Sexta-feira, 14 de Março de 2008
1984 - nós e os outros

Quando começaram as manias higienistas e da saúde, chamaram-me de velho do restelo. Que toda a gente sabe onde estão os limites, e que é "pelo nosso bem". O pior argumento que me podem dizer. A dada altura, estava cheia de vontade de começar a fumar, na minha fúria irracional contra fundamentalismos do pulmão cor-de-rosa. A carteira falou mais alto que o prazer estético de fumar tranquilamente.

Agora, são os piercings e as tatuagens. Uma sociedade bonita e saudável não tem coisas dessas, símbolo de uma qualquer degradação e acto tresloucado. Só posso assumir que os critérios sejam estéticos, e que o partido maravilha do jogging nos quer todos iguais, porque é idiota demais dizer que um piercing na língua é um risco de saúde pública.  Aliás, idiota idiota é a comunicação por escrito dos riscos de tatuagem ao consumidor para ter um período de reflexão. Eu nem sei por onde pegar. Está aqui, no Público. 



publicado por Ana Margarida Craveiro
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Comentários:
De bloom a 14 de Março de 2008 às 16:45
obviamente, qualquer acto que implique meter um objecto metálico num corpo humano é um risco para a saúde pública e deverá, enquanto tal, ser regulamentado. Já quanto à proibição, não estou de acordo, excepto quanto a tatuagens do emblema do Benfica, que deveriam ser, não só proibidas, mas passíveis de pena de prisão ou, vá lá, de multa.


De Miguel Madeira a 14 de Março de 2008 às 19:51
"obviamente, qualquer acto que implique meter um objecto metálico num corpo humano é um risco para a saúde pública"

Não - é apenas um risco para a saude individual de quem põe o piercing (penso que as infecções criadas por piercings raramente são contagiosas)


De Augusto Emilio a 14 de Março de 2008 às 21:00
Todo e qualquer agente que provoque uma diminuição da saúde na população é objecto de saúde pública.
Ex: cancro da mama, acidentes de viação, obesidade, hepatite,, gripe.

Bem-haja!


De Augusto Emilio a 14 de Março de 2008 às 17:33
Mais uma evidência da redução da liberdade por parte do socialismo galopante, foram duas (pelo menos que eu me tenha deparado) só no dia de hoje. A proibição dos ferrinhos e a dos cães.

A primeira, mesmo que de estética questionável, intervém na escolha de como cada um enfeita o seu corpo (há maquilhagens piores). A desculpa da saúde pública resolve-se com material esterilizado e condições de higiene, regulamentadas. Ou é risco maior furar uma língua do que crianças no ventre.

A segunda, vem proibir a nossa escolha no que toca ao melhor amigo que queremos. Reduzem-se sete raças de cães, ao invés de fiscalizar a identificação regulamentada e punir criminalmente os mentecaptos que os treinam para matar. Quando à falta destas escolherem outras…proíbe-se.

Bem-haja!


De ze maria a 14 de Março de 2008 às 18:40
sr augusto emílio,

não compare alhos...com cenouras. se é verdade que ambos são vegetais, as semelhanças esgotam-se aí, salvo alguma parecença nutritiva que desconheça.

claro que ambas as medidas podem à partida limitar liberdades individuais. agora, comparar a proibição de ter piercings na língua com outra de criar e reproduzir cães tão queridos, e melhores amigos do homem, como rottweillers ou pitbulls, é outra. talvez sejam sintomáticas de algo mais grave, mas o alcance de uma, e de outra, são completamente distintos.

li já alguns textos onde se aponta que esses cães não são agressivos, muito pelo contrário, são dóceis, bastando para tal efeito que sejam treinados adequadamente. aí reside precisamente a falácia do argumento: não se eduque o cachorro (nem para atacar, nem para ser manso), e o mais provável é que alguém se magoe. o simples facto de eles terem de ser educados para não fazerem mal a ninguém, é sintomático. não se eduque um labrador, e o máximo que pode acontecer é um tapete mijado.

cutting things short, ao passo que na questão dos piercings, não se sai do campo da liberdade do agente, na dos canídeos, mexe-se -e de que maneira- com liberdades alheias. valerá a pena, para satisfazer umas quantas pessoas que gostam de cães...agressivos, criar entidades fiscalizadoras (com o inevitável gasto de recursos públicos que isso acarreta) e mecanismos de constante vigilância e supervisão da criação das referidas raças? aliás, para que é que é preciso isso tudo, se eles são tão calminhos...

pessoalmente, não me faz confusão a segunda proibição. já a primeira, dos piercings, é digna de um verdadeiro regime ditatorial.


De Augusto Emilio a 14 de Março de 2008 às 19:35
Caro sr. Zé Maria

Eu entendo a sua separação de águas, até porque a proibição dos “piercings” passa pela privação de uma liberdade que não interfere com os outros (a não ser estética, que penso ser bem mais civilizada que física). Se me der a mim a escolha entre as duas proibições, obviamente escolhia essa uma vez que não pretendo algum dia submeter-me a tal procedimento. Mesmo que não tenha preferência por nenhuma das raças em questão, não gostaria que me fosse vedada essa escolha. Porém, concordo consigo, que não há justificativa para proibir os adornos e que o caso dos cães possa ter algum fundamento.
Teimo em apartar-me da noção, de que “a minha liberdade é melhor do que a tua”, e defender ambas como uma perda despropositada, e ver nestas proibições uma imposição ditatorial

Quanto a raças, obviamente há mais energéticas, ágeis, ferozes e com maior propensão para a violência. Tenho conhecimento de raças “dóceis” que “comeram” a cara do dono, “violentas” bem educadas, ou que por ausência de supervisão passeiam pela praia tranquilamente sem incomodar ninguém. Se incitar a bestialidade qualquer cão é um lobo. Consultando um bocadinho de história canina, pode verificar que foram as características atléticas e o fenótipo particular, que tornam estas raças apelativas para quem entende treiná-las como arma.

Quanto à fiscalização, parto do principio já referido que todos os cães podem ser um problema para as pessoas, pelo que deve ser exigido e fiscalizado, perante a lei em vigor, que todos possuam identificação, sejam acompanhados pelo dono, e em caso de infracção, seja aplicada a respectiva penalização. Em caso de ataque, defendo que o dono seja processado criminalmente, num quadro que os especialistas em direito achem adequado.

A polícia, até que mude, é normalmente quem fiscaliza o cumprimento da lei. E se há tempo e dinheiro para fiscalizar o chouriço que não fez mal a ninguém, ou assegurar que o condutor trôpego ou azelha não ponha em risco a vida dos outros, também o deve haver para os donos de animais.

Faz-me tanto sentido como proibir carros que dêem mais de 120 km/h.

Bem-haja!


De ze maria a 14 de Março de 2008 às 22:47
colocar ambas as proibições no mesmo saco pode ser pernicioso, apesar de ser inequívoco que se tratam de proibições, proibições essas que devem ser, senão a ultima ratio, pelo menos evitáveis num modelo democrático e liberal.

sem querer entrar num debate sobre especificações caninas, até porque não conheço suficientemente bem a matéria para sobre ela me debruçar, queria apenas deixar claro - e se estiver errado agradeço que me corrija - que me parece que as raças mencionadas têm uma predisposição para comportamentos agressivos - claro que há pitbulls mansos, assim como há caniches terríveis, mas julgo não estar longe da verdade se disser que são a excepção.

isto retirado do blog maquinazero:

"Nos EUA, entre 1965 e 2001 foram registadas 431 mortes devido a ataques de cães. 79 % das vítimas eram crianças com menos de 12 anos. 34 % dos ataques foram de Pitbulls e Rotweilers. Só no Estado do Texas, em 1997, foram registados 620 ataques de cães. Chow Chow, Rotweiler e Pitbull estão no topo da tabela dos ataques. Em 2005, morreram 29 pessoas, vítimas de ataques de cães, nos EUA. Estatísticas mais recentes (1979/1998) mostram que as cães (puros e arraçados) das raças Pitbull, Rotweiler e Pastor alemão foram responsáveis por 68,7 % das 238 mortes verificadas naquele período de tempo. Nesta pesquisa, apenas encontrámos um caso de morte provocada por um cão de pequenas dimensões, um Lulu da Pomerânia que matou um bébé de mês e meio."

os argumentos utilizados pelos defensores desse tipo de cães acabam por virar-se contra eles, sobretudo o típico "desde que lhe seja dado o carinho e a educação que o cão precisa". existe um risco potencial enorme, susceptível, e provável, de tornar ineficiente qualquer tipo de fiscalização.

já no final, refere que se a polícia "perde tempo e dinheiro" com chouriços e azelhas, também o pode fazer nestes casos. sugiro-lhe que veja a questão de outro prisma: se em tantas áreas da sociedade é pedido mais policiamento, fará sentido afectar uma força policial ao controlo dos caprichos - não inofensivos, ao contrário dos piercings, se excluirmos o plano estético - de umas quantas pessoas, controlo esse de exequibilidade, no mínimo, duvidosa?


De Augusto Emilio a 15 de Março de 2008 às 07:42
Os números revelam apenas que são os cães dessas raças os responsáveis pelos ataques. Nada de surpreendente. É exactamente pelas suas caracteristicas que são escolhidos para o efeito. Continuo a dar preferência à liberdade.

Se não se fiscaliza e não se garante o seu cumprimento, não vale a pena fazer leis. E há muito policia de giro que pode ir verificando no seu turno.

Bem-haja!


De tácito a 14 de Março de 2008 às 23:31
Higiénização homogenea radical e total da sociedade,através do indíviduo.
Hitler no seu melhor.


De bloom a 15 de Março de 2008 às 09:51
uau... já cá faltavam as acusações de nazismo por se proibirem os piercings na língua...


De KLATUU o embuçado a 18 de Março de 2008 às 01:18
Republicanismo rural e fascismo verde, neste caso, rosa!


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