19
Fev08
De regresso das férias do ano novo chinês
Maria João Marques
Concordo com o Ricardo Arroja: a China tem ajudado a estabilizar os activos financeiros em dólares. (Já não concordo com as culpas dos chineses nas maleitas mundiais, pelo contrário, penso que a China tem tido um importante papel a fornecer ao mundo bens baratos; também é imperdoável levar algo a mal a uma economia cujas empresas escolhem nomes poéticos tipo Xian Long Friend, mas isto não interessa nada. E, já agora, a propósito da "mania da réplica e da pirataria", lembrei-me de um caso de há uns três anos atrás: os Estados Unidos protestaram com mais veemência do que a costumeira contra a complacência das autoridades chinesas com a pirataria de produtos americanos. Os chineses, por uma vez, fizeram-lhes a vontade, investigaram muito, alocaram recursos a este inquérito, colocaram os seus dirty zhangs no terreno e, por fim, prenderam um grupo de norte-americanos que se dedicava à contrafacção em terras dos mandarins.)
Não entendo é a surpresa desta ajuda, visível em alguns colunistas, bloggers (que não o Ricardo Arroja, que por acaso não me pareceu surpreendido) ou comentadores de blogues que pareciam esperar (ou desejar) que os chineses resolvessem vender as suas gigantescas reservas de dólares e provocassem uma desvalorização vertiginosa do dólar e consequente colapso dos mercados financeiros americanos, extinção do Fed, impeachment do Presidente ou outras consequências de igual espetacularidade. Os chineses não são tontos. A última coisa que querem é uma crise grave a afligir o seu grande parceiro comercial que lhe diminua a vontade ou capacidade de importar da China. Por outro lado, desconfio que a desvalorização consistente do dólar não os preocupa muito, afinal os norte-americanos, até há bem pouco tempo, só a ferros arrancavam aos chineses qualquer valorização do RMB face ao dólar.
Fazendo a devida vénia aos lúcidos posts do Henrique Raposo versando "o mundo pós-europeu" e saíndo totalmente do post do Ricardo Arroja, esta questão monetária é ilustrativa da importância que os europeus ainda se atribuem sem perceberem que os seus semelhantes diferem na valorização. A moeda única foi pensada e criada com vários objectivos - que agora também não interessam - e um sonho: o de substituir o dólar como moeda de transacção internacional (enfim, temos que ver que isto se passou há quinze anos e a China ainda não se tinha revelado um tigre tão capaz). Este sonho ainda é partilhado por alguns, que aparentam ser de opinião que uma crise do dólar permitirá ao euro tornar-se a moeda de referência, como se isso fosse do interesse dos países que transaccionam maioritariamente com os Estados Unidos. Entretanto, os chineses dedicam-se a ajudar a estabilizar a divisa que lhes interessa e da qual contam ser herdeiros no longo prazo.
Não entendo é a surpresa desta ajuda, visível em alguns colunistas, bloggers (que não o Ricardo Arroja, que por acaso não me pareceu surpreendido) ou comentadores de blogues que pareciam esperar (ou desejar) que os chineses resolvessem vender as suas gigantescas reservas de dólares e provocassem uma desvalorização vertiginosa do dólar e consequente colapso dos mercados financeiros americanos, extinção do Fed, impeachment do Presidente ou outras consequências de igual espetacularidade. Os chineses não são tontos. A última coisa que querem é uma crise grave a afligir o seu grande parceiro comercial que lhe diminua a vontade ou capacidade de importar da China. Por outro lado, desconfio que a desvalorização consistente do dólar não os preocupa muito, afinal os norte-americanos, até há bem pouco tempo, só a ferros arrancavam aos chineses qualquer valorização do RMB face ao dólar.
Fazendo a devida vénia aos lúcidos posts do Henrique Raposo versando "o mundo pós-europeu" e saíndo totalmente do post do Ricardo Arroja, esta questão monetária é ilustrativa da importância que os europeus ainda se atribuem sem perceberem que os seus semelhantes diferem na valorização. A moeda única foi pensada e criada com vários objectivos - que agora também não interessam - e um sonho: o de substituir o dólar como moeda de transacção internacional (enfim, temos que ver que isto se passou há quinze anos e a China ainda não se tinha revelado um tigre tão capaz). Este sonho ainda é partilhado por alguns, que aparentam ser de opinião que uma crise do dólar permitirá ao euro tornar-se a moeda de referência, como se isso fosse do interesse dos países que transaccionam maioritariamente com os Estados Unidos. Entretanto, os chineses dedicam-se a ajudar a estabilizar a divisa que lhes interessa e da qual contam ser herdeiros no longo prazo.
