O Público lá tem hoje, naquelas pueris setinhas da última página, Sócrates com uma setinha para cima. Porquê? Porque (e os detalhes ocupam as páginas 10 e 11 do jornal) vai criar um “centro cultural dedicado à arte africana contemporânea”. Se o Governo anda com muito dinheiro, nada contra. Há, no entanto, um pequeno detalhe que sugere uma objecção: a riquíssima colecção de arte africana do Museu de Etnologia (Belém) está, não sei desde quando, invisível ao público por falta de funcionários – como lá me explicaram quando, há dois anos, a tentei ver - e, talvez, de espaço. Claro que a colecção tem o defeito de ser constituída por peças anteriores ao Magalhães que recentemente demos ao mundo, mas valia a pena que, neste caso, o primeiro-ministro vencesse os seus particulares preconceitos e fizesse as coisas por ordem. Guardadas as devidas proporções, é como se se tivesse uma quantidade de Rembrandts, Memlings e Vermeers empacotados numa cave e se abrisse faustosamente um museu dedicado à obra de artistas contemporâneos que, podendo ser óptimos, não têm um valor e uma riqueza que só o tempo pode atribuir às coisas da arte. Se alguém explicasse isso ao primeiro-ministro numa linguagem que ele entendesse (não sei qual é), era óptimo.
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