Isto não é socialismo, nem sequer keynesianismo, porra!
Já se percebeu que o tradicional (e irracional) debate esquerda-direita já atacou a avaliação do plano Bernanke-Paulson. Meus caros, o plano não é socialismo, nem keynesianismo. É economia de mercado no seu melhor, sofisitcada e descomplexada. O plano é impopular porque os banqueiros são e sempre serão impopulares, e ainda mais os "especuladores". Os republicanos que votaram contra não estão a defender o mercado, estão a defender o voto dos seus votantes populares (Not that there's anything wrong with that, como diria o Seinfeld).
Repito isto porque se uma mentira dita muitas vezes vira verdade, espera-se que o mesmo possa acontecer a uma verdade.
Pedro Lains, historiador do ICS, tem feito os melhores textos em Portugal sobre esta crise. Isto também é o trabalho do cientista social: entrar dentro do debate «mainstream» e dar cabo dos mitos que se criam, como diria o mestre Aron.
Entretanto, o Congresso aprovou, embora com forte contestação republicana [N.R.: Este texto foi escrito segunda-feira, quando tudo indicava uma aprovação e não o chumbo que ontem se verificou.], o plano de emergência proposto por Bush. Aos republicanos, que sempre pregaram a auto-regulação do mercado, custa-lhes engolir uma intervenção salvadora (?) do Estado. Neste caso, com mais vergonha e sentido de coerência do que Bush.
Como se previa [o texto também foi escrito na segunda-feira quando tudo indicava uma aprovação e não o chumbo que ontem se verificou] alguma esquerda já rejubilava com a aprovação do Plano Paulson, uma verdadeira vingança do socialismo. Mas o dr. Soares teve pressa e tropeçou, porque o plano não foi aprovado, contando também com mais de 40% de votos contra dos democratas na Câmara dos Representantes.
Quem tem estas casas gratuitas (é isso que elas são) é gente poderosa. Há assessores dispersos por várias forças políticas e a vários níveis do Estado, capazes de com uma palavra no momento certo construir ou destruir carreiras. Há jornalistas que com palavras adequadas favoreceram ou omitiram situações de gravidade porque isso era (é) parte da renda cobrada nos apartamentos da Quinta do Lambert e noutros lados. O silêncio foi quebrado agora que os media se multiplicaram e não é possível esconder por mais vinte anos a infâmia das sinecuras.
O Presidente francês afirmou que "a crise financeira não é a crise do capitalismo. É a crise de um sistema que se afastou dos valores fundamentais do capitalismo, que traiu o espírito do capitalismo". Avisou ainda: "o anticapitalismo não oferece qualquer solução à crise actual. Regressar ao colectivismo, que tantos desastres provocou no passado, seria um erro histórico". Esta é a mensagem certa. Mais do que nunca, é necessário defender o capitalismo dos ataques populistas e oportunistas. Atacar o capitalismo por causa da crise financeira é como atacar a democracia por causa de partidos extremistas serem eleitos para o parlamento. Todos os bons sistemas têm problemas.
O capitalismo é muito mais do que economia. Sem capitalismo, não há liberdade individual, não há pluralismo político e não há sociedades prósperas. Basta olhar para a história do século XX, para ver o resultado de todas as experiências anti-capitalistas. Desde a União Soviética à Alemanha Nazi, passando pela Espanha de Franco e pelo Estado Novo. Muito mais grave do que a crise financeira seria a falta de memória histórica.
1. Richard Epstein era um libertário. Mas percebeu que estava errado. Escreveu este livro para se assumir como liberal clássico.
2. Os libertários passam a vida a falar de Liberdade. Mas estou cada vez mais convencido que esta Liberdade (sempre com caixa alta) é apenas uma palavra e não um hábito mental entre libertários. Para existirem, as liberdades (as concretas; não a Liberdade) precisam de uma coisa: um ambiente intelectual marcado por algum cepticismo (como defende Epstein ao longo do livro). Só com cepticismo (i.e., será que tenho razão? será que aquele idiota que discorda de mim é mesmo idiota? Será que o idiota sou eu?) é que pode haver liberdade e respeito pelo pluralismo. Ora, o que se vê nas hostes libertárias é a total ausência de cepticismo e uma cegueira ideológica pura e dura.
Bastaria ler a notícia de um comentário do primeiro-ministro aos jornalistas durante a viagem à Venezuela, em que comparava o programa de televisão de Hugo Chávez com as notas de Marcelo Rebelo de Sousa na RTP, para se perceber que poderiam vir aí novos problemas para o comentador social-democrata. Regista-se o estratégico aproveitamento de um comunicado da ERC pela direcção de informação da televisão pública para lembrar a redução do tempo do programa de Marcelo. Ou, dito de outro modo, como foi útil para o Governo este novo comunicado da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Tem razão o professor para temer que acabem com o programa?
Se é certo que Portugal não se pode dar ao luxo de cometer mais erros de política económica, a verdade é que face à crise internacional, a inacção não é uma opção viável. A prioridade da política económica neste momento deve ser manter, tanto quanto possível, a liquidez das famílias e das empresas de modo a prevenir rupturas graves num contexto de crise de crédito. Intervenções de curto prazo, com alvos bem especificados, parecem-me não apenas o modo mais eficiente, mas também o mais eficaz de cumprir este objectivo. A questão está em definir os alvos e desenhar as intervenções.
Eu identifico três alvos principais: as empresas, o sistema financeiro, e as famílias. Para prevenir a asfixia financeira das empresas, em especial das PME, já falei aqui da necessidade de resolver o quanto antes os pagamentos atrasados a fornecedores pela Administração Pública. Todas as outras medidas que se possam imaginar são supletivas desta medida de fundo, que ainda por cima é da mais elementar justiça. Para estabilizar o sistema financeiro, é ver o que tem sido feito à nossa volta. Não vale a pena reinventar a roda: o que é preciso é estar pronto se e quando for necessário intervir.
Para acudir às famílias esmagadas pela subida das taxas no crédito à habitação, será necessário mais engenho. Crédito de imposto especial para os mais pressionados? Pode chegar tarde. Um subsídio? Cria moral hazard, e pode ter efeitos de redistribuição regressiva. Talvez o mecanismo de apoio mais virtuoso fosse uma retoma parcial da dívida*, em que o Estado adquiriria uma percentagem do imóvel hipotecado no valor da dívida retomada afim de reduzir a taxa de esforço da família socorrida.
And here's the funny part: aqueles que tivessem lesado o Estado ao fazer escrituras abaixo do valor real do imóvel acabariam por o ressarcir ao recorrer a este mecanismo, já que a percentagem do imóvel adquirida pelo Estado seria aumentada face ao valor real justamente na medida do rombo fiscal anterior.
* Estou aberto a que me convençam que isto não funciona(ria), ou que há alternativas melhores. Caixa de comentários sff.
Novas regras passam a valer a partir de 2009. Confira o que muda na língua escrita.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta segunda-feira (29) o decreto que estabelece a reforma ortográfica. As mudanças na escrita começam a valer a partir de 1º de janeiro de 2009. A solenidade ocorreu na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro.
A reforma da ortografia pretende unificar o registro escrito nos oito países que falam português - Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, Brasil e Portugal.
De 2009 até 31 de dezembro de 2012, ou seja, durante quatro anos, o país terá um período de transição, no qual ficam valendo tanto a ortografia atual quanto as novas regras. Assim, concursos e vestibulares deverão aceitar as duas formas de escrita – a atual e a nova.
Nos livros escolares, a incorporação das mudanças será obrigatória a partir de 2010. Em 2009, podem circular livros tanto na atual quanto na nova ortografia.
O que muda na escrita
De acordo com especialistas, 0,45% das palavras brasileiras sofrerão alterações, ao passo que em Portugal haverá mudanças em 1,6% dos vocábulos. As regras que mudam são as seguintes:
Novas letras – há a incorporação do “k”, do “w” e do “y” ao alfabeto. O número de letras passa de 23 para 26.
Trema – deixa de existir. A grafia passa a ser: linguiça e frequente.
Acentos diferenciais – serão suprimidos acentos como o de “pára”, do verbo parar.
Acentos agudos de ditongos – somem os acentos de palavras como “idéia”, que vira “ideia”.
Acento circunflexo – somem os acentos de “vôo” ou de “crêem”.
Hífen – palavras começadas por “r” ou “s” não levarão mais hífen, como em anti-semita (ficará “antissemita”) ou em contra-regra (ficará contrarregra).
Pontos em aberto
O acordo não define todos os usos de hífens, por exemplo. Assim, palavras como pé-de-cabra, ainda não têm o rumo certo e dependem da elaboração de um vocabulário pela Academia Brasileira de Letras e pelos órgãos dos outros sete países signatários.
História do acordo
O acordo ortográfico da língua portuguesa foi assinado em Lisboa em 1990 e deveria ter entrado em vigor em 1994, o que não se concretizou. Em 1998, foi assinado em Cabo Verde um protocolo que modificava a data de vigência, que foi ratificado em 2002.
Sem que as mudanças se aplicassem, em 2004 foi assinado um novo protocolo modificativo, que previa a adesão do Timor Leste, independente desde 2002. Este novo protocolo previa que as mudanças na ortografia entrariam em vigor a partir da assinatura de três países.
O acordo ortográfico já foi ratificado por Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Portugal, e, portanto, pode entrar em vigor. O processo de implementação em cada país pode variar.
Em Portugal, o acordo foi aprovado em maio e a nova ortografia deverá ser obrigatória dentro de seis anos.
Em muitos assuntos que desconheço tendo a partilhar a opinião de gente que admiro e é versado no tema. Em outros, mesmo que eu não seja um profundo conhecedor do objeto em discussão, o entorno do debate permite uma avaliação mais ampla. Se me pedirem uma opinião sobre questões filológicas serei obrigado a recusar polidamente o desafio; se me vejo defrontado com uma decisão sobre minha língua materna o debate pode ser conduzido com instrumentos de análise muito mais amplos do que meros aspectos técnicos. O famigerado acordo ortográfico viola pela arbitrariedade; incomoda pela pretensão; irrita pelo descabimento.
Quais são, afinal, os argumentos favoráveis ao acordo? “Unificar o registro escrito nos oito países que falam português - Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, Brasil e Portugal”. Para quê? Para facilitar a circulação de conhecimento? Para permitir que indivíduos dos países luso possam se comunicar pela via escrita da mesma forma? Há vários outros circulando por aí, um dos quais fazer com que o português se torne língua oficial de organização internacionais como a ONU.
Algumas questões se põem: um brasileiro alfabetizado não consegue ler um texto escrito em Portugal? Um português alfabetizado não consegue ler os livros produzidos no Brasil? Um diplomata brasileiro não consegue entender seu colega português? Percebam que transfiro a discussão do âmbito técnico para o da responsabilização individual. Se os brasileiros e portugueses que sabem ler não conseguem ler uns aos outros o problema está na ortografia? Alguém pode perguntar: “mas o acordo não se refere mais à elaboração de textos do que propriamente sua leitura?” Uma coisa, evidentemente, depende da outra.
Dar-lhes-ei um exemplo de uma diferença de grafia: fato (ação ou coisa que se considera feita, ocorrida ou em processo de realização) em Portugal diz-se e escreve-se facto. Se algum português disser fato está se referindo ao nosso brasileiro terno (traje masculino, composto de paletó, calças e, ocasionalmente, colete, do mesmo tecido e cor). Ma se forem ao dicionário de português do Brasil verão que fato (sem a letra C) também tem o mesmo significado usado em Portugal. E que terno também pode significar sentimentos afetuosos, grupo, numeroso ou não, de pessoas (regionalismo de Minas Gerais) e conjunto das juntas de bois da carreta (regionalismo do Sul do Brasil).
A língua é produto de uma história; e não foi apenas Portugal e o Brasil que tiveram a sua história, apresentando variações fonéticas, lexicais ou sintácticas; a África, Macau, Timor e Goa, que os sábios do acordo ignoram nas suas maquinações racionalistas, também têm direito a usar e a abusar da língua. Quem disse que o português do Brasil é superior, ou inferior, ao português falado e escrito em Luanda, Maputo ou Dili?
Meu princípio filosófico: a pluralidade é um valor que deve ser estudado e respeitado. Não me incomoda que os brasileiros escrevam “ator” e “ceticismo” sem usarem o “c” ou o “p” dos lusos. Quando leio tais palavras, sei a origem delas; sinto o sabor tropical em que foram forjadas.
Mas exijo respeito. Exijo que respeitem o “actor” português e o “cepticismo” luso com o “c” e o “p” que o Brasil elimina.
Quando as palavras são esvaziadas e a língua passa a ser tratada como uma peça de automóvel corremos o risco de pedir respeito e isso não significar absolutamente nada.
PS: Lula assinando um acordo ortográfico é a nota final dessa tragédia transatlântica.
A forte e robusta economia portuguesa e a sua pujança financeira estão imunes à crise. Esta é a tese defendida pelo Eng. Sócrates e pelo super-ministro Teixeira dos Santos. De Vítor Constâncio não se sabe o que pensa. Talvez não fosse mal dizer qualquer coisa. Quem já disse que a crise no EUA iria, mais cedo ou mais tarde, afectar as famílias portuguesas foi o Professor Cavaco, quando na semana passada percorreu os meandros da ONU. Há aqui qualquer coisa que não bate certo. Ou alguém nos está a deitar areia para os olhos, ou definitivamente Belém e São Bento já optaram por seguir caminhos diferentes. Eu aposto mais na primeira.
Já só falta um murozito para deitar abaixo. No lugar do de Berlim podemos ser alegóricos e deitar abaixo o Das Lamentações ou práticos e simbólicos e atirar-nos à Grande Muralha da China.
O líder do partido [PNR], José Pinto-Coelho, considera que este cartaz «é mais uma pedrada no charco que serve para alertar consciências para aquilo que se passa em Portugal e que mais nenhum partido tem coragem de denunciar». (Sol)
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Desde o pormenor da ovelhinha branca a dar coices nas ovelhas pretas, tudo isto é mau de mais. Mas felizmente vivemos em democracia, onde até pedradas à inteligência como esta têm de ser aceites, reduzidas à sua real insignificância eleitoral.
O Prémio Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, antecipa um longo período de recessão nos EUA e prevê a vitória de Barack Obama nas presidenciais norte-americanas das próximas semanas, porque os eleitores vão rejeitar a política do partido republicano.
Ao contrário do que julguei ontem, ainda há algo que mexe nos EUA: A independência do Congresso (neste caso, a Câmara dos Representantes) ao chumbar o plano de Bush que punha todos os contribuintes a pagar os erros de alguns. A força da democracia, do conceito da separação de poderes, está aqui. Algo bastante assustador para um regime como o nosso que desvirtua esse alicerce do regime democrático.
É por estas e por outras que a teoria do declínio da América está errada. Tal não sucederá enquanto os EUA não cederem nos princípios basilares da liberdade política, individual, no conceito clássico do que é, e significa ser livre.
A crowd is likely to make wise decisions if the individuals decide individually. To me this sounds very critical of our current ability to design organizations. If we're better off coming to individual estimates and decisions, and that's the whole story, then there would be no point in forming organizations whose function goes beyond averaging individual beliefs. Internally communicating organizations would simply endanger their opinion diversity. If current organizations can be improved by discouraging communication between members of the organization then we are very bad indeed at designing decision-making and communication-processes. The message of the research so far seems to be: A crowd is as wise as it gets if it is nothing more than the sum of its individual members. Communication leads to less wise crowds.
A decisão de rejeitar o Plano Paulson parece ter dado razões para um aumento do pessimismo nos financeiros nacionais, com repetidos alertas para as graves consequências desta decisão na economia mundial.
James Surowiecki, apresentou num livro de nome “The wisdom of the crowds” uma ideia bastante interessante sobre a possibilidade de, em certas condições, o conjunto de conhecimentos detidos por uma multidão levar a melhores decisões que a do mais esclarecido dos indivíduos nessa multidão. Algo bem diverso da conhecida e real loucura das multidões que leva inevitavelmente a decisões erradas e não raras vezes catastróficas.
A relevância dos estudos feitos nesta área são especialmente importantes no que diz respeito aos processos de decisão colectivos em democracia. No entanto, ficou claro que os mesmos processos obedecem a critérios, um dos mais relevantes é a forma como um determinado problema é posto perante todos.
Surowiecki dá dois exemplos com resultados opostos, no primeiro uma sala de aula é confrontada pelo seguinte problema: terá de adivinhar quantos feijões existem num frasco transparente que se encontra à vista de todos, a média dos resultados obtidos por cada estimativa individual aproximou-se espantosamente do número real de feijões.
Num outro exercício os alunos são convidados a observar um ribeiro e estimar o desenho do seu leito de forma a encontrar o melhor sitio para o atravessar sem terem de nadar, aqui a média dos resultados fornece uma estimativa optimista e errada enquanto que algumas estimativas individuais quase que acertam em cheio no desenho real do leito desse ribeiro. A decisão colectiva é aqui comprovadamente errada.
Onde é que a decisão de rejeitar as ideias de Paulson se enquadra, se no primeiro ou no segundo exemplo, é uma questão cuja resposta ditará o futuro da economia mundial nos próximos tempos.
Especial Crise Financeira com as visões da esquerda e da direita:
Convenhamos que se trata de um sério avanço para a esquerda não acreditar que, tal como nos finais do século XX caiu o muro socialista de Berlim, poderão agora ruir as paredes capitalistas de Wall Street, a caminho de uma sociedade sem classes nem “exploradores e explorados”. Mas não se duvide que a esquerda viu na intervenção do governo federal norte-americano nos mercados, assim como no “plano Paulson”, a vingança que aguardava desde 1989.
Dia de loucura. A terceira semana de instabilidade prossegue com o furacão a entrar na Europa e os Estados Unidos bloqueados. O Plano Paulson não foi aprovado pela Câmara dos Representantes. É uma derrota para Bush. Pode ser uma vitória para os Estados Unidos. Falta ao plano a punição dos infractores que a Europa está a fazer sem plano.
Não, não foram só os malditos republicanos que votaram contra o plano Paulson - até porque sozinhos não conseguiriam nada contra a maioria democrata na Câmara dos Representantes. Mais de 40% dos democratas votaram contra também. E cerca de um terço dos republicanos aprovou o plano. Podem ler a lista dos "culpados" em pdf (via CNN).
Em zapping pelos canais de televisão, estacionei no jornal das nove da Sic Notícias. É um espaço noticioso que normalmente aprecio, pela serenidade (tão rara nos dias de hoje) com que é conduzido por Mário Crespo. No entanto, hoje, deparei-me com um triste espectáculo. Começou na Joana Amaral Dias que rejubilava com crise financeira actual, como se a mesma fosse o comprovativo que faltava para o total e mais do que evidente acerto das teses que apregoa. Os seus olhos brilhavam e a sua altivez aumentava ainda mais, quando concluía que os pacotes de intervenção do Estado que agora se discutem, não são mais do que as nacionalizações sempre tão criticadas pelos selvagens neo-liberais e que, portanto, o caminho do progresso é nacionalizar mais empresas, como por exemplo, a Galp. Terminou com Mário Crespo a comparar a situação dos bancos falidos com a da famosa Dona Branca.
Esta emissão parece-me um bom exemplo da desinformação que, oportunistamente, anda a ser promovida por algumas facções da sociedade.
Desde logo, é preciso que se diga que os pacotes de intervenção que se pretende aplicar nos mercados e, nomeadamente, em alguns bancos, não são nacionalizações no sentido que a esquerda pretende. Na verdade, as nacionalizações têm um cariz marcadamente ideológico. São um mecanismo aplicado em prol da construção de uma determinada ideia global de sociedade, que, como é por demais sabido, em momento algum da história trouxe progresso e bem-estar às populações. Penso que ninguém pode com seriedade afirmar que o que se passou em Portugal no PREC ou o que se passa actualmente na Venezuela tem alguma semelhança com o que está a ocorrer nos E.U.A. Hoje, estamos a assistir a intervenções do Estado na qualidade de garante (que nunca pode deixar de ser) do interesse público. Ponderados todos os interesses em jogo, os governos entendem que devem intervir em determinados casos, em defesa do capitalismo, das poupanças dos cidadãos, não na imposição de uma qualquer ideia socialista ou comunista da sociedade.
A visão que tenho do papel do Estado na sociedade é a de que ele deve ser, em primeiro lugar, um árbitro e, depois, um garante, especialmente em situações de crise. Os pacotes que agora se discutem não são mais do que isso. Só um Estado, pelo menos, tendencialmente com estas características, tem capacidade para zelar pelos interesses da comunidade em momentos como o actual, em que deixar cair algumas instituições financeiras significaria (ou significará) a desgraça de muitas pessoas. É verdade que o Estado-Árbitro terá falhado, no entanto, é agora que deve emergir o Estado-Garante. O que irá, seguramente, salvar a economia americana é precisamente o liberalismo que levou a um crescimento extraordinário de décadas e que permite que o Estado tenha capacidade e folga para zelar pelo interesse público na situação preocupante que vivemos. Um Estado como o que defende Joana Amaral Dias, se alguma vez se tivesse erguido, cairia como um baralho de cartas.
Este homem absolutamente admirável voltou a estar na moda. As razões são evidentes. Mas o facto de "voltar a estar na moda" pelas razões que se sabe parece apenas confirmar que as primeiras palavras da sua grande obra constituem o seu maior erro:
"Denominei este livro A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, dando especial ênfase ao termo geral. (...) Argumentarei que os postulados da teoria clássica aplicam-se apenas a um caso particular e não ao caso geral, pois a situação que ela supõe está no limite das possíveis situações de equilíbrio."
Um dos maiores problemas da actual crise financeira é o alto grau de imprevisibilidade. Muitas das análises e comentários que têm sido escritos são ultrapassados pelos acontecimentos. É o caso do famoso "plano Paulson" que ainda hoje de manhã muitos diziam estar à partida aprovado - e foi liminarmente rejeitado na Câmara dos Representantes dos EUA. À crise económica soma-se a conjuntura política, que é de eleições. A reacção natural dos media, sobretudo europeus, será condenar os muitos republicanos - somados a alguns representantes democratas - por terem votado contra um plano que previa a injecção de 700 mil milhões de dólares públicos nos mercados. Esquecem que os representantes dos Estados Unidos têm de representar mesmo os seus eleitores, ao contrário do que acontece, por exemplo, em Portugal. E o sentimento dos eleitores americanos, sobretudo da classe média, não será bem o mesmo dos media especializados, porque os primeiros também sabem que serão eles quem pagará a conta no final da crise.
É tempo de alguém obrigar a actual Câmara Municipal de Lisboa a tornar pública a lista de todos os seus 3200 inquilinos - o número que se conhece. Não é aceitável que se mantenha o segredo sobre uma matéria deste tipo, que afecta o bom nome de apenas algumas pessoas de quem se sabe terem recebido casas nestas condições. Quando se lê a notícia de hoje do DN, não se percebe como continua o presidente da CML António Costa a manter a confiança na sua actual vereadora da Habitação Social, Ana Sara Brito, que teve uma casa destas durante 20 anos. Não se compreende também porque lançou o Bloco de Esquerda, em conjunto com o "seu" vereador Sá Fernandes, uma campanha contra Maria José Nogueira Pinto, que deixou precisamente pronto um regulamento geral para a atribuição de casas por motivos sociais - regulamento esse que se manteve na gaveta até hoje. Toda esta história é grave demais para ficar impune.
Mas será que os líderes dos principais partidos portugueses não têm nada a dizer sobre a questão das casas da Câmara de Lisboa? Será que não acham o tema relevante?
E, assim de repente, alguém me pode informar sobre a “atribuição” de casas em Câmaras como a do Porto ou Braga ou Funchal ou Seixal?
Fui hoje ouvir Tony Blair na conferência organizada pelo Diário Digital. Excelente prestação de um excelente político, como poucos no mundo de hoje. Tenho de dizer que a pergunta mais difícil veio de Bernardo Pires de Lima, que conseguiu embaraçar o ex-primeiro-ministro inglês com uma questão sobre as próximas eleições no Reino Unido: "quem é que prefere que ganhe, Gordon Brown ou 'Tory' Blair [David Cameron]?" - perguntou BPL. A resposta saiu meio titubeante. Algo distante do microfone, como se não quisesse ser ouvido, Blair disse que "obviamente" apoiava o candidato do seu partido, mas que desejava sorte ao próximo primeiro-ministro, fosse ele quem fosse. Tudo sem referir o nome do seu sucessor na liderança do Partido Trabalhista.
Convém salientar que o PSD nunca colocou a ERC socialista no centro da agenda nacional. É natural: este lápis cor-de-rosa será, um dia, um lápis cor-de-laranja.
Há algo de plástico na bandeira de Jasper Johns. Uma bandeira mortiça. No seu esforço para ultrapassar a expressão mais abstracta, Johns pintou uma ‘coisa’ seca. Enquanto aprovam o acordo de Bush, a bandeira dos EUA vai ser isto. Não um símbolo; apenas uma tela com traços. E estrelas. Porque também há estrelas.
«A UE, essa grande entidade do século XXI, vê-se confrontada com um poder do século XIX, e as ferramentas pós-modernas da política externa europeia não foram concebidas para enfrentar desafios geopolíticos tradicionais. Coloca-se, realmente, a questão de saber se a Europa tem capacidade institucional ou de temperamento para participar no tipo de jogos geopolíticos que a Rússia quer jogar nos países da sua zona de influência.»
«Poder (não "soft power", "power" mesmo), os europeus tinham deixado de saber o que era. Com sorte não terão esquecido tudo porque o resto do mundo sabe. A começar pela Rússia.»
«It's not going to be the war on terror that defines the ideological challenge of our century. It's something more elusive. I think it involves three grand changes.
One is what I call the global political awakening. For the first time, all of humanity is politically active. That's a very, very dramatic change. Second, there's a shift in the global center of power from the Atlantic world to the Far East. Not the collapse of the Atlantic world, but the loss of the domination it's had for 500 years. And the third is the surfacing of common global problems that we have to address, lest we all suffer grievously. I mean climate and environment, but also poverty and injustice.»
1907 foi um ano de crise financeira em Wall Street. Mais uma, das várias que se sucederam desde 1873. Os EUA viviam uma recessão, os empréstimos bancários caíram, a corrida aos bancos foi imensa e não havia crédito para pagar. Um pânico.
Em 1907, como em 2008, o capitalismo acabou. Como esteve perto de acabar em 1914, não fosse o primeiro presidente da reserva federal ordenar o fecho da bolsa de Nova Iorque. Um drama.
Porque pânico, dramas, queda abrupta dos mercados, pessoas a dizer que é o fim do mundo tal qual o conhecemos, é o que mais há por aí.
Compare-se as fantásticas promoções do próximo programa dos Gato Fedorento na SIC com a que a RTP faz aos Contemporâneos e não se pode deixar de concordar com Nuno Markl, quando se queixa do canal público. Há vida na RTP?
Como contributo para o discurso que deve aparecer, gostaria de relembrar uma proposta de que Pedro Passos Coelho fez durante a campanha para a presidência do PSD, e que me parece mais actual do que nunca: o Estado deve pagar as suas dívidas a fornecedores. ASAP. Ao fazê-lo, estará a devolver ao tecido empresarial português a liquidez de que ele necessita para fazer face à crise de crédito*. E assim a contribuir para evitar falências e salvar empregos. Tudo isto sem mexer uma palha no stock de dívida pública**, e obtendo melhores condições de financiamento. Esta é de caras.
* Não disse injectar, disse devolver, porque estamos justamente a falar de uma liquidez que é… devida.
** Esta operação corresponde apenas a uma transformação de dívida de curto prazo em dívida de longo prazo.