Terça-feira, 30 de Setembro de 2008
Medidas a tomar (2)
Se é certo que Portugal não se pode dar ao luxo de cometer mais erros de política económica, a verdade é que face à crise internacional, a inacção não é uma opção viável. A prioridade da política económica neste momento deve ser manter, tanto quanto possível, a liquidez das famílias e das empresas de modo a prevenir rupturas graves num contexto de crise de crédito. Intervenções de curto prazo, com alvos bem especificados, parecem-me não apenas o modo mais eficiente, mas também o mais eficaz de cumprir este objectivo. A questão está em definir os alvos e desenhar as intervenções.
Eu identifico três alvos principais: as empresas, o sistema financeiro, e as famílias. Para prevenir a asfixia financeira das empresas, em especial das PME, já falei aqui da necessidade de resolver o quanto antes os pagamentos atrasados a fornecedores pela Administração Pública. Todas as outras medidas que se possam imaginar são supletivas desta medida de fundo, que ainda por cima é da mais elementar justiça. Para estabilizar o sistema financeiro, é ver o que tem sido feito à nossa volta. Não vale a pena reinventar a roda: o que é preciso é estar pronto se e quando for necessário intervir.
Para acudir às famílias esmagadas pela subida das taxas no crédito à habitação, será necessário mais engenho. Crédito de imposto especial para os mais pressionados? Pode chegar tarde. Um subsídio? Cria moral hazard, e pode ter efeitos de redistribuição regressiva. Talvez o mecanismo de apoio mais virtuoso fosse uma retoma parcial da dívida*, em que o Estado adquiriria uma percentagem do imóvel hipotecado no valor da dívida retomada afim de reduzir a taxa de esforço da família socorrida.
And here's the funny part: aqueles que tivessem lesado o Estado ao fazer escrituras abaixo do valor real do imóvel acabariam por o ressarcir ao recorrer a este mecanismo, já que a percentagem do imóvel adquirida pelo Estado seria aumentada face ao valor real justamente na medida do rombo fiscal anterior.
* Estou aberto a que me convençam que isto não funciona(ria), ou que há alternativas melhores. Caixa de comentários sff.
De qwerty a 30 de Setembro de 2008 às 16:41
Por mim era já amanhã.
De
gdr a 30 de Setembro de 2008 às 16:50
sem ter muito a ver com o post, descobrimos um sponsor até agora desconhecido de Sarah Palin, aqui: http://gazetadarestauracao.blogspot.com/2008/09/o-sponsor-secreto-de-sarah-palin.html
De JFM a 1 de Outubro de 2008 às 11:42
Caro Vasco,
Gostei bastante do seu post em que, na minha opinião, identifica claramente as áreas em que se deve concentrar o esforço (dentro do condicionalismo principal - NÃO PODEMOS PERDER OUTRA DÉCADA). Concordo com as prioridades, mas no concreto quanto à empresas é claro que a questão do pagamento atempado era, talvez, a medida mais importante (não confundindo com algumas propostas relativas ao IVA que vão ao arrepio da legislação UE aplicável). Contudo, parece-me que, neste momento, é mais gravoso para as empresas o estado (calamitoso) do sistema de justiça, que onera estupidamente a possibilidade de fazer cumprir contratos.... Se calhar, neste caso da justiça, a intervenção seria menos simples - quanto à eficácia, posso apenas pressupor que seria enorme!
Um abraço
De Ricardo Sebastião a 1 de Outubro de 2008 às 14:33
Jesus, isso a mim, que tenho crédito à habitação dava-me muito jeito mas é um completo absurdo!!!!!
Porque é que terão sempre de ser os poupadores e responsáveis a pagar as aventuras dos outros que entretanto andaram a viver bem a vida não se preocupando com o dia de pagar????
Subsídios? Retoma de dívida por parte do Estado com taxa menor (sendo a taxa restante paga pelo OE claro!)
Opa, baixassem eles as despesas do Estado e por consequência os impostos isso é que era falar!
Isso é que era um subsídio de gente!
Caro Ricardo,
concordo que é injusto "ser os poupadores e responsáveis a pagar as aventuras dos outros que entretanto andaram a viver bem a vida não se preocupando com o dia de pagar". Por isso mesmo me parece que subsídios, ou até créditos de imposto especialmente direccionados para as famílias com crédito à habitação estão fora de causa.
Mas acho k não percebeu o mecanismo a que eu me referi quando falei de retoma de dívida. Retoma de dívida seria o Estado fazer uma amortização antecipada de parte da sua dívida no valor necessário a reduzir a sua taxa de esforço para níveis aceitáveis (e não para níveis confortáveis) em troca de uma percentagem da sua casa (valor da amortização / valor da escritura).
Estamos a falar de um investimento potencialmente elevado se houver muitos candidatos. Mas estamos a falar de um investimento, não de um subsídio a fundo perdido. Por outro lado, penso que apenas pessoas genuinamente em dificuldades procurariam um mecanismo que as obriga a renunciar a uma percentagem, mesmo pequena, da propriedade da sua casa.
Admito que haja aqui problemas (jurídicos, financeiros, económicos, etc.) que eu não estou a ver. E penso que o melhor seria não ter que recorrer a esquemas destes. Mas prefiro fazê-lo a ter toda uma geração que comprou casa entre 1998 e 2008 arruinada.
Até porque a ruína dessa geração não lhe seria inteiramente imputável, contrariamente ao discurso da cigarra e da formiga.
O sobreendividamento deve-se também a 1) taxas de juros reais negativas durante anos (culpa da inflação que o Estado deveria ter controlado); 2) bonificação de juros para crédito a habitação (responsabilidade do Estado); 3) mercado de arrendamento inoperante que forçou a comprar casa (más leis que o Estado não alterou); 4) mau ordenamento do território que orientou o mercado para a construção nova em desfavor da reabilitação (responsabilidade do Estado).
De modo que não me parece mal que o Estado assuma uma parte da solução, já que também foi uma parte do problema.
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