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blogue atlântico

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03
Abr08

Entretanto, voltamos todos ao mesmo

André Abrantes Amaral


Ao ler a crónica de ontem de Rui Tavares, intitulada ‘Entretanto, o tempo mudou’, sobre os malefícios do capitalismo e as benesses de certa regulamentação estatal da economia, lembrei-me do livro ‘The Roman Revolution’ de Ronald Syme. Nesta obra, escrita em 1939 (quando o pensamento fascista ainda vingava na Europa), aquele ilustre historiador, procurou demonstrar terem sido os aspectos nocivos da República que conduziram à ditadura dos Imperadores.

Para Syme, por volta de 60 antes de Cristo, também ‘o tempo mudou’. No seu entender, Roma, parecendo esquecer todo o sucesso dos anos anteriores, fartou-se das guerras civis, da instabilidade, conspirações e preferiu a certeza do homem forte.

O texto de Rui Tavares é um pouco sobre essa mudança de atitude. Claro que não põe em causa a democracia. Isso seria demais. Prefere o ataque à economia de mercado, na medida em que, nela, as decisões são tomadas por uma maioria difusa e irreconhecível de seres humanos que nunca poderemos castigar. À falta de um culpado tangível, critica-se o sistema, apesar dos sucessos dos anos anteriores.

Rui Tavares conclui que o tempo mudou. Não é verdade. O que mudou foi o surgimento da insegurança que conduz à tentação da ordem. Uma ordem que se reconheça, se possa premiar e, mais importante ainda, culpar.  

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