Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008
Espantoso ou talvez não...
Há oito anos, aquando da primeira vitória de Bush e do polémico processo eleitoral, a intelectualidade europeia e em particular a portuguesa vaticinou o declínio da democracia americana. Achávamos, mais uma vez, que estávamos a dar importantes lições de democracia e cidadania aos Yankees. Puro engano! As eleições da passada terça-feira e a intensa campanha que as antecedeu, demonstraram que quem tem de aprender muito sobre democracia e exercício de direitos e deveres de cidadania somos nós, portugueses e europeus. Estamos a anos luz. Por aqui vivemos acomodados na ilusão de que já conquistámos tudo, de que os políticos são todos iguais, de que nem vale a pena exercer o acto mais básico, mas também mais importante da democracia, o voto. É verdade que a nossa política é, salvo raras excepções, medíocre. Mas essa mediocridade não é mais do que o espelho de uma mediocridade generalizada instalada na própria sociedade. Quando um cidadão não troca umas horas de praia para ir votar, algo está muito errado. Quando mais de 50% dos cidadãos eleitores não votam, significa que a democracia está podre. E o pior é que aceitamos isso com alguma naturalidade. Não há uma atitude pedagógica de elucidação das pessoas para o exercício e valorização dos seus direitos e deveres cívicos. Desde a escola aos meios de comunicação social, é nos incutido um desprezo generalizado pela actividade política e cívica.
Espantamo-nos quando vemos milhões de pessoas (muitas com enormes dificuldades de mobilidade) esperarem horas e horas para exercerem o seu direito/dever (o único acto eleitoral dos últimos tempos em que me lembro disso ter acontecido em Portugal foi nas eleições do Benfica para tirar o Vale e Azevedo); espantamo-nos quando vemos pessoas a chorar de alegria e emoção só porque alguém foi eleito para ser o seu líder. Só?
É de facto espantoso como a democracia mais antiga do mundo moderno consegue ter tanta vitalidade em comparação com outras que têm pouco mais de trinta anos.
Se calhar, lamentavelmente, não merecemos viver em democracia...
Tão importante como a participação eleitoral, ficam as torturas praticadas em Gauntánamo e Abu Grahib.
Quando se vaticinou que a democracia americana ia começar em declínio, essa previsão estava correcta. Uma democracia que recorre às torturas, nega todos os valores mais elevados de uma democracia e da liberdade.
De JPT a 6 de Novembro de 2008 às 15:15
Não existem democracias absolutas. Todas as democracias podem ser criticadas, todas podem ser melhoradas neste ou naquele aspecto. Sempre me irritei com os que recusam qualquer crítica aos EUA ou a Israel, por exemplo, com o argumento que são democracias. Claro que são democracias, e por isso não podemos criticar certos aspectos dessas democracias? O sistema eleitoral dos USA, por exemplo, tem alguns aspectos ridículos e caricatos, apenas compreensiveis por nós, europeus, por razões históricas. O processo contra Clinton foi chocante para qualquer europeu e o McCartismo aconteceu em plena democracia, apenas para dar alguns exemplos.
Por outro lado a falta de participação dos portugueses em actos eleitorais tem a ver com o facto da maioria das pessoas achar que é indiferente votar, porque ou ganha o PS ou o PSD, o que é mais ou menos irrelevante. Ajuda a esta confusão a mentira que se vende que, quando estamos a votar para a assembleia da república, estamos a eleger o Primeiro-Ministro. Esta confusão não existe em sistemas presidencialistas como o americano.
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