Domingo, 20 de Janeiro de 2008
Big Brother is watching you
A cidade do Porto terá, até ao final deste mês de Janeiro, 17 câmaras de vigilância automáticas, instaladas na zona da Ribeira. Coimbra já está preparada para receber 13, e Lisboa considera a questão com grande receptividade. Dir-me-ão que é algo que já se faz nos outros países, que Londres tem milhares de câmaras (sim, nós em Portugal somos óptimos a importar o que de “melhor” se faz lá fora), e que serve para garantir a segurança dos cidadãos. Não ouvi muita gente a queixar-se, o que me transtornou ainda mais. Parece que o argumento da “segurança” legitima tudo. Mais grave do que tratar-se de um caso isolado, é mais um momento em que o Estado expande a sua área de influência. E já ninguém sabe qual é o limite entre o privado e o público.

A segurança de um Estado é a questão mais básica da sua sobrevivência. Mas é também um instrumento político. Em nome da nossa segurança, é (aparentemente) legítimo o Estado agir do modo que achar mais adequado, mesmo que nos retire certas liberdades. As grandes metrópoles do Ocidente aderiram a este sistema como medida para a prevenção do terrorismo, após o 11/9, e trocaram as suas liberdades individuais pela segurança. Mas isso não significa que Portugal deva seguir a tendência.

Uma república democrática deve garantir a segurança, mas também deve preservar direitos e liberdades individuais. Se o Estado impõe um sistema de vídeovigilância, está simultaneamente a dizer aos seus cidadãos que a sua esfera privada se tornou uma questão “política” e pública. É claro que ter uma câmara a apontar para a esplanada do café onde estamos influencia directamente os nossos comportamentos. Nós aceitamos porque a imprevisibilidade do perigo assim o “obriga”. Mas estamos também a aceitar que o Estado controle o nosso privado, e defina o que é importante ou prioritário para nós. De tal modo que uma piada, em privado, sobre a formação académica do Primeiro-Ministro, levou à suspensão de um professor. A este ritmo, qualquer dia, já não há vida privada e por isso já ninguém terá algo a esconder.

Abdicamos das liberdades para que o Estado assuma as nossas responsabilidades. Ser livre de escolher significa ser-se igualmente responsável por essas escolhas, responsabilidades que temos de encarar com orgulho e dedicação. É que, no meio de tudo isto, a culpa também é nossa. O Estado vê e define tudo, e o povo agradece.

publicado por Alexandre Homem Cristo
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Comentários:
De Luís Lavoura a 21 de Janeiro de 2008 às 10:26
"a sua esfera privada"

Aquilo que se faz na via pública não faz parte da esfera privada. Parece-me evidente.


De Vicissitude a 21 de Janeiro de 2008 às 13:52
"Abdicamos das liberdades para que o Estado assuma as nossas responsabilidades."

O Alexandre tem razão!
Ainda assim, não sei qual é o espanto, ou o Alexandre deixa um rapaz de 6 anos tomar decisões de responsabilidade? Não o mantém sobre vigia?!
É como o nosso Portucale, ainda somos petizes, quando formos gente responsável e independente surgirá a classe que o acha.
Até lá... VIVA SÓCRATES!!!!!



Louis Lavoura sempre astuto, mas os efeitos do que acontece na mesma esfera, seja privada ou pública lesam sempre (falando de latrocínio, extorsões etc) o privado ou não?
Então? Não acha que é "prudente" prevenir vigiando certas áreas de maior incidência criminal?!


De Pedro Barbosa a 24 de Janeiro de 2008 às 09:46
As áreas de maior incidência criminal e que maior rombo provocam nos cofres do Estado são: a fraude fiscal, a burla e o tráfico de influências. E estas não se resolvem com a vediovigilância. Para estas, o "Grande Sócrates" não mostra grande predisposição para resolver.


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