Quinta-feira, 15 de Novembro de 2007
Em busca do ouro negro
"As notícias catastrofistas sobre a redução constante e inevitável da produção de petróleo são manifestamente exageradas. São vários os conceituados académicos que garantem ainda existir ouro negro para dar e vender nas próximas décadas. Razões políticas explicam o alarme"
André Abrantes Amaral, na Revista Atlântico de Outubro.
............
EM BUSCA DO OURO NEGRO por
André Abrantes Amaral Foi Marion King Hubbert, um geofísico norte-americano, corria o ano de 1956, quem previu que a produção de petróleo nos Estados Unidos da América atingiria o seu pico máximo em 1971. As previsões de Hubbert foram bastante criticadas na época, mas provaram-se certeiras. Mais tarde, em 1974, Hubbert fez uma aposta mais arrojada quando anteviu que a produção mundial de petróleo, a continuarem os níveis de consumo de então, atingiria o seu máximo em 1995. A partir daí, a produção cairia ao mesmo nível que tinha aumentado, numa curva linear e bem desenhada que desceria até que acabasse definitivamente.
Desta vez, Hubbert falhou. Errou, na medida em que o consumo desceu ainda no decorrer da década de 70. No entanto, os esforços de previsão do futuro petrolífero continuaram. Entre variadíssimas outras e mais recentes tentativas, surgiu a de Ken Deffeyes, um geólogo que, em 2005, publicou um estudo intitulado “2005’s Beyond Oil: The View from Hubbert’s Peak”, onde afirmou que o pico da produção mundial de petróleo seria atingido no Outono desse ano, mais precisamente no Thanksgiving Day. Posteriormente, emendou a mão e corrigiu a data para 16 de Dezembro de 2005. O que é que se passa realmente? Será que daqui em diante assistiremos a uma redução constante e inevitável da produção de petróleo, ou tal sucederá apenas dentro de uma ou duas gerações?
Num artigo, intitulado “Peak Oil Panic”, publicado na edição de Maio de 2006 da revista Reason, Ronald Bailey tentou dar resposta a estas questões, começando por recordar as previsões catastróficas de outros tempos. Desde 1855, quando se urgiu à compra de um medicamento feito à base de petróleo antes que este acabasse, passando pelas previsões de 1919, em que se previu o fim do ouro negro no ano de 1927..., até à já aludida história dos anos 70.
Há sempre um poço novo…
No aludido artigo, Bailey explica não ser o único que entende ainda existir petróleo para dar e vender nas próximas décadas. Nessa medida, apresenta-nos conceituados académicos como sejam Michael Lynch, Michael Economides e Robert Esser. Este último é consultor da Cambridge Energy Research Associates (CERA) e, a 7 de Dezembro de 2005 (nove dias antes da data fatídica apontada por Deffeys), compareceu perante o subcomité da Energia e Qualidade do Ar da Casa dos Representantes, em Washington, afirmando que “The world is not running out of oil in the near or medium term”. De acordo com a sua análise, a produção de petróleo vai continuar num nível alto durante as próximas três, quatro décadas. Segundo ele as razões para o pessimismo sobre o tema baseiam-se mais em problemas políticos que na insuficiência natural de petróleo.
A comprovar as previsões de Esser, dadas a conhecer em Washington, o Shangai Daily, na sua edição de 8 de Maio deste ano (
http://www.shanghaidaily.com/sp/article/2007/200705/20070508/article_315081.htm.), noticia que o novo poço de petróleo chinês na baía de Bohai atingirá em 2012 a extracção anual de dez milhões de toneladas, um nível três vezes superior ao inicialmente previsto. Esta descoberta não se fica por aqui. De acordo com Jia Chengzao, geólogo da PetroChina Company, é muito provável que, com mais e melhores investimentos, novos poços sejam descobertos na região. Só em 2004 foram descobertos cinco novos poços na área de Jidong. Ainda de acordo com o mesmo jornal de Xangai, espera-se que nestes poços exista um total de 735 milhões de barris, numa capacidade de extracção anual à ordem dos 7.35 milhões.
… e nova vida nos antigos
O New York Times de 5 de Março deste ano
(
http://www.nytimes.com/2007/03/05/business/05oil1.html?ex=1180497600&en=b9f702806c990597&ei=5070), noticiava que o poço de Kern River, situado na Califórnia e descoberto em 1899, tinha sido revitalizado quando engenheiros da Chevron começaram a utilizar uma nova técnica de extracção de petróleo. Do poço é agora possível extrair a quantia de 85 mil barris por dia quando, nos anos 60, só se extraíam 10 mil/ dia. A Chevron, da mesma forma que a Exxon Mobil, tem utilizado a mesma técnica noutros locais. Na Indonésia, o poço de Duri, descoberto em 1941 produz hoje 200 mil barris por dia, quando na década de 80 não passava dos 65 mil.
De acordo com o mesmo jornal, os avanços da tecnologia ao longo dos últimos dez anos têm permitido revitalizar poços antigos que se julgavam sem interesse. Da mesma forma, a subida do preço do petróleo tem incentivado os investimentos que conduziram as essas inovações tecnológicas. Poços que, com os preços baixos seriam abandonados, voltam a ser objecto de interesse.
A estatização dos recursos é um tiro no pé
A descoberta dos novos poços na China, com níveis de extracção muito acima dos esperados, e a revitalização dos antigos, é corroborado em mais um artigo de Ronald Bailey, na mesma revista Reason, desta vez em Janeiro último e intitulado “Political Peak Oil”. Bailey salienta que, apesar de geologicamente falando estarmos muito longe de um ‘Peak Oil’, ou seja, longe de se atingir o limite máximo de petróleo disponível no nosso planeta, não deixa de ser verdade que os preços estão altos, com recordes terem sido atingidos no Verão de 2006. Como se explica esta situação?
Bailey apresenta-nos quatro países como o Irão, a Rússia, o México e a Venezuela que vão sofrer, nos próximos anos, uma forte redução da sua capacidade extractiva de petróleo. Uma redução que – e este ponto é muito importante – não se deve ao desaparecimento do crude disponível, mas à falta de investimento na indústria extractora. Em três destes países (o México é um caso à parte), os governos liderados por homens que pretendem fortalecer o Estado, têm afastado as empresas privadas do negócio da extracção. Na ânsia de enriquecer o Estado à custa do “ouro negro”, homens como Putin, Ahmadinejad e Chávez, querem controlar um negócio de milhões. Essa é a forma encontrada para financiar a compra de armas, chantagear os países vizinhos e fazer valer o seu poder na esfera internacional.
Existe uma interferência da política no mercado que impede estes países de verem ciclicamente renovados os materiais necessários à extracção do crude que os mercados precisam de receber. É esta interferência que tem puxado os preços para cima e financiado o crescimento económico dos já denominados petro-estados. No entanto, todas as opções têm um custo e nas más esse preço pode ser muito elevado.
Quando os preços sobem
Ao nacionalizarem os seus campos petrolíferos, os quatro países mencionados vão assistir a uma diminuição das suas exportações de crude e consequente redução das suas receitas. Ao contrário, Estados que deixaram os mercados funcionar e não expulsaram empresas privadas serão beneficiados por mais investimentos e melhores resultados. Campos antigos estão a ser retomados e locais praticamente abandonados voltaram à vida.
Os teóricos do ‘Peak Oil’ falham por não tomarem em linha de conta os avanços tecnológicos que apenas as sociedades liberais são capazes de prover. Da mesma forma, não compreendem o papel benéfico que é a subida dos preços. De forma muito simples, quando um produto fica mais caro, mais vale investir na sua produção. Com o investimento, aumenta-se a oferta e os preços descem. Simples. Tão simples que só quem pensa em termos da lei do Estado o não percebe.
É aqui que o tiro no pé que foi a estatização desta indústria começa a doer. Com os preços a descer, os petro-estados não ganham tanto dinheiro, compram menos armas, perdem poder internacional e deixam de conseguir disfarçar os problemas internos. Pior: com os preços baixos, deixa de ser rentável investir na modernização das tecnologias à sua disposição, numa espiral de redução de matérias-primas assustadora.
As consequências geoestratégicas a serem retiradas desta inevitabilidade dariam azo a outro estudo. O que não deixa de ser verdade é a observação de Daniel Yergin, num artigo publicado no Washington Post, em 31 de Janeiro de 2005 (
http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2005/07/29/AR2005072901672.html). Este autor de The Prize: The Epic Quest for Oil, Money, and Power recorda, no referido artigo, ser a quinta vez que se anuncia o fim do petróleo. Lembrando que as previsões catastróficas se baseiam em tecnologia com 30 anos, Yergin conclui que estas nos dão uma visão incompleta do futuro. Tais previsões esquecem que, tal como sucedeu no passado, a resposta está na tecnologia e nos avanços feitos pelo homem. Na sua fabulosa capacidade de adaptação e descoberta. Os alertas começam sempre com o aumento dos preços e são esquecidos depois de uma natural descida. É como um ciclo de medo, receios e mitos. A ideia de um fim iminente, do castigo de quem usa os recursos da terra. Porque o medo inspira respeito. Algo que vem dos primórdios do homem e nos acompanhará para sempre.
De Luís Lavoura a 16 de Novembro de 2007 às 14:45
Temos neste artigo uma nova acusação, grave, gravíssima, contra a Venezuela, o Irão e a Rússia: eles não investem o suficiente na sua indústria petrolífera. Pervertidos, sacanas! Então eles são donos do seu petróleo e, em vez de o extrairem com a máxima diligência possível, são relapsos e desinvestem? Isto devia ser proibido, porra!!! Eles têm a obrigação, a obrigação, repito, de investirem nas melhores tecnologias possíveis para extraírem o seu petroleozinho o mais rapidamente possível! Isto não pode ser assim estarem a utilizar tecnologias antiquadas! Os donos do mundo têm que intervir, rapidamente, para pôr cobro a esta atitude relapsa!
De Luís Lavoura a 16 de Novembro de 2007 às 09:54
Tem graça, a Arábia Saudita também tem a sua indústria de petróleo estatizada, há muitos anos, e também compra montes de armas com o dinheiro que o petróleo lhe rende. E outros países do Golfo fazem o mesmo. Por que será que neste artigo só é mencionado o Irão?
De Anonymous a 15 de Novembro de 2007 às 18:49
Não sei se o cenário será assim tão risonho. Claro que não se deve cair em cenários catastróficos, e começar a imaginar uma crise já ao virar da esquina sem provas para isso, contudo acho que não se deva também menosprezar a possivel situação.
É que os defensores do "peak oil" não dizem, nem nunca disseram, que o petróleo está a acabar. Mas antes o petróleo barato, e como se sabe a economia mundial encontra-se viciada nele.
Tudo se resume a por quanto tempo se consegue manter o muito positivo balanço energético da extracção de petróleo.
Comentar post