Sábado, 22 de Março de 2008
Resposta a um pedido de informação
No Zero de Conduta, Pedro Sales pede-me que lhe revele onde descobri uma “monumental «cacha»”: a de que, antes do início da guerra do Iraque, os serviços secretos alemães e franceses (e, de resto, os russos também) acreditavam que Saddam possuía armas de destruição maciça. Não estou nada disposto a discutir a questão do Iraque no blog: nem o formato do post se presta a uma discussão séria nestas matérias, nem ando com muito tempo livre. Mas, apesar de, desde que mudei de casa, não ter ainda aberto os caixotes com os meus dossiers da época (onde guardo informação mais detalhada), uma rápida pesquisa na net permite-me desde já satisfazê-lo. Por ordem cronológica: Michael Smith, “Proof of Saddam’s illegal weapons is on the way”, Daily Telegraph, 29/05/03; Kenneth Pollack, “Everybody thought Saddam had bombs”, International Herald Tribune, 21/06/2003; “Why intelligence got it wrong about WMD”, Daily Telegraph, 10/07/04. Se quiser um pequeno sumário de vários casos clássicos de erros dos serviços de “inteligência” nestas matérias, pode ler um artigo de John Keegan (que, de resto, dedicou um óptimo livro, Intelligence in War, à questão): “Inquiry is pointless – intelligence is always open to interpretation” (Daily Telegraph, 03/02/04). E, se quiser levar a sua curiosidade a patamares aos quais não creio que a queira levar, pode ler, sobre a questão da discussão das ADM, o Capítulo I do livro que escrevi em conjunto com Fernando Gil (e que não é, de resto, um livro sobre a guerra do Iraque), Impasses, onde aprenderá, se quiser, que o próprio Hans Blix – irrespectivamente das suas posições posteriores – acreditava, à data, na existência das tais ADM. Como disse acima, não quero entrar, por falta de tempo e inconveniência do meio, em discussões sobre a guerra do Iraque. Estou só a fornecer uma informação que me foi pedida.
De anónimo a 22 de Março de 2008 às 10:56
Paresce que nenhum quer comentar o post do Sr. Tunhas. Eu tampouco. Alguém que tente borrar este post enviado contra minha vontade...
Algo assim, neste mesmo paradoxo andam ainda algúns pros-guerra iraquiana.
Nao estou a falar dos recalcitrantes que ainda sim tem algo que ganhar (e estao ganhando) com aquela guerra, que devem ser pouquichitos e contadinhos!
De
Lidador a 22 de Março de 2008 às 12:37
O PT tem razão, como é evidente. Instalou-se um mito urbano que consiste basicamente numa versão do "eu bem disse".
Na verdade a discussão na altura não era sobre as armas e os programas de Saddam ( que as tinha, estavam documentadas e declaradas e nunca fez prova cabal de que já as tinha destruído, como alegava) mas sim sobre a melhor forma de o obrigar a isso.
Os "iluminados" de agora, contam com a fraca memória e a forte ignorância, para se gabarem a eles mesmos de ter estado do "lado certo".
E para o fazer, decretam aqui e agora o fim do episódio. Não sabem como o Iraque estará daqui a 10 minutos ou daqui a dez anos, mas eles já sabem que irá estar "pior".
São como o Zandinga. Têm 50% de hipoteses de acertar.
Se estiver pior, tê-los-emos aí a vangloriar-se dos seus fantásticos dotes analíticos.
Se estiver melhor, tê-los-emos, azedos e complacentes consigo próprios a dizer que o pior ainda está para vir e que, de resto, estaria melhor se o" Bush e o Blair" e a "fotografia da guerrrrrra" etc, etc.
Porque estes zandingas tontos estão-se nas tintas para o Iraque.
O seu móbil é outro....sempre foi.
E quando se é do Benfica, os pénaltis contra são sempre mal marcados.
De Lúcio a 23 de Março de 2008 às 12:43
Dedudo pelas palavras que aqui encontro que os cavalheiros, para além de acharem completamente justificadas as razões que estiveram na base desta guerra, (sobretudo no contexto que para elas montaram e que milhões de pessoas, antes e agora, denunciam e denunciaram por aquilo que era, uma «montagem»), também defendem que numa putatita realidade paralela, se a guerra não tivesse sucedido, o mundo estaria pior. Isto, claro, na putativa realidade paralela que não se permitiu existir e sobre a qual, portanto, é tão válida a asserção de que o mundo estaria pior como a sua contrária.
E, no entanto, é sobre essa «inquestionável» realidade paralela que se desenvolve toda a tese dos cavalheiros. Ela tudo permite, os arautos da desgraça de 2002/2003 são ridicularizados, pois não só estavam enganados então, como o continuam a estar agora, o sangrento pântano iraquiano é um mal menor, que em breve florirá em paz e harmonia entre os homens democráticos e de boa vontade. Ora tudo isto foi é e será bom, sobretudo quando comparado com a realidade paralela, essa sim terrível, embora completamente virtual.
Para além disso, verifico ainda que até há quem defenda que, dentro de 10 minutos ou dez anos, a realidade será outra (presumo que o salto para essa realidade futura não parte da realidade paralela, mas da realidade que nos entra pelos olhos dentro via meios de comunicação social, aquela que sendo um mal «menor» não deixa de incomodar e fornecer lenha para a fogueira dos pacifistas fanáticos), pelo que é totalmente irrelevante analisar a situação presente e o contexto do passado próximo que esteve na base do conflito, a não ser, claro, para fazer a sua apologia, já que aí, aparentemente, os amanhãs que se cantam para daqui a 10 minutos ou daqui a 10 ou 100 anos tudo justificarão, inclusive a matança de centenas de milhares de pessoas e o sofrimento de milhões.
Nada que surpreenda, portanto. Já Estaline dizia que um morte era uma tragédia e um milhão uma estatística. Mas gostei de ler. Como diz o outro, só podemos combater a irracionalidade quando com ela somos confrontados.
http://ventosueste.blogspot.com/2007/12/toda-gente.html
Cavalheiro,
Gosto particularmente de um artigo escrito pelo Christopher Hitchens, na Slate, em 2007, sobre a questão das WMD. Dê uma lidinha aqui:
http://www.slate.com/id/2162157/pagenum/all/#page_start
Uma excelente Páscoa para os senhores da Atlântico, pois sim?
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