Quinta-feira, 31 de Julho de 2008
O “regular funcionamento das instituições”

A mensagem de Cavaco. Por Bruno Alves.

 

Ou seja, tendo criado hoje um grande dramatismo em torno do novo Estatuto dos Açores, Cavaco pretende não só avisar os portugueses daquilo que não está disposto a aceitar, mas também criar as condições para que, caso o PS queira ignorar a opinião presidencial, Cavaco tenha toda a margem de manobra para os impedir: dissolver a Assembleia sob o pretexto de que esta pretende introduzir medidas que afectarão o “regular funcionamento das instituições”.



publicado por André Azevedo Alves
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O Magalhães



publicado por Vítor Cunha
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Está tudo doido

 Liguei a televisão na Sic Noticias às oito e tal e estava a dar o momento Zen do programa do Jon Stewart. Mudei logo: era demasiado patético.   



publicado por Pedro Marques Lopes
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Um presidente atento

 Há uma diferença entre este novo Estatuto dos Açores e as palavras de menosprezo de Jardim relativamente à Assembleia Regional da Madeira. É que este Estatuto que, de acordo com Cavaco Silva, fere a Constituição, nasceu no Parlamento. Num orgão de soberania que está par a par com o Presidente da República.

 

Mas há um sinal muito mais importante que esta pequena novela açoriana e que marcará os tempos mais próximos: Cavaco está atento. Nas matérias que julga importantes não se coíbe de dizer o que pensa. De fazer o que entende ser o seu dever. Cavaco é um presidente eleito por voto universal que não se escusa ao exercício do seu poder.

 

Em 2009, dificilmente algum partido terá, sozinho, maioria absoluta. Cavaco já o percebeu. Já nos deu os sinais e agirá quando for preciso e conforme as necessidades.

 

O semi-presidencialismo tem destas coisas. É algo incerto e periclitante. Quem assim o quis, não se queixe.



publicado por André Abrantes Amaral
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Jazz. Sérgio Gouveia. Hot Clube.

Antes do Alentejo, uma conversa sobre Jazz com Sérgio Gouveia:

 

Sérgio Gouveia: «Gosto de quem pára como suponho que te tenha acontecido, algures pelo jazz modal, fins dos 50, por aí. Posso estar enganado e talvez, como o JPC gosta de dizer, nem tenhas passado de 39 e do bebop, mas não me pareceu. É normalmente por onde eu ando. Entre o Coleman Hawkins quando 'inventou' o saxofone, e pelos últimos discos ainda modais do Coltrane. Digamos que gostava de ter ouvido rádio entre 1930 e 1960.»

 

 

Eu (a.k.a. bestazinha): «Ouço cada CD até à insanidade. Já recebi queixas por os deixar a tocar semanas e semanas a fio no carro. Digo-lhe: basta-me menos de uma dezena de discos por ano. Ouço sempre o mesmo e quase só Jazz. E ao ritmo a que eu os ouço devo demorar uma década a ouvir cada década.»

 

 

Sérgio Gouveia: «Uma vez lá é mesmo difícil perceber como ouvir outro género qualquer. Torna-se chato. O que é que vai substituir o balanço, e o offbeat, aquela coisa tão orgânica? Embora acabe sempre nos mesmos discos, e às vezes temas, comigo foi um pouco diferente. Quis sempre ter tudo. Tudo do Miles Davis, tudo do Ellington, tudo do Charlie Parker e do Gillespie, e chegava a ter, por vezes. Mas o que ouvia e ouço acaba por se limitar ao mesmo de há anos atrás.

A certa altura achei que devia combater a minha falta de talento e ir para a escola do Hot Clube, aprender contrabaixo. Isto não é nenhuma falsa modéstia, é mesmo um ouvido muito mau, dedos pouco ágeis e coordenação motora sofrível. Ainda assim descobri exactamente o que tinha esperança ser verdade: é possível com muitas horas de trabalho um cepo tornar-se um músico medíocre e saber mais ou menos o que está a fazer. Lamentavelmente  já eu tinha um emprego chato e uma licenciatura tirada igualmente sem grande razão. Isto foi com 28 anos. Agora tenho 32, desisti no fim do segundo porque já não tinha dinheiro para pagar aquilo. Mas valeu pelo que de lá tirei e descobrir que por mais que eu acredite que o jazz se aprende nas caves, num palco, também é possível ensiná-lo de alguma forma em salas de aula.

O mais comovente eram as aulas de História com o Bernardo Moreira, um fundador do Hot Clube com uns 70 e poucos anos e que viu os discos a serem lançados. Insultava-me bastante, sempre com razão. A certa altura divagava o homem por harmonias diatónicas e de como uma melodia em tom menor poderia estar encaixada numa harmonia em tom maior (estou a inventar) e pergunta-me 'acha isto possível?', ao que respondi que sim e o homem grita-me que eu acho que sim porque sou um crédulo, mas que não faço ideia se acho ou não que sim. E voltou a dizer com segurança "Crédulo!". Sempre que me insultava, no entanto, emprestava-me um ou dois discos no fim, para me explicar o que queria dizer. Aliás o que este homem passava para fazer os miudos ouvirem os discos. Quase todos eles tinham menos de 20 anos e 85% naquele ano estavam a aprender guitarra o que enfurecia naturalmente o Bernardo Moreira (que chegava a oferecer metade da propina - 850 € por semestre - a quem mudasse para trombone. Oferecia a propina e um trombone!).

A juntar a isto tinha as histórias do hot clube. Diz ele que foi tocar contrabaixo porque era mau musico e porque ninguem ia para contrabaixo, o que lhe serviu para tocar com toda a gente, e ser necessário em toda a parte. Ou que nos anos 40 o Hot era apenas um sítio onde os gajos se juntavam a ouvir discos. Ouviram tantas vezes os mesmos que quando alguem trazia algo novo faziam blindfold tests, adivinhando cada um dos músicos de um tema de ouvido. Segundo ele havia um tipo que identificava o estúdio onde foi gravado o álbum porque sabia distinguir entre pianos (e na altura cada estúdio tinha um piano apenas). Claro que nunca me interessou saber se alguma destas histórias era ou não verdade. Ou ainda como o Villas-Boas, que trabalhava no aeroporto, verificava as listas de passageiros de todos os vôos de Nova Iorque para Paris que faziam aqui escala por uma noite e caso encontrasse um nome que conhecesse convencia-o a vir ao Hot tocar. E se não estivesse lá tinha dado instruções a todos os colegas para o caso de algum preto lhes perguntar onde se podia fazer uma jam em Lisboa. Conseguiu assim ter a tocar em jam sessions com eles o Dexter Gordon, o Horace Silver e outros de quem os nomes esqueço sempre. Se andares por estes lados a uma terça-feira não deixes de ir lá. Às vezes tem-se sorte.»



publicado por Tiago Galvão
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O BE e a life of Brian

Parece que Napoleão Bonaparte preferia generais com sorte a bons generais. Sócrates é o melhor exemplo disso. Não bastava ter uma oposição inexistente à direita que entre comentários infelizes sobre cancros, rezas para que a situação económica se deteriore e análises psicológicas profundas acerca do poder dos blogs e dos secretários de Estado, vai mostrando que a estratégia do populismo silencioso está condenada ao fracasso, vem agora o BE mostrar – se mais provas fossem necessárias - que não é uma força política que se possa levar a sério.

O episódio Sá Fernandes vem, mais uma vez, lembrar que o BE apenas conhece a lógica do protesto pelo protesto e que não está minimamente interessado em colaborar em qualquer proposta de governação seja ela qual for. No fundo, o BE é uma espécie de partido anarquista de terceira geração: “há poder? Somos contra”.

O BE parecia ter uma proposta diferente, que iria arriscar o poder, que iria testar as suas propostas, afinal é apenas mais conjunto de rapazes com saudades do PREC e que, pelos vistos, nada aprenderam com ele.  



publicado por Pedro Marques Lopes
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O "portátil português"

Publicidade enganosa. Por Pedro Sales.

Acerca do Magalhães e da fábrica da Intel (4). Por Luís Lavoura.
O Magalhão, lhinho…lhoco… Por Afonso Azevedo Neves.

Acéfalos. Por Gabriel Silva.

Portugal to sell 500,000 of Intel's Classmate PCs



publicado por André Azevedo Alves
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A malta da atalaia devia deixar crescer a barba como o outro

A Colômbia lançou um vasto plano de caça a elementos das FARC na Europa.

Público, hoje.



publicado por Bernardo Pires de Lima
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Para o Bernardino Pyongyang ler nas férias

A Nuclearização da Coreia do Norte: da Sustentabilidade do Regime à Ameaça de Proliferação.

 

Autores: dois perigosos imperialistas!



publicado por Bernardo Pires de Lima
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Mistério no restaurante

 

- Então o que temos para hoje
- Não posso dizer
- Pode ser uma dose para mim, então, adoro secretos de porco preto.
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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Insultos de restaurante

  

- Um café, por favor. Que marca usam?
- Camelo.
 
- Desculpe, a carne é...
- Porco preto alentejano.
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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Estou aqui estou a voltar para a Sicília

Sei bem quem mereceria maioria absoluta nas próximas eleições caso o Parlamento português valesse alguma coisa na altura de avaliar a política nacional. Mas também sei porque é que isso não acontece. Aliás, todos sabemos. E é exactamente por sabermos que por algumas ovelhas negras biscateiras sem o mínimo de capacidade de trabalho nem dois neurónios, muitos outros acabam por pagar, o que só obriga a ter mais imaginação política.

A questão já não é de opção entre uma coisa e outra, entre trabalho político parlamentar e fora do Parlamento. É de necessidade. É de viragem (não confundir com aquele anúncio publicitário do change). Viragem na estratégia. Viragem da micro causa para a macro causa. Promover mais do que um fórum de ideias, de políticas comparadas, de soluções de reserva, de três ou quatro caras novas, sobretudo que não dependam da política e que tenham algumas provas dadas na vida profissional.

Saber regressar pressupõe saber estar num tempo diferente. Necessariamente mais difícil, mas nem por isso menos aliciante. E é porque a pressa é inimiga da perfeição, mesmo que ela felizmente não exista em política, que é necessário e vital que se desenhe um projecto de médio prazo. Um projecto político digno desse nome.



publicado por Bernardo Pires de Lima
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Sugestão para hoje

"(...) o Messias está em cada um de nós e não num salvador supremo".

 

Abrir a penúltima página do Público e ler o artigo de Esther Mucznik.

 

 



publicado por André Abrantes Amaral
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Construir Ideias

Pedro Passos Coelho anunciou ontem a criação da Plataforma de Reflexão Estratégica "Construir Ideias". É uma boa ideia. Quem conhece o PSD por dentro sabe que o partido tem tido dificuldade em mobilizar a inteligência colectiva que o compõe através da sua estrutura. Pior: sabe que o partido tem tido dificuldade em servir-se das ligações à sociedade civil e à sua base de apoio para alimentar a sua reflexão. As vitórias futuras passam por reverter esta situação: ninguém duvida disso. E para o conseguir, todos os esforços são poucos. A direcção nacional faz os seus, e tem-los feito bem feitos. Mas nenhum militante está dispensado de fazer o que pode para ajudar o PSD na esfera de acção que lhe pertence.

 

 

 

Enquanto candidato à liderança do PSD, Pedro Passos Coelho conseguiu mobilizar um considerável capital de esperança e de vontade de colaborar, dentro e fora do Partido. Agora, a sua obrigação de militante é colocar esse capital político ao serviço do PSD, somando o seu esforço ao esforço da líder eleita. Ao constituir uma Plataforma de Reflexão Estratégica que possa habilitar o PSD a fazer opções políticas mais debatidas e fundamentadas, Passos Coelho provou que não enjeita essa responsabilidade. Saiba o PSD aproveitar os frutos desta iniciativa.



publicado por Vasco Campilho
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Óbvio

  

O meio de transporte preferido de um drogado é a charrete.
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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Adeus, Boss

 

[...]  vi e ouvi um debochado a cantar o apocalipse judaico-cristão. Ao criar uma atmosfera teológica com três madames de cabaré ao seu lado, Leonard Cohen oferece uma mistura única. [...] E esta tensão é deliciosa: sabe tão bem gritar um 'Halleluiah' e sussurrar um "anal sex" no mesmo concerto.

 



publicado por Henrique Raposo
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Preciso de emagrecer
 
Não sei é se no meu caso será mais apropriada a Corporación Dermoestética ou O Rei dos Pneus.
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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Predestinado

 

Jack o Estripador estava talhado para aquilo.
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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Ouriquense

Parto para o Alentejo na sexta. Já fiz as malas, escolhi os livros (Murphy do Beckett, The Crying of Lot 49 do Pynchon, um par de contos do J. D. Salinger e literatura reaça com Peace Kills do P. J. O´Rourke), vi o último filme antes do exílio (O Meu Irmão é Filho Único), já me despedi da namorada e dos avós, contei os trocos para uma A Bola e dois cafés por dia, só falta mesmo deixar aqui a recomendação de um blog esquerdalha, ateu, mas meu amigo: Ouriquense.



publicado por Tiago Galvão
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Quarta-feira, 30 de Julho de 2008
Livros "Atlântico" 45, Para um Europeísmo Conservador

http://ecx.images-amazon.com/images/I/51R7DKF21EL._SL500_BO2,204,203,200_PIsitb-dp-500-arrow,TopRight,45,-64_OU02_AA240_SH20_.jpg

 

 

Alfarrabista, Atlântico n.º 27 (Junho 2007)

 

 

[...] A.J.P. Taylor é o antídoto perfeito contra a amnésia histórica vigente na Europa.

A ortodoxia europeísta encurtou a História. Bruxelas decretou que 1957 (tratado de Roma) é o ano zero. O que está antes de 1957 é assunto tabu. Ora, este bloqueio em relação ao passado esconde alguns factos considerados inconvenientes pelos europeístas. Um desses factos é o seguinte: em 1918, «a Europa deixou de ser o centro do mundo» (p. 568). Com a entrada decisiva dos EUA na I Guerra Mundial, os europeus deixaram de ser auto-suficientes – no sentido político - e o seu destino passou a estar em mãos não-europeias. A Europa, outrora o centro do mundo, «passou a ser meramente a “questão europeia”» (p. xxxvi), ao lado da “questão do médio oriente” e da “questão do extremo oriente”. A luta pela supremacia na Europa entre os cinco grandes europeus (Reino Unido, França, Prússia/Alemanha, Rússia e Áustria), aqui descrita por Taylor, acabou por ditar o esgotamento das potências europeias e a emergência de um mundo pós-europeu. Hoje, quase um século depois de 1918, os europeus ainda têm dificuldade em aceitar este facto. Mas o pior é que a amnésia histórica, projectada pelos ideólogos dos Estados Unidos da Europa, impede que os cidadãos europeus percebam a verdadeira grandeza da Europa de hoje.

 

Quando estuda o século XIX, o europeu de 2007 constata que, afinal, é um felizardo. Na Europa de The Struggle for the Mastery in Europe, o segredo era o ponto dominante. A «guerra de gabinete» (p. 170), decidida somente nos corredores da diplomacia, sem consideração pela opinião pública, era uma marca deste estranho mundo. A Europa, entre 1848 e 1918, era um mundo do segredo e para o segredo. Este livro é, no fundo, uma descodificação desse enredo sigiloso. Essa cultura do secretismo, dominante entre políticos, criava a tensão entre estados. Por exemplo, entre 1909 e 1911, ingleses e alemães encetaram negociações no sentido de controlar a corrida naval, mas o «único resultado foi o aumento da suspeição nos dois lados» (p. 461). Entre França e Reino Unido, «a suspeição» (p. 405) era a marca dominante. Neste ambiente de equilíbrio de poder, era impossível conhecer as reais intenções do campo oposto. As fronteiras eram mesmo paredes opacas que ocultavam os planos dos estados. Confiar num estado vizinho era sempre, mas sempre, um passo no desconhecido. A suspeição era a moeda de troca política.

 

Taylor afirma, e bem, que a paz europeia do século XIX foi mantida devido ao equilíbrio de poder. Taylor critica, e bem, aqueles que vêem no equilíbrio de poder a causa da I Guerra. A Guerra de 1914-1918 estalou porque, precisamente, o equilíbrio de poder deixou de ser respeitado (p. 528). Os ingleses, convencidos da sua superioridade naval, desprezaram a lógica do equilíbrio de poder («splendid isolation», p. 382); os alemães, após 1905, quiseram substituir o balance of power por uma hegemonia alemã. A tese de Taylor está certa. O problema é que Taylor estica demasiado a corda, dando a entender que apenas o equilíbrio de poder garante a paz entre estados.

Este livro é de 1954. Ainda não existia integração europeia. A NATO dava ainda os primeiros passos. Portanto, Taylor desconhecia os efeitos de uma nova organização da política europeia. Nós, em 2007, sabendo o que se passou entre 1954 e a actualidade, temos o dever de dizer que o equilíbrio de poder não é uma lei imutável da política. Existem outras formas menos instáveis de manter a ordem entre estados. A anarquia pode ser domesticada por uma ordem liberal assente em regras positivas que advêm da partilha de regras e valores por repúblicas kantianas (o equilíbrio de poder baseava-se apenas numa regra negativa: a inviolabilidade da esfera de influência de um Grande Poder).

 

Na Europa oitocentista do equilíbrio de poder, tudo era incerto. As alianças eram apenas temporárias coligações de vontade criadas contra ameaças conjunturais. Nada era estável. A «única relação estável na Europa era a solidariedade entre a Rússia e a Prússia contra a Polónia. E mesmo esta tinha um carácter negativo» (p. 142). Não havia previsibilidade. Ora, a persistência das kantianas NATO e UE representa a negação desse passado instável e a consumação de um novo tipo de ordem internacional. Sim, é impossível abolir a anarquia entre estados. Sim, as relações entre estados serão sempre marcadas por algum grau de secretismo. Todavia, é possível diminuir a presença do segredo e da anarquia. Aquilo a que chamamos Ocidente (NATO e EU) é isso mesmo: um grau de confiança e previsibilidade sem precedentes na História.

Na esperança de criar um futuro federal e celestial, a ortodoxia europeísta prefere esquecer o passado europeu. Nós, europeístas um pouco mais modestos, preferimos recordar esse passado pré-1957. Porque só assim podemos usufruir da Europa que já construímos. A Europa de hoje discute o pão com manteiga da PAC. Coisa chata? Sim. Mas há um século, os excitadíssimos europeus discutiam as dimensões dos couraçados. A Europa de hoje é chata, mas é uma utopia quando comparada com a Europa do século XIX. Essa Europa era excitante, mas era também perigosa e imprevisível. A política quer-se chata. Para que tenhamos tempo para o essencial.

[...]



publicado por Henrique Raposo
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Livros "Atlântico" 44, Não Há fim de História

http://www.livrariaminho.pt/imgLivros/105376.jpg

 

 

Atlântico n.º 27 (Junho 2007)

 

Será o capitalismo moral? Para responder a este dilema, o filósofo francês Comte-Sponville (n.1952) começa por enumerar três ordens/categorias distintas: (1) a ordem tecnocientífica, (2) a ordem jurídico-política e (3) a ordem da moral. A ordem tecnocientífica, a ordem da economia, lida com o que é cientificamente possível. É uma ordem não-moral, logo, incapaz de se limitar a si própria. Há que limitá-la a partir do exterior. Como? Através da ordem jurídico-política, a legalidade. Porém, a legalidade política não é sinónima de legitimidade moral. Uma lei pode ser imoral. Entra aqui a terceira ordem, a moral: já não estamos no campo da possibilidade material ou da legalidade positiva, mas sim no campo da legitimidade. A moral é o «limite negativo» (p. 54) que ninguém pode pisar.

Posto isto, Sponville afirma que o capitalismo não é moral nem imoral. É amoral, como qualquer actividade da ordem tecnocientífica. É isto negativo? Não, diz-nos Sponville. O capitalismo é o melhor sistema económico. Ponto. E é só isso. Ao contrário do marxismo, o capitalismo é só uma praxis económica e não um projecto de redenção da sociedade. O erro do marxismo «foi pretender submeter a economia à moral» (p. 74). Os marxistas tentaram abolir o abismo que separa a moral da economia. Resultado: o marxismo abriu portas a um «humanismo criminoso» (p. 96).

 

 

Tendo em conta esta linha de raciocínio, Sponville critica a forma como muita gente anda a tentar construir uma moral baseada no sucesso do capitalismo. Alguns anarco-capitalistas (já não são liberais) tentam fundir a moralidade com a economia, tal como fizeram os marxistas. Nesta visão, quem abre as portas ao capitalismo é automaticamente benigno, mesmo quando estamos a falar de ditadores (muitos desculpam Pinochet da mesma forma que a esquerda desculpa Fidel Castro). Estes anarco-capitalistas partilham uma obsessão com os marxistas do passado: a revolta contra a Política. Acham que encontraram o fim de história, a era pós-política onde uma poção mágica que unifica economia e moral põe termo aos conflitos e tensões entre homens.

 

Sponville vem recordar que não há saída para a condição trágica da história. Trágica no sentido da negação da Dialéctica, isto é, não há «nenhuma síntese plenamente satisfatória», não existe uma «reconciliação definitiva e total» (p.117). Não houve fim de história marxista. Não há fim de história capitalista. É impossível fundir economia e moral. São dois campos distintos em permanente tensão. É por isso que precisamos da Política, a plataforma de diálogo entre a possibilidade económica e a legitimidade moral.



publicado por Henrique Raposo
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Breves

1. Gostei muito de ver o sr. Sócrates a adoptar a postura Steve Jobs. Relaxado, passeava pelo palco com os cartões na mão, a anunciar com grande pompa o novo produto. Não do Governo, claro, mas de uma empresa privada. Para quando um anúnciozinho do Pingo Doce? O do polvo sem aditivos ficava-lhe a matar.

 

2. Não há ninguém que explique a diferença entre Tribunal Penal Internacional e Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia a jornalistas, Fernandos Rosas e afins? Dizer que o Karadzic não vai ser condenado pela ausência (!!!) dos EUA e Rússia revela bem mais que ignorância. O Google ajuda.



publicado por Ana Margarida Craveiro
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Livros "Atlântico" 43, 1914-1918

 

Atlântico n.º27 (Junho 2007)

 

É um hábito: olhamos para a II Guerra Mundial, e desprezamos a I Guerra. A II Guerra está sempre na linha de fogo do nosso olhar. A cultura ocidental produz uma constante barragem de livros e filmes sobre o período 1939-45. As trincheiras ideológicas da Guerra-Fria (que ainda são as nossas) olham para 1945 como um momento fundador. Em consequência, esquecemos a I Guerra. Mas, caro leitor, repare em algumas das expressões que acabámos de utilizar: barragem, trincheiras, linha de fogo. Como salienta Sir Martin Gilbert, estas expressões, que ainda usamos diariamente, são o resultado da influência invisível da I Guerra Mundial na psique europeia: as «imagens e os ecos da Primeira Guerra Mundial continuam presentes na consciência pública» (p. 796). A ocorrência posterior da II Guerra e do Holocausto ofuscou o impacto de 1914-1918. Mas esse impacto foi fortíssimo. A brutalidade da guerra das trincheiras (aliados: 5 milhões de soldados mortos; potências centrais: 3.5 milhões de baixas) ainda sobrevive na memória europeia. Em 1984, a França e a Alemanha escolheram a I Guerra, e não a II Guerra, como palco da sua reconciliação: Kohl e Mitterrand deram as mãos num dos campos de batalha marcantes da I Guerra (Verdun).

 

[...]

 

A grande riqueza de A Primeira Guerra é a forma como Gilbert integra o indivíduo/soldado no quadro estratégico global. Temos a perspectiva do general e do soldado. Acompanhamos as grandes movimentações no mapa, mas também respiramos o ar pestilento da trincheira.

 

[...]

 

Todavia, por longos períodos, este esforço descritivo transforma o livro num relato demasiado seco. Gilbert empilha factos numa prosa sem um fio condutor claro. Não raras vezes, sentimo-nos perdidos no meio de tantos mortos, batalhas e decisões tácticas. Gilbert é um capitão ausente: não escolheu um rumo para o seu livro; deixa o barco à deriva num mar de descrições. O historiador tem de saber cortar o supérfluo. Gilbert, neste livro, não foi particularmente acutilante nesse ponto. A intenção era louvável: respeitar a memória dos homens que morreram na I Guerra. Só que as boas intenções ainda não fazem bons livros.

 

[...]

Em todo o caso, estamos obviamente na presença de um livro interessante.



publicado por Henrique Raposo
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Yes, Sir

 

O nobre mais porco da Cantuária é o Sir Geta.
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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Livros "Atlântico" 42, e elite europeia tem as lentes erradas

 

 

Atlântico n.º27 (Junho 2007)

 

O medo em relação ao exterior é a marca da Europa. Guy Verhofstadt, Primeiro-ministro belga, reconhece isso: o «medo do ‘canalizador polaco’» e o «medo das economias do Sudeste Asiático» (p. 13) dominam os europeus. O problema é que este medo é acompanhado por uma incompreensão do mundo. A elite europeísta não percepciona a actual política internacional porque, simplesmente, não raciocina em termos políticos. Verhofstadt, por exemplo, vê a política através de lentes económicas e geográficas.

 

Este cavalheiro belga encara a Ásia como um bloco económico uno que ameaça a Europa. Vários actores políticos (China, Índia, Japão) são, assim, colocados no mesmo saco. Verhofstadt não percebe que não existe Ásia, mas sim diversos estados asiáticos, com diferentes regimes políticos. A par do determinismo económico, existe o determinismo geográfico. A elite europeísta está sempre a falar da necessidade de sofisticação ao nível do diálogo, multilateralismo, etc. Porém, quando analisa o mundo não-europeu, esta elite acaba sempre por revelar a visão menos sofisticada possível, isto é, reduz a política à geografia. Verhofstadt vê o mundo nestes termos: continente europeu vs. continente asiático vs. continente americano. O continente (geografia) é elevado à condição de actor (política). O mundo, quando observado por esta lente europeia, é um sítio onde os homens são determinados por estruturas económicas e limites geográficos; não há política, não há vontade dos estados. E, claro, o cavalheiro belga instiga a Europa a agrupar-se para fazer frente aos «outros continentes»; somente os «Estados Unidos da Europa», diz-nos o autor, podem proteger e projectar os europeus. Naturalmente, a realidade discorda desta visão. A política internacional, no século XXI, não se divide por linhas geográficas ou por meros blocos geográficos/económicos. As alianças entre estados saltam por cima das contingências geográficas. Ao usar apenas a economia e a geografia, Verhofstadt, por exemplo, separa os EUA (continente americano) do Japão e da Índia (continente asiático). Erro crasso. É que através da política bilateral (variável desconhecida por Verhofstadt), os EUA estão interligados com o Japão e começam a interligar-se com a Índia. As democracias tendem a aliar-se, apesar da distância geográfica.

 

Este livro procurava ser uma revitalização da Europa depois do fracasso de 2005 (não francês). Acaba por ser a demonstração da incapacidade analítica europeia. Na Europa, não se pensa em termos políticos (estados, regimes políticos, alianças). Qualquer problema é pequeno quando comparado com esta incapacidade... epistemológica.



publicado por Henrique Raposo
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Mentirosos
 
Porque é que me dão falsas esperanças dizendo que é o último grito da moda se depois voltam sempre?
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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A gula

 

A coisa está a aquecer em Inglaterra. Como alguém sabiamente dizia, that's politics, stupid!Jack Straw quer. Miliband também. Geoff Hoon, que supostamente controla as "distritais" - uma espécie de Agostinho Branquinho, mas a sério - anda atarefado a ver as hipóteses de Straw, o ministro dos estrangeiros de Blair, mas muito ligado à intervenção no Iraque. Miliband, actual titular da mesma pasta, já se posicionou, instigando o partido a definir uma liderança. É da mesma geração de David Cameron e entra bem no eleitorado de centro. Ou muito me engano ou Gordon Brown não chega sequer à convenção de Setembro dos trabalhistas. Em último caso, passará o testemunho nessa altura. Tudo isto para concluir, sabiamente, que foi um erro de casting. Que devia ter regressado à universidade. Que a gula é um dos pecados mortais. Na política, sobretudo.



publicado por Bernardo Pires de Lima
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Precoces

  

Há artistas que comparando a idade declarada com os anos de carreira comemorados, dir-se-ia que começaram a cantar no útero.
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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Este é uma droga
 
Diz que a Covilhã anda a dar na Gouveia.
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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Explicação
 
Porque é que há tantos anónimos a comentar nos blogs?
 
Porque anoni-mato.
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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O PSD deve governar sozinho?

O PSD deveria governar sozinho. Por Bruno Alves.

 

O melhor que Ferreira Leite poderá fazer será aquilo que aqui escrevi o mês passado: anunciar, logo à partida, que não se coligará com ninguém. E se não obtiver uma maioria absoluta, seguir o exemplo de Cavaco em 1985, governando em minoria e encostando CDS e PS à parede: forçar o CDS a ter de escolher entre viabilizar um governo do PSD sem daí extrair qualquer benefício, ou ser responsabilizado pela entrega do poder à “esquerda”; e obrigar o PS a ter de escolher entre viabilizar as políticas de Ferreira Leite (e enfurecer o seu eleitorado tradicional), ou ser rotulado por ela como um partido avesso a qualquer mudança e disposto a sacrificar o país em prol dos “privilégios” dos seus dependentes (afastando assim os eleitores flutuantes que decidem eleições).



publicado por André Azevedo Alves
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Control. Ian Curtis. Sertralina.

Acabei de ver Control, de Anton Corbijn, um filme sobre a queda em ascensão de Ian Curtis vocalista dos Joy Division.

 

 

Nota Biográfica:

 

Não nasci prematuro, não passei fome, não fui violado por um tio. Tive infância normal, adolescência normal, em família normal. Até um dia. Em que cheguei a casa, me sentei no chão, encostei à parede e bloqueei. Literalmente, o meu corpo parou. A minha mente deixou de reagir. Primeiro, horas. Depois, dias, meses, até me ser diagnosticada uma depressão dois anos mais tarde. Foi a 17 de Maio de 2003. Sei isto porque a partir desse dia deixei de apontar o que quer que fosse nos cadernos. Deixei de sair. Deixei de praticar desporto. De jogar computador. Namorar. Ir ao cinema. Ver filmes. Ouvir música. Pensar em mamas. Ler. Escrever. Não acordava de manhã porque simplesmente não dormia. Mas quando me levantava, se me levantava, a rotina era rigorosamente esta, a definição precisa de não fazer absolutamente nada: sentava-me numa cadeira e olhava. Para a parede. Sem que nenhuma ideia me passasse pela cabeça. Não posso dizer que estivesse triste porque não estava. Não tinha era vontade de nada. Para além da respirar, comer e mictar, possuía a alegria de viver do estanho. Não tentei o suicídio porque não me apetecia. Era chato. Só conservava uma característica humana: tratar mal as pessoas que gostavam de mim. O que não foi grave porque também não eram muitas. Mas eram algumas e sofreram bastante. Em Junho e Julho (2003) era suposto fazer os exames para entrar na universidade. Fiz. Por azar, entrei. Em Lisboa. Que é mais pormenor maquiavélico menos detalhe de Dante a minha ideia de inferno. Nesse verão, comecei a tirar a carta. Foi o melhor que me podia ter acontecido, até porque nem sequer fiz o código. Chegado a Lisboa, um dia antes do início das aulas, parti os óculos. Por sorte, o meu pai conseguiu arranjá-los. Ainda bem, porque assim, não só fui gozado pelo meu sotaque, enquanto era brutalizado na praxe, como pelo enorme pedaço de soldadura que ostentava por baixo de um insulto escrito com batom na minha própria testa. Com a minha integração praticamente assegurada, bastou-me não pôr lá mais os pés durante três meses para o primeiro semestre correr bem. A parte boa foi que não fiz as cadeiras todas. Assim, deixaram-me voltar para casa. Pena, pena, foi as coisas terem começado a correr bem. Mesmo bem. Tirei a carta, repeti os exames, entrei numa universidade perto de casa, voltei a ler, a escrever, a estudar, a ler demais, a escrever demais, a estudar demais. A querer demais. Estava infelizmente eufórico. Sofria de excesso de felicidade. Não me bastava ser muito bom. Tinha de ser excelente. Viver até à exaustão. E foi o que fiz. Até acordar um dia com tonturas (Março, 2005). Às tonturas, juntou-se um zumbido constante nos ouvidos. Ao zumbido, dores de cabeça insuportáveis. Era cansaço. Parei uma semana e as tonturas continuaram. Não era um cansaço qualquer. Era, como em Setembro desse ano finalmente me foi diagnosticado, depois de um exército de médicos (de otorrinos a neurologistas), com uma artilharia de testes, análises e exames à cabeça (incluindo uma ressonância), um esgotamento. Tratamento: anti-depressivos. Primeiro, injecção de felicidade: Sertralina, um ano, 50 mg por dia. O problema da Sertralina, a maconha para intelectuais, não é tanto as rugas de 24 horas sobre 24 horas de sorriso burro. É a «moca» que dá, como apanhar um tiro no céu-da-boca e sobreviver. Em Setembro de 2006, estava oficialmente curado. Em Fevereiro de 2007, estava realmente na mesma. Voltei aos anti-depressivos. Desta vez, à sulpiride. Não dá moca, mas também não dá nada. Vomitava 3, 4, 5 vezes por dia, todos os dias. Passava os meus dias em casas de banho. Se não era para vomitar, para dormir. Se não era para dormir, para chorar. Se não era para chorar, para não estar noutro sítio qualquer. Em Julho desse ano, depois de encontrar o Santo Graal da infelicidade, mudei-me para a Paroxetina. Até hoje.

 

Sexo e antidepressivos

 

Com os antidepressivos, existe o mito da impotência e daí vem um problema: é que não é um mito. Felizmente, dá para disfarçar. Não somos desprovidos de erecções, só de orgasmos. Custa-nos a vir, portanto é só fingi-lo. E como não há afrodisíaco como a frustração, também não há orgasmos como o do deprimido. Além do mais, somos os melhores na cama. A falta de auto-estima de uns é o tesão de outros.

 

Relações

 

Deprimido tem afinidade para deprimido. Na paixão, na amizade, no cinema, na música ou nos livros. Teoricamente, deprimido compreende deprimido. Na prática, deprimido com deprimido dá uma depressão ainda maior. Conforme me aconselhou o meu amigo Vasco Barreto, ninguém foge à depressão lendo o blog do Pedro Mexia.

 

Adolescência

 

À puberdade, actualmente, passam-se antidepressivos a rodos. Um conselho: vão ao médico com o vosso filho, ouçam com muita atenção tudo o que o senhor tem a dizer e façam exactamente o contrário. Se ele anda triste, chora em posição fetal e não sai de casa, os antidepressivos ajudam, mas um excerto de porrada, aos animais que o sodomizam a «brincar» diariamente, ajuda muito mais. Se depois de removerem os molares dos coleguinhas ao biqueiro, os sintomas continuarem, comparticipem a sua iniciação sexual em estabelecimento para o efeito, que o problema é «gaja».

 

Velhice

 

Um estudo recente sobre a felicidade, diz que esta descreve uma curva em U ao longo da vida. Passamos uma infância feliz, vamos ficando cada vez mais miseráveis até à crise de meia-idade, e felizes como uma criança enquanto caminhamos para velhos. A razão é simples: quanto mais velhos somos, menos temos a perder. E quanto menos conquistarmos ao longo da vida, mais feliz será a nossa velhice. Contudo, isto é o que penso sobre os velhos: deprimidos ou não, injectem-lhes doses tiranossauricas de sertralina que mesmo que não os mate de felicidade prozac, põe-nos de certeza a dormir.

 

Depressão e descompressão

 

Sintomas de depressão: Cansaço, medo, isolamento, falta de concentração. Sintomas de descompressão: Cansaço, medo, isolamento, falta de concentração. Com uma diferença: enquanto o deprimido tem falta de amor-próprio, um indivíduo que esteja a descomprimir de um longo período de stress tem a mesma sensação nos ouvidos de alguém que tenha acabado de dar um mergulho de 100 metros ou ouvido uma música do Pedro Abrunhosa. Portanto, antes de arrotar com 75 euros no médico, mais 30 nos anti-depressivos, feche a boca, tape o nariz e bufe.

 

Bipolaridade

 

Há dois tipos de depressão: unipolar e bipolar. A primeira é caracterizada por irritabilidade, insónias, perda de peso e falta de interesse por tudo. Dura alguns meses e afecta 20% dos indivíduos. A segunda é mais rara e de longe a mais interessante, caracterizada por períodos de euforia intensa seguidos de depressão severa. Nunca passa e normalmente resulta em suicídio. No The Secret Life of the Manic Depressive, Stephen Fry conversou com uma série de gente que sofria da doença. À pergunta, «trocaria os momentos de euforia por uma vida normal?», todos, sem excepção, incluindo o próprio, responderam não. Não se deixem enganar, o estigma é grande e a depressão acaba connosco, mas quando estamos bem, estamos mesmo muito bem.

 

 

Vou para o Alentejo. Até depois.



publicado por Tiago Galvão
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Terça-feira, 29 de Julho de 2008
Diferenças irreconciliáveis

 

Quais jamaicanos, quais quê. Eu quero este senhor no pódio para o ouro. E sem vento, para mostrar que a marca dos 100 m lhe pertence de pleno direito. (Este homem não corre, voa.)



publicado por Ana Margarida Craveiro
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Deus, o outro

O star Tracker é uma espécie de Hi5 para adultos.



publicado por Henrique Raposo
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Com um brilhozinho nos olhos

Henrique,

 

regresso à nossa conversa - que se mais virtudes não tivesse, já me valeria pelo menos ter sido referido nominalmente pelo maradona, uma autêntica medalha blogosférica no que me diz respeito - para te dizer que estou feliz. É que sempre me senti muito isolado na minha intuição sobre o potencial reaccionário de Foucault. Das poucas vezes que partilhei esta intuição, senti uma incompreensão só comparável à que encontro quando confesso que "vi" e gostei da "Branca de Neve" do João César Monteiro. Por isso, quando leio a tua asserção "Foucault é um reaccionário vitalista da cabeça aos pés" sinto-me um pouco como o Sérgio Godinho quando andava com um brilhozinho nos olhos: é que hoje fiz um amigo, e coisa mais preciosa no mundo não há.

 

Claro que amigo não empata amigo, e por isso não temos que estar de acordo em tudo. Ressalvando sempre que as minhas leituras de Foucault são parcelares e longínquas, não me parece que a noção de bio-poder - ou mesmo a leitura foucaldiana do poder em geral - seja assimilável a um holismo de tipo durkheimiano, por exemplo. Mas isto pode ficar para outra ocasião.

 

Compreendo que a metáfora dos carreirinhos não remetia para outra coisa senão uma leitura institucional do poder - mais precisamente para a necessidade de ordenar o uso do poder político através de instituições bem desenhadas. Estou, aliás, a 100% contigo nessa luta. Mas não me parece que o institucionalismo - quer o tomemos como ponto de partida analítico ou como orientação normativa - implique uma visão reificada do poder.

 

Eu, pelo menos, sinto-me confortável na defesa de um poder político limitado constitucionalmente, justamente porque concebo o poder não como um dispositivo que se activa ou desactiva, mas como uma relação, ou um conjunto de relações, que é inerente à própria vida social e se expande com ela. Quando te vejo dizer que "dê por onde der, aquele que tem poder vai usá-lo", ou "não podemos paralisar a natureza indomável do poder", fico com a sensação que estamos de acordo neste ponto.

 

Quanto ao bio-poder, vejo-o não como um tipo diferente de poder, mas como uma via de expansão do poder. Uma via de expansão que tem vindo a ser trilhada desde há muito tempo. E que explica bem não apenas a paranóia actual com a saúde e com o terrorismo, mas igualmente o desenvolvimento do Estado Social no século XX; ou a renitência contemporânea em aceitar baixas em conflitos armados; ou a crescente importância da capacidade económica dos Estados na hierarquia do poder internacional e a correlativa desqualificação do potencial militar nessa mesma hierarquia.

 

Por isso, sim, é um conceito interessante. E tenciono continuar a explorá-lo. Até porque a expansão do poder deve ser sempre muito bem vigiada. A seu tempo darei notícias das minhas explorações...

 

Abraço,



publicado por Vasco Campilho
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Bomba

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C. Raja Mohan

 

 

 

Livro essencial para a compreensão da política internacional entre os grandes poderes, isto é, entre os EUA e os sacanas dos asiáticos que estão armados em parvos e a retirar importância aos europeus. Uns chatos, estes asiáticos.



publicado por Henrique Raposo
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O taxista institucional que há em mim, II

 

Caro Luís Naves,

 

Se calhar, eu não me fiz entender.

 

Quando digo que há “partidos por todo o lado” não me refiro ao número/quantidade de partidos, mas ao poder que os partidos portugueses têm sobre todo o sistema político e até sobre a sociedade (lembro-me de amigo crítico dizer que era preciso cartão de partido para certas coisas; muitos jornais continuam a dividir as colunas não pelo mérito de quem escreve mas por quota partidária; o que fazem Vitorino e Marcelo na RTP?, etc. etc.).

 

Mas referia-me sobretudo ao sistema político. E aí os partidos portugueses comem tudo e não deixam nada. E o sistema político – numa democracia liberal – não é só o parlamento e o executivo. É também toda a rede de instituições que deveriam funcionar como fiscalizadoras do poder dos partidos no governo e no parlamento: tribunal de contas, banco de Portugal, tribunal constitucional, etc. É disto que falo: os partidos não podem controlar – como controlam hoje – estes mecanismos.

 

Banco de Portugal: homem do PS à frente. Tribunal de Contas: homem do PS à frente. Repare: não estou a falar da formação de governos, de coligações. Estou a falar de algo mais importante que isso: como é que fiscalizamos o poder dessas coligações no poder, dos executivos no poder? Um exemplo: o tribunal constitucional deveria ser o mais alto elemento de fiscalização e controlo do poder político. E o que se passa no nosso TC? É uma coutada de PS e PSD. Peço desculpa, mas essa da cultura do povo não cola. É que na Suécia não existem um Rui Pereira, isto é, não existe um ex-director de uma polícia secreta, que depois passa a secretário de estado, que depois passa a juiz do Tribunal Constitucional e depois já é ministro dois meses depois de ter sido nomeado para o TC. É disto que não há na Suécia. É isto que cria a atmosfera que favorece a tal corrupção: o estado português não tem separações dentro de si; a divisão de poderes só existe no papel; quem entra no sistema pode ser o que quiser, quando quiser e como quiser – isto claro se tiver um cartão do PS ou PSD, sobretudo.

 

Repare como este comité para verificar a corrupção foi entregue a gente dos partidos. Como dizia o VPV, as meninas não reformam o bordel. Tem de haver mecanismos e instituições de controlo que não dependam dos partidos. Em Portugal, isso não existe. Partido x não pode ser apenas controlado por partido Y. Os dois têm de ser controlados por instituições que são independentes de todo o sistema de partidos.

 

um abraço,

 



publicado por Henrique Raposo
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Cínico e negro
 
Lançar o perna de pau em Angola pode não ser boa ideia...
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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Tão básico
 
O IKEA vai lançar um modelo de cama que muda de cor, a cama Leão.
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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i-lógico (não, não é da Apple)
 
Porque é que à porta batemos e à campainha só tocamos?
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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Isto é que é a silly season?
 
Depois do windsurf e kitesurf, agora as massagens na praia estão proibidas no Algarve. Decisão das autoridades turísticas? Não, de um senhor da marinha que aparentemente manda nas praias de todo o Algarve e que tem alguma, só alguma, paranóia com sexo.
 
Grupo de operações especiais cerca casa de foragido, tiroteio, afinal o foragido não tinha arma e o agente ferido levou um tiro numa nádega de um colega (não “na nádega de um colega”, “na nádega, de um colega”). Ministro da administração (?) interna louva acção da polícia.
 
Até a GALP baixou o preço dos combustíveis.
 
Isto já não é silly season, é mesmo silly country.
 
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Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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Segunda-feira, 28 de Julho de 2008
O taxista institucional que há em mim

Caro João Villalobos,

 

É. Também tenho momentos à taxista. E ainda bem. Um blog não serve apenas para falar de Foucault. Também serve para mandar um berro à taxista.

 

Um pouco mais a sério: o que critico é o excesso de partidos em Portugal. Há partidos por todo o lado. Como diz aqui o camarada Miguel Morgado, os partidos colonizaram Portugal. Colonizaram o sistema político. E "sistema partidário" não pode ser sinónimo de "sistema político". Numa democracia liberal decente, os partidos actuam no sistema político. Não são donos dele. Em Portugal, não é assim. Os partidos - sobretudo as duas meninas do meio - são donos de todo o sistema, de todas as instituições: desde o Banco de Portugal até ao Tribunal Constitucional, até às "agências" que controlam a corrupção...

E estas questões institucionais são desprezadas em Portugal. Aqui pensa-se que política é discutir o perfil pessoal dos líderes dos, claro, partidos.

 

um abraço,

 

 

 



publicado por Henrique Raposo
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A ler

Rentabilidade por decreto. Por Miguel Noronha.

Aos poucos o homem revela-se. Por Carlos Manuel Castro.

Divas da nossa política. Por Francisco Almeida Leite.

Política económica de Sócrates. Por João Miranda.

O fácil nome de racista. Por José Pacheco Pereira.



publicado por André Azevedo Alves
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Foucault e a minha avó (ò avó, desculpa)

 

Vasco,

 

- Percebo a tua linha, mas Foucault não.

 

- Muito camarada liberal e conservador acha Foucault um tonto. Não deviam. Foucault é tudo menos um tonto, e não merece ser confundido com sacos de vento como Derrida ou Deleuze. Até porque Foucault não é um completo estranho para alguém que fica à direita. Foucault costuma ser visto como alguém de esquerda. É um paradoxo lindo. Porque Foucault é um reaccionário vitalista da cabeça aos pés. Adorava e fez carreira com o culto da “unreason”, da vitalidade impulsiva, da luta contra o iluminismo. Foucault comia iluministas ao pequeno-almoço. Aliás, Habermas é claro nisso: as teses de Foucault são tudo menos progressistas.

Os grandes reaccionários vitalistas dão belas prosas (Tönnies, Jünger). Adoro reaccionários a escrever. Belos na forma, perigosos no conteúdo. Foucault - esse belo reaccionário adoptado pela esquerda que andava perdida e sem referência nos anos 60/70 – não foge à regra. Aliás, apetece arrumá-lo nas bandas da literatura e não junto ao ensaio. As pessoas não fazem esta associação porque não se estuda o passado anterior a 1945. Mas o facto é que muita gente de esquerda (na linha de Foucault) tem a mesma linha de pensamento da velha direita nacionalista, vitalista e reaccionária. Mas isso já é outro assunto.

(Aliás, Foucault - por ser um reaccionário – não me é estranho. O tipo não é um progressista. Detesto-o, mas detesto-o como se detesta aqueles primos chatos que temos de visitar na Páscoa. Tem aquele cheiro a bafio dos reaccionários, para usar uma expressão do Aron. Aquele gosto pelo irracional, pela vitalidade, o ódio ao direito natural são bafientos, mas consigo reconhecê-los. Foucault devia ser totalmente estranho para alguém que se diz de esquerda. Mas isso já é outro assunto.

 

- O biopoder não se aplica ao que queria dizer. O biopoder – segundo Foucault - está em todo o lado, aliás, está dentro das pessoas. É uma espécie de consciência colectiva que toma conta da agência de todos os indivíduos. É uma espécie de nevoeiro de Carpenter que domina as pessoas sem estas o sabem (Marcuse também tentou esta charada: as pessoas são controlados pelo poder capitalista, sem saberem que são controladas...). O que eu quis dizer não tem qualquer relação com isto. Quando falo em “canais”, estou a falar em canais institucionais, isto é, a lei, a constituição, instituições: coisas visíveis e exteriores às pessoas. É este poder institucional que considero o “poder legítimo”, enquanto que os foucauldianos consideradam esse poder institucional como algo de opressivo. (os meninos da faculadade do "Tropa de Elite" rezam essa charada; e o filme goza bem com isso).

 

Não falava em domar o poder de forma abstracta. Quando digo que temos de controlar o poder tal como se controla a água, estava a referir-me aos homens com poder e não ao poder em abstracto. O ponto é este: quem tem poder, vai usá-lo. Dê por onde der, aquele que tem poder vai usá-lo. Daí dizer que o poder não pára quieto. E devido a isto, é preciso cavar canais institucionais por onde o poder deve correr. A diferença entre a civilização e a barbárie é que na primeira o poder está canalizado de forma transparente, de forma pública. A barbárie é um pântano sem um sistema político que civiliza o poder. Há água por todo o lado. Na civilização, a água está só nos sítios certos.

Isto não é Foucault, é a minha habitual conversa chata sobre constitucionalismo liberal – coisa nunca vista nesta terra há 100 anos. A liberdade que nós podemos ter advém da nossa capacidade institucional para domesticar aqueles que têm o poder. É só isso.

 

- Mas voltando ao “biopoder”. Esse termo é – apesar de tudo – interessante. Não para explicar a globalização (como tentou tontamente o camarada Negri), mas para explicar, por exemplo, a actual paranóia com a saúde e com o terrorismo. A “cultura médica” cria um biopoder que é de facto invisível – sem instituições – e que controla a vida das pessoas de uma maneira terrível. Depois há a paranóia com o terror nos EUA. Há ali um “biomedo” que desafia qualquer racionalidade. Vem de dentro, e não há argumento racional que valha contra aquilo. Mas isso já é outra conversa.  

 

um abraço,

 



publicado por Henrique Raposo
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Livros "Atlântico" 41, ARON

 

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Atlântico 27 (Junho 2007)

 

Isto não uma crítica. É uma celebração. Consta que a primeira palavra que balbuciei foi “Aron” e não “Gu-gu da-da”. Não esperem, portanto, grande contenção nesta prosa. Raymond Aron (1905-1983) foi a maior figura intelectual do século XX e, como diria Borges, encontrou o destino dos grandes: transformou-se num adjectivo, aroniano. Um adjectivo que sintetiza uma atmosfera intelectual própria, uma maneira de ver o mundo.

Nestas memórias, Aron oferece-nos uma visita guiada ao seu longo percurso intelectual. O autor recorda os seus livros e polémicas, desde o caos dos anos 30 até às incertezas dos anos 80. A Guerra-Fria («paz impossível, guerra improvável») tem óbvio destaque. Esta foi uma época marcada por uma batalha de ideias na qual «a mente ou o coração dos homens estava em jogo» (p. 206). Aron foi o navio almirante dessa batalha; defendeu os EUA e a NATO contra as hordas de amantes da URSS lideradas por Sartre. E Aron faz questão de recordar algo que já estava fora de moda nos anos 80: sem a NATO e sem a integração da Alemanha na NATO, a França nunca teria participado na construção europeia a par de uma Alemanha novamente soberana e armada. Sem o «egoísmo esclarecido» (p. 549) dos americanos, não teríamos a Europa de hoje («o plano Marshall obrigara os europeus, alemães incluídos, a trabalhar em comum» (p. 236).

Mas, hoje, mais do que a História, o que interessa recuperar é o tal espírito aroniano. E o que é ser-se aroniano? É praticar o cepticismo e, por isso, recusar o papel de intérprete «da consciência universal» (p. 536). É lutar pelo pluralismo («o Ocidente só vive e sobrevive pelo pluralismo», p. 632). É proteger o valor da humildade perante os clássicos («um ano de familiaridade com a obra de Kant curou-me, de uma vez por todas, a vaidade», p. 23). É ser capaz de fazer a ponte entre a teoria e a realidade, entre o jornalismo e a academia. Aron, jornalista e académico, criticava quem vivia apenas no «universo de algodão» académico (p. 191). É desconfiar dos Príncipes (p. 521). É recusar o quentinho ideológico e sair para o frio analítico, ou seja, é ver o mundo tal como é, e não como deveria ser. É criticar revolucionários («pode-se ser marxista-leninista e inteligente, mas nesse caso, não se é honesto», p.629) e reaccionários («nacionalistas ou reaccionários pertencem a um universo no qual eu nunca poderia respirar», p. 588). É ter o gostinho de ouvir os adversários confessar que é melhor errar com Sartre do que ter razão com Aron. É, enfim, recusar «crenças milenaristas ou racionalizações conceptuais» e preferir «a experiência, o saber e a modéstia» (p. 626).

 



publicado por Henrique Raposo
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Ler sff

O editorial de hoje do Público:

 

"As virgulas das leis", de Paulo Ferreira.



publicado por Henrique Raposo
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Para o Afeganistão, e em força?

Sonhos afegãos. Por Miguel Monjardino.

 

Mesmo que a NATO fosse capaz de levar a cabo uma campanha de contra-insurreição e tivesse os recursos políticos, económicos e militares - algo que é muito duvidoso -, vale a pena parar e pensar se isto faz realmente sentido do ponto de vista estratégico. O realismo nunca fez mal a ninguém. Especialmente no Afeganistão.



publicado por André Azevedo Alves
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O bio-poder na obra de Henrique Raposo

Porquê Foucault? Bem, não tenho aqui à mão o "Il faut défendre la société" - único livro de Foucault que li com olhos de ler, e ainda assim há uma data de anos - nem a "História da Sexualidade", com cujo primeiro volume cheguei a ter alguma intimidade há ainda mais anos.

 

Por isso limitar-me-ei a ilustrar o ponto de encontro que detectei entre o Henrique Raposo e Foucault - ou melhor, entre a metáfora do poder como água que se espalha por um sistema de rega e a concepção do poder que Foucault desenvolve - por palavras próprias e com o grau de incerteza que a escrita de memória permite.

 

Do que li de Foucault sobre o poder, retive essencialmente que ele encara o poder não como uma coisa mas como uma relação. Ou melhor, como uma série de relações. Um universo de relações sem centro - mas com centros e pontos de apoio. O poder, portanto, como algo de imanente à própria sociedade; como uma imanência inerente à própria vida social. Ora o próprio deste poder foucaldiano é "não parar quieto", é "estar sempre a correr para algum lado". Também na obra de Foucault, "não podemos parar o poder": como parar um universo de relações que ninguém controla inteiramente? É como a água na horta.

 

Não fiquei, contudo, com a sensação que Foucault visse o poder como um sistema desgovernado: nos tais centros e pontos de apoio que animam as redes de poder, há sujeitos dotados de vontade, tal como a "avó [do Henrique] desviava a água através do sistema de canais". Vendo bem, a metáfora da rega casa-se lindamente com a noção foucaldiana de bio-poder. É que regar e fazer carreirinhos é exercer um poder sobre a vida: não um poder que mata e deixa viver, mas um poder que dá a vida e deixa morrer (neste caso, às hortaliças).

 

La boucle est bouclée: quando o Henrique Raposo critica José Sócrates por invadir "a nossa vida privada e social", está a denunciar exactamente o que Foucault apontava quando falava de bio-poder. Isto é, a propensão do poder a estender o seu domínio de actuação à totalidade da vida social. Façamos justiça a Sócrates: "o paradoxo terminal do regime político português" que o Henrique Raposo justamente identifica é o paradoxo de todas as governamentalidades contemporâneas. O nosso primeiro-ministro é apenas um intérprete particularmente zeloso e inconsciente daquilo que é a tendência geral.

 

P.S.: caro Paulo Tunhas, se vir este texto, tenha a caridade de o desmontar com uma benevolência compatível com a manutenção do meu amor-próprio. O silêncio também serve. Antecipadamente grato.



publicado por Vasco Campilho
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Só uma pergunta:

João Cravinho lança uma bomba sobre a corrupção; o PS não fica nada bem tratado. E o que faz o PSD? Não vi nada hoje, mas aposto que nada. E o CDS? Idem.

 

O problema não é deste ou daquela partido. É do "sistema de partidos" em geral.



publicado por Henrique Raposo
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Sem maldade...
 
"Ainda demora?", perguntaram a Durão Barroso. "Vou já", respondeu, "só comer mais uma uva".
 
_________________

Arcebispo de Cantuária



publicado por joao moreira de sá
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