O mercado, explicam-nos, não se corrige si próprio. Cabe aos funcionários públicos corrigi-lo. Eis uma ideia curiosa. Porque é precisamente o contrário que vemos: o mercado está a corrigir-se (daí os colapsos bancários), e a intervenção do Estado (do género a que o Tesouro americano finalmente se escusou no caso do Lehman Brothers) é desejada ou exigida precisamente para evitar essa correcção. A fim de poupar os "ricos"? Não: a fim de poupar os "pobres" que se habituaram a viver acima das suas possibilidades. Ou seja, espera-se que o Estado use o seu poder para conservar e garantir os resultados da irresponsabilidade e da ganância. Não discuto as boas intenções: ninguém quer casas abandonadas e centros comerciais fechados. Mas não nos enganemos sobre o que andamos a pedir: trata-se de substituir a bolha do mercado pela bolha do Estado.
"...a fim de poupar os "pobres" que se habituaram a viver acima das suas possibilidades."
Mais um pouco e as Instituições Financeiras passaram a IPSS. Não fossem esses e gostaria de ver que lucros teriam os Bancos.
De
jmvfaria a 17 de Setembro de 2008 às 11:34
Convém que os pobres não sejam ambiciosos, mas ordeiros, submissos e de chapéu na mão a cumprimentar o prior , o presidente de junta e o rico da terra como à 40 anos.
São os miseráveis pobres que arruínam a democracia e o capitalismo.
De o mercado está a corrigir-António Carlos a 17 de Setembro de 2008 às 12:01
".. o mercado está a corrigir-se (daí os colapsos bancários) ..."
Não há dúvidas de que o mercado se corrige e se está a corrigir. Também não há dúvidas que a correcção é necessária.
A questão que coloco é se o colapso é o melhor mecanismo de correcção, nomeadamente quando quando estão em causa empresas de elevada dimensão (não é o mesmo de falar de falências de mercearias ou mesmo de fábricas têxteis) e que têm um papel fundamental em todo o sistema bancário internacional (não é portanto o mesmo que a falência do BCP).
Na resposta a esta questão é necessário ter em conta que um colapso/falência desta dimensão tem custos (até sociais) que talvez aconselhassem outra abordagem. Penso até que no fundo é isso que o FED faz. Mais uma vez, será que é possível continuar a ignorar que a existência de grupos desta dimensão potencia futuros colapsos?
De Manuel Leão a 17 de Setembro de 2008 às 12:03
«A fim de poupar os "ricos"? Não: a fim de poupar os "pobres" que se habituaram a viver acima das suas possibilidades. Ou seja, espera-se que o Estado use o seu poder para conservar e garantir os resultados da irresponsabilidade e da ganância»
Pasmo que haja quem ainda consiga pensar assim. Mas pasmo, ainda mais, que haja quem consiga escrever pérolas destas.
Os pobres com que estranhamente o articulista, agora, se preocupa, vivem acima das suas possibilidades porque decidiram comprar uma casa, que, na esmagadora maioria dos casos lhes fica mais barata, mensalmente, do que se pagassem aluguer? É isso? Ou esperava que para condizer com a sua "categoria" de pobres vivessem debaixo da ponte? Que os filhos fossem descalços para a escola, como nos anos 40 e 50? Que passassem por esta vida num vale de lágrimas? Que a sua vida fosse trabalhar, comer mal e dormir para voltar a trabalhar no dia seguinte? Que nos fins de semana pegassem na enxada e fossem cavar? Era a esse figurino que deviam aderir os pobres?
Realmente é preciso ter lata. Andam, ano após ano, dia após dia, a tecer loas ao capitalismo de especulação financeira e, na hora em começam a cair os "castelos de cartas", tratam logo de "se porem ao fresco", escrevendo coisas destas.
Mas, será que estas falências se explicam, apesar de tudo, apenas com o funcionamento do mercado? Ou existirá nisso faltas equivalentes às que determinaram o colapso da Eron, por exemplo? Ou estarão relacionadas com paraísos fiscais?
Vejamos o que se vai passar.
De José a 17 de Setembro de 2008 às 13:27
O meu obrigado ao Manuel Leão que escreveu aquilo que eu gostava de ter escrito.
Sinceramente, esta desconsideração pelas pessoas que menos têm e que ainda assim se esforçam por viver com algum conforto é de causar vómitos.
O senhor rui ramos pode ser muito espertinho e muito cultinho mas ainda tem muito que aprender.
Manuel Leão e José, convinha que não fossem tão literais. Rui Ramos está precisamente a criticar o facto de que quem beneficia da interferência do Estado são os "ricos" e não os mais "pobres". Não me parece difícil de compreender isso, mas enfim, tudo é possível.
De Manuel Leão a 17 de Setembro de 2008 às 18:30
Senhor P. P. Mascarenhas,
Diga-me, então, o que é que isto quer dizer:
«A fim de poupar os "ricos"? Não: a fim de poupar os "pobres" que se habituaram a viver acima das suas possibilidades»
É que foi esta a frase que eu comentei.
Entretanto veja a interpretação que outros também fizeram.
«A fim de poupar os "ricos"? Não: a fim de poupar os "pobres" que se habituaram a viver acima das suas possibilidades.»
Em principio, quem fica a arder com a falência de uma instituição financeira são os seus acionistas e credores, não os devedores.
De maria a 17 de Setembro de 2008 às 22:50
Penso que é mesmo para poupar os "ricos das finanças" que estavam convencidos que iriam mamar juros até o fim da vida dos trabalhadores. Não contaram mas foi com os "ricos da produção" que deslocalizaram as empresas lá pra cochinchina onde a mão de obra e custos de produção são uma pechincha e pronto , lá se foram os sonhos esclavagistas por água abaixo devido a uma falha de comunicação entre os diferentes tipos de "ricos".
A vida tem destas coisas , não se deve contar com o ovo lá no dito.
De
rui_david a 19 de Setembro de 2008 às 18:26
O pessoal da "ausência de governo", se tivesse um bocadinho de pudor, evitava o ridículo, falava de outras coisas durante algum tempo, fazia um luto de uns meses para ler e reflectir, e quando a crise passasse, então sim, regressaria em beleza com novas, originais e divertidas propostas que talvez até tivessem acolhimento perante os "pobres" entretanto drasticamente arruinados pelo intervencionismo do governo e ansiando pela protecção benfazeja de todas as desregulações cujos méritos têm estado patentes à vista de todos.
Mas a tentação é grande, mesmo depois do "fim das ideologias" e do "socialismo científico", para encontrar explicações a posteriori para tudo... e a bem ou a mal, a verdade revelada é que não se consegue que O Mercado não se auto regule quaisquer que sejam as complicações para os humanos. Quem não há forma de "regular" de todo são os apóstolos da teoria.
Vá lá que mesmo assim, o tom queixumento, ressentido (contra os pobres) e mortificado do Rui Ramos ainda é o único registo capaz de sustentar a ilusão de que é possível salvar a honra ao... convento.
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