Sábado, 13 de Dezembro de 2008
Agarra que é professor

Assistimos nas últimas semanas àquela que foi provavelmente a mais articulada campanha contra os professores. Que os professores são uns malandros preguiçosos que só querem sugar o dinheiro dos contribuintes, já nós sabíamos. Mas agora fomos também informados que estão ao serviço de interesses sinistros, de uma estratégia para perturbar o regular funcionamento do Governo e pôr em causa a melhor ministra da Educação de todos os tempos. Isto para não falar do primeiro-ministro, cruzes canhoto! Qualquer articulista ou blogger que pusesse em causa esta linha de raciocínio lógico foi imediamente contemplado com impropérios e insultos em blogues oficiais e semi-oficiais do socialismo democrático. Incluindo o daquele bendito sr. Abrantes que não faz mesmo mal nenhum que use um nome e um apelido aparentemente verdadeiros para emprestar dignidade ao seu cobarde anonimato - afinal, ele está a defender-se dos inimigos que lhe podem fazer mal.

 

Adiante. A verdade é que os professores - quase todos os professores, pelo menos os que não concordam com o sistema de avaliação proposto - são uns malandros preguiçosos. Os sindicatos são criminosos, a começar pelo manda-chuva da FENPROF, esse autêntico bandido sem eira nem beira. A senhora dona doutora Maria de Lurdes Rodrigues é uma santa que merece as orações dos portugueses, assim como o maior respeito e consideração do país real. Pouco ou nada interessa que uma das bases de qualquer sistema de ensino - a autoridade dos professores - possa ter sido irremediavelmente afectada. Ou que o sistema de avaliação continue a impedir muitos professores de se entregarem à sua função essencial - que era, dizia-se antigamente, ensinar. Sim, o sistema de avaliação não é perfeito - pode até estar pejado de erros - mas o que interessa é a intenção de "reformar". Ainda que a dita reforma não saia dos documentos oficiais do Ministério da Educação  e os professores não a acatem. Mas o que é que se poderia esperar desses malandros preguiçosos, cábulas consumados que só querem sugar o erário público?



publicado por Paulo Pinto Mascarenhas
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Comentários:
De Gabriel Mithá Ribeiro a 14 de Dezembro de 2008 às 01:07
Caro Paulo Pinto Mascarenhas

Evidentemente que as raízes do atraso português são demasiado complexas, mas cada vez mais me convenço que há qualquer coisa de africano-rural em tudo isto. Um antropólogo, Harry West, que estudou as povoações macondes do planalto de Mueda (com «u») do norte de Moçambique descreve a situação de um indivíduo que se sentiu como que excomungado na sua comunidade rural por ter a ambição do sucesso e da acumulação de alguma riqueza. Não só as suas práticas não modelavam os comportamentos dos outros (dominados pelos «depositários da tradição») permitindo-lhes romper com o ciclo de miséria, como esse indivíduo acabou «vítima» desses outros (os que dominam o discurso público). A forma arrogante e altiva como quem tem algum poder na comunicação social olha há muito a condição de quem ensina alegando uma absurda defesa dos «interesses dos alunos» (como se houvesse contradição entre professores e alunos na relação com o conhecimento!) acaba por ter, em Portugal, efeitos relativamente semelhantes. O actual governo incentivou a quase boçalização de hábitos que o seu texto descreve. Basta olhar a impressa (recorrente em alguns opinadores de jornais como «O Correio da Manhã» ou o «Diário de Notícias») para ver como se trata de modo excessivamente abrutalhado aquilo que é complexo e socialmente sensível. Quanto mais brutos nos tornamos, mais brutas se tornam as atitudes de partes das nossas pretensas «elites culturais» face ao professores, fechando um ciclo de miséria que, assim, dificilmente se romperá. É por isso que não vejo diferenças de substância entre as elites-rurais-tradicionais-africanas que Harry West descreve e a parte das referidas elites-urbanas-bem-pensantes-lusitanas-ligadas-à-imprensa enquanto alimentadores da miséria própria e alheia. É a vida…


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