Terça-feira, 25 de Novembro de 2008
A ajuda da Segurança Social para o folhetim BPN
"2. Um dos capítulos mais extraordinários da novela tem que ver com as relações entre a Segurança Social e o Banco em causa.
Soube-se que a Segurança Social, através do Instituto que gere as respectivas finanças, teria em depósito (D/O) no BPN qualquer coisa como € 500 milhões…
O Ministro da pasta veio explicar que isso seria natural pois a Segurança Social gere um fundo de maneio da ordem de € 2.000 milhões…
3. Eu direi que isso não é nada natural, bem pelo contrário, pois significa que 25% de todo fundo de maneio da Segurança Social estaria depositado num Banco cuja quota de mercado não chegava a 2%...
4. Como explicar uma tão elevada concentração de depósitos, contra todas as regras da boa gestão disponibilidades – não ter “os ovos todos no mesmo cesto”?
5. Será que o BPN pagava uma remuneração mais elevada que a concorrência? Mas se assim fosse, isso deveria constituir motivo adicional de cautela, desaconselhando fortemente tão grande concentração na aplicação das disponibilidades...Se não, qual a razão?
4. O problema não fica por aqui pois também se soube que, só no mês de Agosto, a Segurança Social teria levantado qualquer coisa como € 300 milhões do BPN – 60% do montante depositado - arrasando literalmente a tesouraria do Banco…como arrasaria a de muitos outros bancos da praça se fossem contemplados com semelhante hemorragia de fundos num prazo tão curto e numa época tão difícil..."
Tavares Moreira, no Quarta República, via O Insurgente
De André Salgado a 25 de Novembro de 2008 às 17:45
Cara Maria João Marques,
Deixo-lhe, como humilde contributo face a um evidente défice de informação e precisão, o mesmo comentário que deixei ao post de Tavares Moreira, no Quarta República.
"Vamos por partes:
1. Como já foi divulgado publicamente, pelo próprio presidente do IGFSS, a segurança social tem contas correntes, para proceder à recepção e pagamento de prestações em diferentes bancos - a saber, são 8.
2. Estas contas correntes correspondem a montantes de gestão de tesouraria, não são aplicações a médio ou longo prazo.
3. A escolha dos bancos correlaciona-se, entre outros factores e não sendo este o menos importante, com a remuneração de curtíssimo prazo que é oferecida por cada entidade bancária.
4. A percentagem dos montantes da segurança social que está em cada entidade bancária tem uma volatilidade significativa de variação mensal e até semanal. Estas variações – e é importante ter isto presente - verificam-se regularmente de banco para banco e de mês para mês, ao longo dos últimos anos. O alegado "levantamento" de 300 milhões - uma falsa questão, não se tratando de um levantamento mas de uma utilização corrente de pagamentos - é algo que não tem nada de extraordinário. Ocorria e ocorre frequentemente, em relação ao BPN e a outros bancos.
5. Posto isto, se a tese que está a agitar tivesse validade, qualquer entidade bancária com montantes da segurança social correria o risco de ter a tesouraria “arrasada” e de falir todos os meses ou várias vezes por ano, o que, atente-se, não sucede. Logo, parece-me estar a inverter-se o verdadeiro cerne do problema: a questão não será qual o contributo da segurança social para a insolvência do BPN, mas por que ordem de razão deveria um banco privado, que foi vítima da sua própria gestão, ser ou deixar de ser salvo por uma operação corrente e habitual da segurança social.
6. É compreensível que a situação de insolvência do BPN provoque incomodidade dentro de um certo arco político – que será o do meu caro Tavares Moreira -, afectando a sua imagem de competência e seriedade. O que me parece de honestidade duvidosa é procurar bodes expiatórios para explicar o desastre da administração do banco, que levou à sua insolvência. A culpa já foi endossada ao regulador, só faltava que o fosse também à segurança social."
Cumprimentos
André Salgado
Caro André, obrigada pelo seu contributo. De modo nenhum se trata de desculpar os administradores do BPN das irregularidades e fraudes de que se suspeita. Mas também não se pode olhar para o lado para a gritante falha de supervisão do BdP, que sim, perante clientes e pequenos accionistas é um grande responsável pelo que se passou.
Quanto à SS, continuo a considerar pertinentes as questões de TM, principalmente porque é uma grande irresponsabilidade ter 25% dos fundos de investimento da SS (e, pelo que li no J Negócios, o valor dos fundos eram os tais 500milhões) apenas num banco. Se tudo isto é normal, que se explique onde foi aplicado o dinheiro e qual o diferencial de rentabilidade que o novo banco ofereceu, ou que pagamentos se efectuaram, porque tudo o resto relativo ao BPN é muito anormal.
Cumps.
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