra continuaria apaixonado por Ava. Todas as canções eram para ela. Tudo o que fazia, para a reconquistar ou esquecer. Se Humphrey Bogard era o seu ídolo e Puccini o seu compositor, Ava Gardner era a sua musa. Um antigo agente de Hollywood (Swifty Lazar) costumava dizer: ‘todos os falhados são porreiros porque têm tempo para ser porreiros’. E como Sinatra até quando estava em cima estava em baixo (e quando estava em baixo, estava mesmo em baixo), era a definição de um tipo porreiro, ou seja, um falhado, mas um belo falhado. Nunca jantava antes da 1:00. O pequeno-almoço não era a refeição mais importante do dia porque simplesmente não era refeição, nunca se levantava antes das duas e toda a comida era sintetizada à italiana. Gostava de largar piadas nos amigos arraçados: ‘O que é longo e duro num preto? A terceira classe’. Kim Novak, a primeira grande estrela depois de Ava, tinha as coxas demasiado abrutalhadas e perdeu-a para Sammy Davis Jr. que quase a perdeu para a própria vida quando esta o deixou. Descobriu Natalie Wood quando esta era (bem) menor. Mais tarde viria a casar com Chaplin e Roman Polanski, mas foi com Sinatra que teve ‘aulas de canto’. Andou com Sophia Loren, mas ainda amava Ava Gardner e ela era daquele tipo de mulher que queria ser sempre a número um. Grace Kelly escapou à primeira, enquanto faziam um filme juntos com Bing Crosby (um dos poucos homens que intimidava Sinatra), mas não à segunda. Quando descobriu que o seu mordomo e o príncipe do Mónaco, marido de Grace, se davam bem, costumava mandá-lo entreter o príncipe enquanto ele tirava o pó à prata do reino. Depois de Bogard morrer, Sinatra decidiu cuidar dos despojos e começou a sair com Lauren Bacall. Estiveram juntos um ano, mas também não deu certo. Tinha ciúmes de Ava, a quem Sinatra ligava todas as semanas e de quem tinha fotografias espalhadas pela casa. Acabou com ela pelo telefone. Marilyn Monroe amava-o, mas era uma porca suicida. Passava semanas com a mesma roupa, recusava-se a usar tampões quando vinha o demónio, menstruava-se na cama e emborcava soporíferos como se fossem pilas. Mia Farrow era uma Julia Roberts ainda mais avacalhada com peito à Kate Moss. Era uma Ava Gardner ao contrário, sem corpo, sem classe, sem sentido de humor, hippie e, como dizia Dean Martin, mais nova do que o seu Scotch. Mas deu em casamento. E como todos os casamentos, em divórcio. Ela queria ter filhos e isso, para Sinatra, era como uma sopa de minhocas para um germofóbico. Mas por causa de Farrow, também acabou a relação de duas décadas com o seu querido escarumba (como costumava tratá-lo) e leal amigo, George Jacobs, o mordomo. A sua última mulher foi Barbara Marx, casada com Zeppo Marx, o único dos irmãos Marx que não tinha piada. Esteve com ela desde 72 até à sua morte, em 98. Jacobs chegou a perguntar-lhe o que via nela: ‘Grace Kelly, quando fecho os olhos’. Quando se reencontraram, anos mais tarde, por breves segundos à porta de um hotel, Jacobs começou a chorar. Antes de o deixar, Sinatra pousou-lhe a mão no ombro: ‘Esquece isso, miúdo’.

 

Para o Nuno Miguel Guedes, presidente da associação de Sinatra em Portugal.



publicado por Tiago Galvão
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Comentários:
De Dinis a 7 de Setembro de 2008 às 18:08
Com este post quase que me faz esquecer o facto de ser o único Sportingista que diz torcer (uma vez que seja) pelo FcPorto,
Quase.


De Dinis a 7 de Setembro de 2008 às 18:14
Sportinguista, foda-se! E a seguir a FCPorto, ponto final.


De Tiago Galvão a 7 de Setembro de 2008 às 20:27
Muito obrigado. O Porto é lindo. Um abraço.


De Nuno Miguel Guedes a 7 de Setembro de 2008 às 19:14
Obrigado Tiago. Post brilhante que é melhor que o próprio livro. O engraçado é que a Bacall, na sua biografia, despacha o caso Sinatra em nove páginas com muito álcool e paixão mas evita dizer que tinha ciumes de Ava, preferindo chamar cobarde a Sinatra por ter acabado com ela por telefone (obviamente que ele já não estava a gostar da ideia de voltar a casar).
Agora: romper com a Lauren Bacall, (na altura nos seus late-twenties, linda e madura) por telefone. Para isso é que é preciso ter pinta.
Grande abraço.


De Tiago Galvão a 7 de Setembro de 2008 às 20:25
Muito obrigado, Nuno. Guardei o His Way que também me recomendaste para um dia mais tarde. Desde o início do ano que quis escrever este texto. Só agora consegui combinar o ócio com a vontade. Ao contrário dos princípios do Senhor, foi escrito praticamente todo de manhã. Um abraço.


De Anónimo a 8 de Setembro de 2008 às 12:55
A «reentré» chegou. Parabéns!


De Tiago Galvão a 8 de Setembro de 2008 às 13:03
Muito obrigado. Um abraço.


De Margarida Pereira a 8 de Setembro de 2008 às 13:23
O cru é normalmente gratuito.
Bastas vezes descontextualizado.
Manipulado para chocar, ao invés de aportar o real cenário de convulsão que naturalmente encerra e revela.
Desafecta e desvia da origem do abastardamento.
Mas…
Sinatra foi isco para um teor inteligente, de raspões históricos em flashes memoráveis.
Um jorro cinematográfico, de câmara suspensa, constante, sobre as personagens e os seus artifícios; sobre o humano nelas, além do glamour natural, sempre plasticamente intensificado pelo marketing.
Há aqui, mais do que um trailer, um filme inteiro.
Vidas cruzadas com um interesse superior à imaginação que delas fizemos.
Frestas para se aprofundarem algumas biografias.
Nova luz para readmirarmos fotos a preto e branco com tonalidades prismáticas de cinza em vários graus.
Formidável apelo.
Mesmo com a crueza do olhar gelado, arremessa labaredas.



De Zélisonda a 8 de Setembro de 2008 às 17:18
Porra, vai escrever assim para o caralho! O que é que estás à espera, pá!' Sai da blogosfera e apresenta-te pá, este país precisa de gajos como tu! Eu ando fodido desde que o João César Monteiro quinou, o gajo doa Enapá 2000, anda arredio, e tu meu caralho, acabaste com o teu blog e vens para um blog colectivo que dá uma trabalheira do caralho a encontrar-te. O inverno aproxima-se e é preciso ter algum conforto. Toca a escrever!!!


De Roberto Carvalho a 27 de Outubro de 2009 às 21:20
Bem amigo, ou voce nao conhece toda a vida de Sinatra ou não gosta de mulher. Sinatra foi um dos maiores defensores de negros dos EUA, em uma época de puro racismo, sempre em suas bandas ele fazia questão que tivessem negros e esses entrava em todos os hoteis onde Sinatra se hospedava, pois na época era proibida a entrada dos mesmo..Roberto Carvalho


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