Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008
Até quando?

 

Da última vez que tinha escrito neste blog, várias coisas não tinham acontecido:
 
  1. Eu não era a pessoa mais feliz do mundo;
  2. O computador “Magalhães” (inexplicavelmente não apelidado Magellan) não tinha ainda sido distribuído ao povo, nem eu tinha ouvido falar dele;
  3. O Primeiro-Ministro, Didáctico Máximo, não tinha chamado “covarde” a José Manuel Fernandes, numa prosa esquisitíssima (quem a leu, pensou no estilo?), aproveitando-se de um erro (o enésimo) de Azeredo Lopes (o homem da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, se me lembro bem);
  4. Pedro Passos Coelho não tinha ainda tido uma ideia (sobre quê?) noticiada no Público;
  5. Mário Soares não tinha decidido ser Mário Soares de novo, ultrapassando-se; e não tinham cortado dez minutos a Marcelo Rebelo de Sousa;
  6. A Carla Hilário Quevedo não tinha lido a Spoon River Anthology de Edgar Lee Masters;
  7. O maradona não se tinha rido com o O valente soldado Schweik;
  8. A crise actual.
 
Naturalmente – omito o ponto 1, porque guardo alguma decência - que os pontos 2 e 3 não me incomodam nada: são fatalidades. (Salto o 4, porque os mistérios são misteriosos, e o 5 vá lá Deus saber por quê.) Com os 6 e 7 rejubilo, apesar de inquietações menores. Fico muito contente com o desfecho do ponto 6, e permito-me aconselhar ao maradona (visado no ponto 7) a leitura de um qualquer capítulo com o Feldkurat do Schweik (aconselho igualmente qualquer dos últimos do Lucky Jim do Kingsley Amis – e, já agora, o Everyday Drinking).
 
O problema é o ponto 8, um problema a sério. Vivo, desde há dois anos - em intervalos infelizes de Itália, longuíssimos -, numa zona do Porto que dantes era pacata e razoavelmente burguesa (a “Rotunda da Boavista”). Agora é popular - e está certo (é por isso que eu posso viver onde vivo). Acontece que, palpavelmente, se sente aqui a degradação dos tempos. A maior concentração do mundo de aleijadinhos – manetas e pernetas (em francês diz-se culs de jatte, o que é óptimo) – não indispõe (a mim não me indispõe). A agressividade de quem pede, sim (a iminência da violência física agride). E vai aumentando. Uma amiga minha anti-capitalista grega diz-me, de longe de mais para os meus desejos, que a culpa é do “mercado livre” (eu falo-lhe do socialismo feliz, e do querido Gulag, e ela diz para eu não ser idiota). Pessoalmente, não tenho doutrina. Mas sinto a violência das coisas, para além do banal espectáculo dos bêbados caídos na calçada coberta de escarros, ao qual me habituei, mesmo quando perdem os sentidos no meio da rua e os carros têm que fazer fila para se desviarem. É que, dia após dia, a degradação é maior. Dou um exemplo a sério: quando o pedinte vem ter connosco, cada vez se torna mais indistinguível o estender a mão da agressão. Vai piorar. Pedir vai parecer-se cada vez mais com agredir; e, depois, com roubar.
 
Por enquanto, aguento a coisa com toda a paz do mundo. Eu e eles, os pedintes, meus irmãos. Percebo-os, e espero que me percebam. Até quando? Até não muito, aposto.


publicado por Paulo Tunhas
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Comentários:
De Carlos Botelho a 9 de Outubro de 2008 às 23:27
Até que enfim - voltou!


De Paulo Pinto Mascarenhas a 10 de Outubro de 2008 às 00:58
Sim, concordo, até que enfim. Saudades de ler o Paulo Tunhas.


De Manuel a 10 de Outubro de 2008 às 01:52
Gostava que se comentasse mais o conteúdo do post...
Eu deixo as minhas perguntas ao autor, antes que volte a desaparecer por mais uma temporada:

É preferível a solução "Estado" garantindo duas décadas de Pobreza ou a solução "Mercado" com dois anos de Miséria?

Acha que o Mundo (e a Rotunda da Boavista) aguentam a solução de "correcção" do Mercado (um eufemismo para a desgraça) sem o "pára-quedas" do Estado?

A História repete-se e as massas à procura de Milagres irão criar uma oportunidade para os Nacional-Socialismos e outros tipos de desgraças? (também pode ser visto como o mercado a funcionar...)

(bem sei que as perguntas são formuladas de maneira tendenciosa, mas tenho realmente muito medo do que está para acontecer)


De Isidro Alves a 10 de Outubro de 2008 às 02:09
Concordo com as preocupações do Manuel. Dê-nos a sua opinião abalizada, dr. Paulo Tunhas. O mundo está mesmo perigoso, como avisava Vasco Pulido Valente?


De Margarida Pereira a 10 de Outubro de 2008 às 12:58
Não sei como exprimir comedida e discretamente o absoluto gáudio por este formidável regresso!
Por isso, cá vai só um exemplozito: IUPIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!!!! (a dança tribal fica para a imaginação)
Texto suculento, a merecer leituras sucessivas, de tanto detalhezinho delicioso a degustar...

Reparo amargo, porém, caro Paulo..., essa pavorosa descrição da 'minha' Rotunda da Boavista é arrepiante. E um nadinha injusto, não ?
Já viu bem o que o pessoal de outras paragens vai achar?
Como se já não chegasse a proverbial má vontadezinha contra a Invicta...
Vá, redima-se adiante, num texto de carinho pelo burgo sujo, mas amoroso, que é este.
Ou intimo-o para um café de desagravo no Majestic!

(parabéns lá pelo ponto 1, que uma das coisas mais bonitas do mundo é sabermos alguém feliz...)


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