Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008
Isto deve ser da leitura excessiva de Corín Tellado

A gente sabe que há muitos ateus prosélitos que não suportam que a Igreja Católica sobreviva e ainda goze de boa reputação; que o catolicismo não seja olhado com desconfiança por qualquer pessoa de bem; que o 11 de Setembro foi uma óptima oportunidade para atacar o fanatismo religioso e se apenas o islamismo (e só o radical) tem sido invocado pelos terroristas, porque não associar neste ulraje ao fanatismo o cristianismo? (Nunca vi qualquer ataque ao budismo, ao animismo, ao xintoísmo ou ao hinduísmo - essa religião tão simpática, com o seu apreço pelo género feminino e as suas castas, por exemplo.)

 

Na Somália, e sob a sharia, uma mulher foi lapidada. 

 

Ora no meio (na realidade, logo no título) de um texto sobre o supremo horror deste acto, Fernanda Câncio, no DN, chama ao barulho a Bíblia e a religião que lhe é associada, constituída " por quem as pratica, por quem diz e crê que nos livros que mandam matar está a palavra de deus, a palavra que não pode ser contrariada, discutida, reflectida, abjurada" (bem, quanto ao discutida e reflectida, desconfio que a senhora nunca ouviu falar de exegese bíblica, mas adiante). Os mais distraídos - aqueles que ainda não estão num grau de esclarecimento já alcançado por FC, Sam Harris e Christopher Hitchens - poderão pensar que se refere o cristianismo para lembrar aquela tirada de Jesus Cristo - com quem termina a Revelação de Deus; que assumiu a história de Deus com Israel, há quem lhe chame uma pedagogia, e que com o judaísmo teve as rupturas violentas que quem ler o Novo Testamento percebe - num caso similar? O "quem nunca tiver pecado que atire a primeira pedra"? Isto perante a mulher adúltera (mas na falta do homem adúltero, que a lei mosaica também condenava) e a turba em fúria?

 

Não, claro que não se vai buscar este episódio. É muito preferível referir o Deuteronómio e as suas penas crueis para os "crimes" mais leves. Isto torna a Bíblia igual ao Corão. Sim, a Bíblia é considerada como um produto humano, com palavras humanas, com a inteligência e conhecimentos humanos, com as condicionantes geográficas, culturais, económicas humanas, e inspirada por Deus, enquanto o Corão é considerado como tendo sido ditado por Alá, mas o que interessa isso? Também: o Deuteronómio foi escrito no sec. VIII a.C. há vinte e nove séculos. Biden-style: deixem-me repetir, há vinte e nove séculos. Dupondt-style: eu diria mesmo mais, há dois mil e novecentos anos. Um tempo em que os valores eram assim ligeiramente diferentes dos actuais (e dos de há já dois mil anos); aliás tão diferentes e bárbaros que o que dita o Deuteronómio era visto como uma tentativa de moderação dos hábitos pré-existentes. Um tempo (como todos, de resto) em que Deus era compreendido com as condicionantes religiosas, culturais, geográficas, históricas, literárias (e outras que nos lembremos) comuns aos povos do Crescente Fértil. No sec.VIII a.C. era na forma hoje arrepiante de partes do Deteronómio que se via um Deus bom. Ler o que foi escrito há vinte e nove séculos com as lentes de 2009 é pura e simples burrice.

 

Para quem não conhece a regra básica para se entender o que está escrito num livro - que um texto não pode ser entendido fora do seu contexto - a minha sugestão seria a de, no que toca a livros, se restringir a Corín Tellado.



publicado por Maria João Marques
link do poste | comentar

Comentários:
De Margarida Pereira a 31 de Outubro de 2008 às 13:20
Excelente indignação.

E nostálgica rememoração da escritora dos livrinhos cor-de-rosa-pálido que consolaram tanta gente, há quarenta anos atrás...


De Maria João Marques a 31 de Outubro de 2008 às 15:04
Corín Tellado era uma senhora?! E eu que que sempre associei o nome ao género masculino. Vou corrigir o "ao".


De Margarida Pereira a 31 de Outubro de 2008 às 15:10
http://es.wikipedia.org/wiki/Cor%C3%ADn_Tellado

Por acaso sei desde sempre, mas agora com esta coisa do 'Google' é uma beleza...

Das sopeiras aos magalas, das meninas de família às outras meninas, toda a gente lia aquilo.
Eu li! Eram giríssimos...
Tudo o que veio depois é uma cópia 'fatela'...


De Anónimo a 31 de Outubro de 2008 às 13:52
Ó querida, adoro sobretudo essa de "qualquer pessoa de bem" ;)


De Miguel Madeira a 31 de Outubro de 2008 às 14:32
"Um tempo em que os valores eram assim ligeiramente diferentes dos actuais (e dos de há já dois mil anos); aliás tão diferentes e bárbaros que o que dita o Deuteronómio era visto como uma tentativa de moderação dos hábitos pré-existentes."

Mas o mesmo não poderá ser dito do Corão (que, por exemplo, limitou a poligamia)?

Claro que o Corão foi escrito só há 1300 e tal anos, mas será uma grande diferença?


De Maria João Marques a 31 de Outubro de 2008 às 15:15
Miguel Madeira, eu não estava a fazer uma diabolização do Corão, mas sim explicar porque as palavras sobre a Bíblia de FC são um disparate.

Há que atender que a visão do Corão pelos muçulmanos é diferente da Bíblia pelos cristãos - um será a palavra de Deus por Deus, outro é a palavra de Deus pelos homens. Mas claro que os muçulmanos têm interpretações do Corão benignas, como é óbvio; e por isso mesmo a aceitação da sharia não é unânime e é vista por muitos muçulmanos como uma proposta legal data e que é revoltante a aplicação no presente.


De essagora a 31 de Outubro de 2008 às 14:35
Muito, mas muito bem.

Faz-me bastante impressão toda essa gente que quer à viva força acreditar que a religião é a fonte de todo o mal, mas nem sempre sei apresentar convenientemente o outro ponto de vista.

Vou guardar este texto para esse efeito.
Obrigado


De Rui a 31 de Outubro de 2008 às 14:57
O Deuteronómio é o último dos cinco livros do Pentateuco com que se inicia a Bíblia. Ou seja na origem do Mundo (Génesis, Exodo, Levitíco, Números e Deuterenómio). Ou seja é uma sintese de toda a "legislação" anterior, que só pode ser compreendida com os anteriores quatro livros. Depois é preciso notar que a autoria dos livros não é só de uma pessoa, que nos primórdios se pensava terem sido escritos por Moises, mas essa é uma ideia errada. Como refere e muito bem, é ma questão de contexto e estes cinco livros reportam ao início da humanidade ( e das relações sociais) e a partir do Exodo sobre a caminhada que leva uma grade número de pessoas para a Terra Prometida. A saída do Egipto de uma caravan tão numerosa não foi, como é obvio nada fácil.
Mas o mais importante nestes cinco Livros não são as punições de Deus, mas sim a fidelidade que Deus pretende, que seja apenas a Deuse se exclua do culto os deuses estrangeiros - Monoteísmo.

mudando de assunto, felicito-a pelos bons textos que tem escrito e partilhado connosco.


De Maria João Marques a 31 de Outubro de 2008 às 16:38
Rui, obrigada. E sim, o AT é sobretudo uma história de fidelidade de Deus e de fidelidade/infidelidade de Israel. Muito bonita a história, por sinal...

Já agora, outra coisa a saber também para evitar confusões sobre a Bíblia é que os livros não estão ordenados pela ordem cronológica.


De Lutz a 1 de Novembro de 2008 às 11:13
«Sim, a Bíblia é considerada como um produto humano, com palavras humanas, com a inteligência e conhecimentos humanos, com as condicionantes geográficas, culturais, económicas humanas, e inspirada por Deus, enquanto o Corão é considerado como tendo sido ditado por Alá, mas o que interessa isso?»
Consxidera-se - quem? A Margarida. O Vaticano. O problema é que nem todos a consideram assim. Claro que as orientações contraditórias na bíblia só se explicam pela sua genese histórica. Mas também´é verdade que há muitos cristãos que consideram que essa contraditioriedade não impede que se a tome literal, e cada palavra palavra de Deus.

Ainda um outro apontamento: A razão porque não se ataca normalmente o budismo, o animismo, o shintoismo e o hinduismo é proque essas religiões têm, entre os defeitos que certamente têm, o grande mérito de não praticarem o proselitismo, muito menos um proselitismo violento.


De Maria João Marques a 2 de Novembro de 2008 às 14:58
Lutz, os católicos podem entender a Bíblia como lhes apetece, como podem os ateus. Não podem é sobrepor-se à interpretação que a Igreja enquanto instituição faz dela. E sendo essa interpretação fruto de trabalhos muito sérios, de grande rigor científico, muito variados entre si, parece-me que têm mais credibilidade que a interpretação da bisavó lá da aldeia.

Além disso, não é verdade que seja maioritária a interpretação da Bíblia literal pelos católicos - de resto recusada com ênfase pela Igreja. Esta leitura literal predomina sobretudo nos protestantes americanos desde o sec. XIX; é por isso que têm estas controvérsias sobre o criacionismo.

Quanto ao proselitismo, está na génese do cristianismo ser evangélico, isto é, ser transmitido a outros. É uma coisa boa, propor aos outros uma religião que nós consideramos uma coisa boa. Não vejo qual é o problema de propor aos outros alguma coisa; se aceitam ou não, é com eles.

Proselitismo violento já é exagero, e deve estar a confundir o cristianismo com outra religião.


De Lutz a 2 de Novembro de 2008 às 19:13
Maria, antes de mais as minhas desculpas por tê-la chamado Margarida!
Tem razão ao insistir na diferença fundamental entre a doutrina da Igreja Católica e a concepção que os fanáticos islamistas, têm das suas escrituras. Não é sério colocar a Igreja Católica ao lado daqueles que apedrejam adúlteras - ou mulheres violadas.
Sem querer fazer aqui a defesa da Fernanda Câncio, chamo a atenção ao facto de que a Igreja Católica não é todo o cristinaismo. Mas a analogia que a Fernanda fez entre aqules que levam as suas escrituras a letra no islão - que não são todos - e no cristianismo - também os há, e não são poucos - existe.


Comentar post

pub
pesquisar
 
linques
blogs SAPO