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blogue atlântico

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14
Abr08

Ainda sobre a ASAE e o SNOB

Laura Abreu Cravo

Um conjunto de cidadãos tentava vencer o tédio das sextas-feiras à noite desafiando as leis do funcionamento cardiovascular ao número 178 da rua do Século. O caro leitor não percebeu? Nós clarificamos: na sexta feira passada, a horas impróprias e moralmente reprováveis, um grupo de estropiados sociais reunia-se para consumir substâncias potencialmente causadoras de uma miríade de maleitas, qual poço da morte das doenças coronárias. Ainda nada? então retrocedamos e recomecemos:

Na passada sexta-feira, um determinado grupo de cidadãos fazia o que habitualmente faz no sítio que escolheu frequentar. Como de costume, naqueles dias da semana, a mesa 10, à entrada, acolhia jornalistas e um conjunto de outras pessoas não menos viciosas que consumiam bifes hiper calóricos, whisky insidioso, cervejas de vida perdida e amendoins altamente duvidosos. Só assim se percebe a entrada parcamente discreta de um batalhão de membros da ASAE — que quase ultrapassava o número de frequentadores do pernicioso restaurante-bar.

Aparentemente, aquele conjunto de pessoas, à uma e meia da manhã de sexta-feira, inspeccionou documentação societária e contabilística, saídas de emergência, casas de banho, esfregões de louça e tampas de tupperwares. A turba indisciplinada dos frequentadores habituais sentiu-se invadida e exigiu explicações aos guardiães dos bons costumes; os ânimos exaltaram-se e os jornalistas recorreram às armas que tinham: as máquinas fotográficas dos telemóveis. Uma senhora loura e bastante estridente bradava à defesa do seu direito à imagem — note-se, enquanto desenvolvia uma actividade num local público, ante jornalistas que se preparavam para documentar um caso concreto ao abrigo do que lhes é permitido pelas respectivas carteiras profissionais em vigor— (direito esse no qual devia ter pensado seriamente antes de permitir que lhe aplicassem aquela coloração ao cabelo) enquanto um verdadeiro pedagogo tentava convencer os selvagens habitués que estava a protegê-los de si próprios, tão carecidos que estavam de um sistema que, paternalmente, os poupasse às atrocidades auto-inflingidas.

Não questiono da necessidade de separar o trigo do joio e, de alguma forma, garantir ao consumidor o acesso esclarecido aos elementos que lhe permitam formar a vontade de frequentar determinado restaurante. Assim, não excluo sequer da necessidade de inspecções sem aviso prévio que permitam pôr a nu situações de perigo para a saúde da comunidade frequentadora. Mas não pode faltar bom senso quando uma trupe de 8 ou 10 pessoas invade um bar à uma e meia da manhã para conferir facturas, certidões de registo comercial e contratos de trabalho ou descontos para a segurança social. Este tipo de controlo pode e deve ser efectuado a instâncias próprias, sem perturbação do normal funcionamento das casas inspeccionadas. Que a ASAE pretendesse conferir da qualidade do bife (aliás, irrepreensível) do Snob, verificar da bondade da bebida (interessante conceito) ou dos sistema de extracção de fumo (aliás comprovada pelo cigarro aceso do representante de Segurança Social incluído no grupo), nada contra. Desde que o faça sem alarido, sem afastar clientes do balcão e paralisar a cozinha, sem bloquear acessos à casa de banho e o fluxo de copos que matam a sede de quem conscientemente decide, a cada dia, que uma vida saudável é aquela onde o cidadão é tratado como um ser consciente e dotado de faculdades cerebrais e motoras que lhe permitam dispensar o paternalismo bacoco.

Não podemos, contudo, deixar de apontar um sinal de evidente (r)evolução da instituição, trazido pelo momento da saída (já descrito pelo Paulo) em que uma das educadoras resolveu despedir-se dos seus protegidos com um gesto de carinho, aquele, de dedo em riste, tão conhecido de qualquer frequentador de locais pupularuchos, esses mesmos que a ASAE quer riscar do mapa.

3 comentários

  • A GNR-BT não nos faz gestos obscenos com os dedos, nem assina comentários anónimos com nomes semelhantes aos de quem escreve. Vergonha devia ter você.
  • Laura Abreu Cravo, é verdade, não eram 8 a 10. Contados, todos juntos, à saída, eram 12. Houve dois que já lá estavam dentro.
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