De Ana Matos Pires a 30 de Novembro de 2007 às 15:48
Não tenho aqui comigo a descrição do desenho do estudo nem das limitações metodológicas apresentadas pela própria APF, quando voltar para Lisboa vou enviar-lhe essa parte do texto, prometo. Relembro, também, que estamos a falar da apresentação de dados de estatística descritiva.
Contudo… o Paulo acredita mesmo que a estimativa e a análise dos dados apresentados pela APF, determinados com as dificuldades metodológicas inerentes à avaliação de uma situação cuja precariedade de informação era absoluta, são o exemplo de uma desonestidade intelectual?
Pergunta-me se acho grave… olhe o que escrevi na altura da apresentação do estudo «A APF fez um estudo sobre o aborto em Portugal. Como médica, como mulher e como mãe agradeço-lho. E agradeço sobretudo porque fez, seguramente com mais esforço e menos meios, aquilo que há muito devia ter sido feito pelo Estado português.
Estudo precário, dizem uns. Eu digo "o possível". Com resultados que não são verdadeiros, não são representativos da realidade, dizem uns. Eu digo "com resultados que pecam por defeito, tivera a APF prolongado o limite superior da idade na amostra estudada!... A pílula é posterior à geração da minha mãe (já passei os 40). Manipulador, dizem uns. E eu, sorrindo, digo "servisse este levantamento de dados outros argumentários (detesto esta palavra, faz-me lembrar as vestes do Papa!) e era ver o seu uso, as fantásticas e mediáticas conclusões "cientificamente" retiradas, tipo "todas as rosas são flores, a minha mãe é Rosa, logo, a minha mãe é flor!
Chega-me este dado: São cerca de 350.000 mulheres que afirmam já ter um aborto. Afinal não é uma "questão residual", pois não? O aborto clandestino existe! O aborto clandestino feito em condições precárias de saúde mata! As mulheres que abortam têm direito a condições de saúde! Como médica tenho responsabilidades ÉTICAS para com estas mulheres! Como psiquiatra afirmo que não existem 350.000 mulheres "taradas" em Portugal!». Mantenho, letra por letra, o que escrevi.
E já que refere “dados e estudos que não são propriamente exactos…”, vamos lá a isso, então.
Sobre o número de abortos notificados em Portugal desde a saída da novo lei, abaixo da estimativa feita à anteriori, talvez valha a pena pensar um pouco e, licitamente, concluir como fez a Shyznogud «Infelizmente os muitos anos de clandestinidade criam "vícios" e ainda hoje, alguns meses depois da lei regulamentada, o bouche à l'oreille ("estou grávida, ajuda-me, conheces alguém...?") continua a persistir. Inevitavelmente haverá algumas - cada vez menos - IVGs que, assim, continuam a não entrar na "contabilidade oficial". Penso que acontecerá em Portugal o mesmo que noutros países... depois de um número abaixo do previsto, haverá um salto para os números expectáveis (que estatística e acriticamente será olhado pelos adversários da despenalização do aborto para proclamar o "aumento exponencial provocado pela lei")»
Quanto ao aumento do número de abortos nos países onde não é criminalizado, vale a pena dar uma olhadela pelo The Economist
http://www.economist.com/world/international/displaystory.cfm?story_id=9989951
Quem fez as contas dos nossos impostos? Quem trouxe corações a bater, sem explicar que a célula miocárdica tem capacidade contráctil autónoma, prévia à formação do coração? Quem veio falar de dor no feto? Quem adulterou os dados do Eurostat? Onde está a entidade nosológica chamada SPA? Onde está a validação do aborto como factor de risco para a esquizofrenia, para a doença bipolar e para a depressão major unipolar (felizmente não vi nenhum psiquiatra nacional a defender tal ideia, nem mesmo os defensores do “Não”)? Onde está a confirmação do efeito do aborto como um dos factores de risco para o cancro da mama? Quem deturpou e retirou de contexto as palavras de Simone Veil “Il est de plus en plus évident scientifiquement que, dès la conception, il s'agit d'un être vivant.” ?
http://www.tvmag.com/jsp/magazine/article.jspx?arId=31501
Quem fez o mesmo com as declarações de Lord Steel?
http://www.guardian.co.uk/uk_news/story/0,,2197850,00.html#article_continue
Quem trouxe para a discussão, fazendo um paralelo demagógico e desonesto, a relação entre a despenalização do aborto até às dez semanas e o “nascimento parcial”? http://en.wikipedia.org/wiki/Partial-Birth_Abortion_Ban_Act
Isto só assim de repente, sem grande esforço de memória, mas há mais…
De Pedro Sousa a 30 de Novembro de 2007 às 09:13
Parva leves capiunt animas.
De
PPM a 30 de Novembro de 2007 às 02:31
Sinta-se confrangida, f.
De
f. a 30 de Novembro de 2007 às 01:47
não são 'propriamente exactos'? em relação a quê? ó paulo, mude de assunto. é que isto começa a ser confrangedor.
Honestidade intelectual, é o ponto. Não incluo a Ana, repare, estou a falar de um argumento que sustentou o debate do aborto e teve certamente um papel fundamental no "esclarecimento" do eleitor. Repito que não ponho em causa a lei actual, como já lhe disse. Limito-me a constatar uma evidência: foram apresentados "dados" e "estudos" que não são propriamente exactos por entidades públicas, organismos do Estado - com o PS no Governo - e instituições de solidariedade social. Não acha que isto é muito grave, Ana?
De Ana Matos Pires a 29 de Novembro de 2007 às 23:01
É preciso mais para quê, para provar a falta de dados epidemiológicos fidedignos pré-despenalização? Para provar que a recolha de informação é difícil numa situação de criminalização? Para provar que a despenalização não teve o efeito pró-aborcionista que alguns apregoavam? Para provar que as mulheres portuguesas, assim no geral, não são taradas? Qual é exactamente o seu ponto, Paulo, diga lá.
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