Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008
O revisionismo russo

Quando mudam as regras do jogo, a política torna-se mais perigosa. Sai do hábito confortável do dia-a-dia das negociações económicas e comerciais, e passa para aumentos nos orçamentos de defesa e preparação militar. Passa à imprevisibilidade.


Desde o ano passado que o discurso russo parece mais paranóico, acossado, mais soviético. Paga a dívida externa, a Rússia começa agora a apresentar-se como um contra-poder. Discretamente, mas persistentemente, mina quaisquer hipóteses de um acordo com o Irão. Na verdade, deita mais achas para a fogueira, alimentando os receios de um confronto, e ganhando biliões com o aumento do preço do petróleo (120 dólares por barril são muito boas notícias para a Rússia). Face à dissidência política e ideológica da Geórgia, opta por fomentar a secessão da Abcásia e da Ossétia do Sul, propondo relações especiais com as duas províncias no pós-independência (a prazo, ambas as regiões integrariam a Federação Russa, consolidando o espaço vital perdido em 1989). Na Sérvia, leva o Presidente Tadic a dizer que não pode ser menos sérvio que os russos, e portanto tem de seguir a linha irredutível de repressão de qualquer aspiração independendista dos kosovares.


A hibernação do urso já acabou; resta saber como o controlar. Uma segunda guerra fria não é uma inevitabilidade. Há regras para prender esta Rússia à actual ordem internacional, para a integrar. Depois de quase décadas de subvalorização e sobrevalorização do poder russo, talvez seja a altura de o ver como é: com linhas de continuidade, mas dentro de um contexto geopolítico que não repete a guerra fria.



publicado por Ana Margarida Craveiro
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De revoltado a 31 de Janeiro de 2008 às 15:24
Caro Euroliberal,

O facto de ser Europa não implica que a Rússia não tenha intenções hegemónicas sobre a Europa. A Espanha dos Habsburgo, a França e a Alemanha eram países europeus e não deixaram de tentar dominar o continente. Quanto a quem quiser petróleo(e gás) poder comprá-lo, isso é bom, mas não é o que querem a Rússia, a Venezuela, o Irão e tutti quanti. O uso político que fazem desses recursos o prova. Para além disso, a Rússia continua a ser a União Soviética, só que mais traiçoeira. Anatoly Golitsin, que ainda não foi traduzido para o português, nos advertiu acerca da falsa abertura ainda na época do Gorbachev. Agora, eu pergunto o seguinte. O assassinato de Livitnenko, que era cidadão britânico, ainda por cima na Inglaterra, não é um acto de guerra? A Rússia faz o que quer connosco e quando eu falo em armar e defender a Europa de qualquer ameaça sou acusado de querer invadir a Rússia com um cavalo branco. Isso não é um argumento, é uma fuga para a frente. Quem pensa assim, já está derrotado.


De Euroliberal a 31 de Janeiro de 2008 às 16:37
Revoltado, você ainda não percebeu o que se passou na Europa desde 1945. Esse mundo de pretensões hegemónicas, de unilateralismo, de nacionalismo exacerbado, de primado da força, enfim, a ordem vestefálica ou a real politik do passado ACABARAM ! Finish ! Com a UE, a ordem do dia é a cooperação multilateral, o primado do direito, a resolução pacífica dos conflitos. Claro que a Rússia ainda não faz parte da UE. Mas se você soubesse o que foi a II Guerra na Rússia (27 milhões de mortos) não desconheceria que os russos (mesmo no tempo daURSS) NÃO estão interessados em guerras, a não ser defensivas (se tiver que ser).

Essas paranóias são típicas da neoconeiragem e da escória nazi-sionista, que anseiam por um Armageddon apocalíptico...Mas trata-se de meros criminosos de guerra a julgar e pendurar haut et court...

Deixe-se de paranóias. Você está na civilizada UE. Que economicamente é um gigante, maior que China, Russia e India juntas. E o Imperio cóboi está FALIDO com o seu mini-me iSSrael à beira de ser esmagado pela indignação da rua islâmica que levará ao poder um novo Saladino.

Cool meu...


De Luís Lavoura a 31 de Janeiro de 2008 às 16:43
revoltado, que eu saiba, a Rússia, a Venezuela e o Irão têm-se sempre mostrado disponíveis para vender o seu petróleo a quem queira comprá-lo e tenha dinheiro para o pagar. Na pior das hipóteses, o que fazem é escolher entre dois compradores, como acontece no caso da Rússia, que tanto pode vender o seu gás natural ao Japão como à China como à Europa. Mas, desde que haja gás e petróleo, nunca esses países se recusaram a vendê-lo livremente a quem estivesse disponível para o pagar.


De José Carmo a 31 de Janeiro de 2008 às 17:29
"Mas, desde que haja gás e petróleo, nunca esses países se recusaram a vendê-lo livremente a quem estivesse disponível para o pagar."

Claro que não. Dependem completamente desses recursos. Sofrem aliás da conhecida "doença holandesa".
E porque dependem desses recursos ( é aliás notável que a farronca e a gesticulação desses 3 países só surgiu desde que o petróleo iniciou a escalada de preços), têm um interesse vital em manter uma postura agressiva e conflitual.
Para manter os preços em alta.
Se quiser comprovar isto que lhe estou a dizer, faça um cruzamento de dados entre as últimas tímidas tendências de baixa do crude e as imediatas declarações belicosas de dirigentes iranianos, venezuelanos ou russos.

Notará uma peculiar coincidência.
O que é normal...cada um trata da sua vida.
Mas, como disse, a longo prazo é um erro....os consumidores começam a virar-se para alternativas e virá o dia em que Putins, Chavez e aiatolas terão que beber petróleo.
O mecanismo do mercado é implacável.


De revoltado a 31 de Janeiro de 2008 às 17:30
Que eu saiba, caro Euroliberal, a Segunda Guerra começou quando a Rússia e a Alemanha decidiram partilhar e invadir juntas a Polónia. Quanto ao pacifismo e boas intenções russas, isso não passa de ideia new age. Eu prefiro acreditar no que a história me ensinou, e não é boa coisa.
E que coisa é essa de civilizada Europa? Isso a exclui da possibilidade de ser tomada? Não foi por serem civilizados que os gregos deixaram de cair. Não foi por ser economicamente superior que Roma resistiu a bárbaros da idade do ferro ou a China aos mongóis. Não desdenhe dos aspectos militares do mundo. Ainda não vivemos na era de Aquário, e nem viveremos.
E caro Luís Lavoura, é verdade que os países nomeados vendem petróleo a quem queira comprar, não disse o contrário. O que disse é que eles não hesitam em usar o petróleo como arma política e a nossa dependência deles nos torna ainda mais frágeis. As ameaças russas de há dois anos e a sua política externa na Geórgia são dois exemplos disso.
Não tenho a intenção de vencer nenhum debate. Só quero passar alguma informação que julgo ser vital, pois as implicações que a nossa inacção podem vir a ter são demasiado sérias. Talvez esteja incorrecta, não direi o contrário, mas a seriedade do assunto exige que este tipo de debate seja alargado à Europa.
Leiam por favor o site de Jeffrey Nyquist:
www.jrnyquist.com
Portanto, vamos analisar todas as hipóteses sem preconceito, conhecer o status questionis e depois chegar a conclusões. Garanto que ninguém ficará burro ou perderá muito tempo por causa disso.


De revoltado a 31 de Janeiro de 2008 às 17:40
Euroliberal,

Só queria dizer mais uma coisa. Estou de acordo com o que dissestes em relação aos russos não quererem guerras. Quem está disposto a arriscar a vida de milhões dos seus e de outros pela hegemonia são os seus líderes. Se assim não fosse, não estariam desenvolvendo novas armas de ataque que visam quebrar o actual paradigma da guerra sob o qual se baseia o equilíbrio de poder. Talvez esteja enganado, mas o Putin faz as suspeitas parecerem mais reais.
Prometo que não mais escreverei comentários para este post. Já disse o que tinha a dizer e está na hora de deixar outros escreverem.
Um abraço.


De José Carmo a 31 de Janeiro de 2008 às 12:45
Ana Margarida, a alma russa continua marcada pela herança de Pedro o "Grande".

E a sua agressividade tem o tamanho da sua riqueza.
Que é, nos tempos que correm, função directa do preço dos hidrocarbonetos.

Apenas isso.
Por isso, interessa à Rússia, ao Irão e à Venezuela, absolutamente dependentes do preço da "spice", manter um nível de conflitualidade geopolítica que assegure os preços em alta.

Claro que a longo prazo o tiro acaba por lhes sair pela culatra, porque os pagantes começam a alterar paradigmas.
Mas o futuro a Deus pertence e no imediato, vamos ter de aturar estes petrotiranetes.


De revoltado a 31 de Janeiro de 2008 às 13:00
O Euroliberal tem razão em relação às novas armas russas. Eles aproveitaram o triunfalismo ocidental para desenvolver discretamente novos sistemas de mísseis, radares, aviões, navios, submarinos. Graças aos nossos capitais e tecnologia disponibilizados na última década, hoje estamos atrás em muitas áreas. Agora começam a produzir o que desenvolveram em massa. O estudioso Jeffrey Nyquist tem advertido os especialistas americanos acerca do carácter ofensivo da estratégia russa, aliada à chinesa, mas na Europa do soft power estamos a dormir. Todas as previsões do ex-KGB Anatoly Golitsin estão a ser comprovadas pelos factos. A estratégia deles é de longo prazo e se baseia na desinformação. O objectivo é a vitória e a supremacia, e não lhes falta inteligência, coragem e determinação.
Já ao ocidente, falta tudo isso e abunda o hedonismo covarde que pode vir a fazer de nós a presa mais apetitosa de toda a história.


De Euroliberal a 31 de Janeiro de 2008 às 14:39
Errata: o petróleo... e não o dólar, é claro...


De Euroliberal a 31 de Janeiro de 2008 às 14:38
ò revoltado, se você quiser partir à espadeirada no urso russo, como se ainda estivéssemos na guerra fria, monte no seu cavalo branco e vá sozinho. Os europeus não estão nessa. A Rússia é Europa, não pretende invadir-nos e é até bom que o terrorismo neo-coneiro seja contido. As aventuras cruzadas no Golfo Pérsico vão terminar em breve. O pacto de Xangai e os países islâmicos asegurarão a ordem e a paz nessa área. Quem quiser petróleo, pode sempre comprá-lo. Os árabes não o querem beber... e esta histeria neo-coneira só beneficiou os produtores de petróleo. Quando o Macaco chegou à Casa Branca, o dólar estava a 25 dólares, agora anda perto dos 100. Então os EUA eram uma grande potência, hoje são um ex-império humilhado, derrotado e falido...Vivó Bush !


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