Quinta-feira, 17 de Abril de 2008
Biotech e a "esquerda"

A propósito deste post scriptum do João Galamba, sugerindo que o argumento que defendi na abordagem da biotecnologia (entre trocas de argumentos com o Henrique) é próximo da esquerda política, quero deixar dois pontos:

(1) O objectivo de toda a argumentação é questionar, hoje, aquelas que poderão ser, amanhã, as consequências do uso da biotecnologia para o homem e para a sociedade política. É certo que a discussão poder-se-ia limitar às questões de ética e de alteração da natureza humana, mas o ponto foi, sobretudo, descobrir se essa alteração da natureza humana constituiria um perigo para a democracia liberal. Assim, o argumento/ cenário que tentei explorar era um em que os indivíduos passariam a ter opção de escolha sobre a sua própria natureza humana (escolhendo as suas características), e que por se tratar de uma escolha livre, poderiam ser responsabilizados e julgados moralmente por essas escolhas (se por exemplo não aproveitassem ao máximo a tecnologia disponível). Em última análise, e se todos se alterassem livremente, a ligação comum entre os homens desapareceria com a alteração da natureza humana. Ou se torna imoral não aproveitar ao máximo a tecnologia, ou o uso da tecnologia quebra os limites da natureza humana de tal modo que deixa de haver um ponto de referência moral sobre o certo e o errado. Julgo que tal cenário constituiria, de um ponto de vista teórico, uma forte ameaça à democracia liberal, cujo pilar é o reconhecimento da igualdade dos homens e do direito natural. Seria ameaça suficiente para que o homem necessitasse de se reordenar politicamente? Julgo que não, pois dificilmente chegaria a tal situação. Uma solução prévia seria o direito internacional limitar certos usos da biotecnologia.
Enfim, o cenário apresentado não é uma posição pessoal. É um cenário que serve essencialmente o propósito de colocar as questões correctas, para garantir que o uso imprudente destas tecnologias não nos conduz à destruição daquilo que prezamos. Ser ou não de esquerda (e não me parece que o seja, pois está muito longe da visão igualitarista do comunismo final; quanto muito o argumento permitiria uma visão da sociedade centrada numa lógica de conflito) é absolutamente irrelevante.

(2) O argumento mais óbvio para a esquerda política, a meu ver, seria um cenário com uma biotecnologia liberalizada a que todos, ricos ou pobres, tivessem acesso, e no qual os ricos não pudessem aceder a uma tecnologia melhor (e portanto mais cara). Aí, e como se pressupõe que os indivíduos quereriam ter o melhor possível para os seus filhos, e que o funcionamento de uma sociedade concorrencial obriga a certo tipo de capacidades, seria possível o nascimento de um padrão de alteração genética, tornando os homens iguais em muitas das características do seu código genético – aquelas que todos concordassem ser importantes para o sucesso pessoal. Qualquer falha facilmente seria corrigida com a utilização de fármacos, por exemplo, para induzir a solidariedade social.
É o argumento que assume que se o comunismo final não está adaptado à natureza humana, então que se mude a natureza humana para que se adapte ao comunismo final. E por mais absurdo que pareça, não tenhamos dúvidas que já existem por aí maluquinhos a esfregar as mãos.

Several conservatives, for example, have recently made the argument that biotechnology is a form of ideology akin to communism or libertarianism—an ideology, like these others, that obscures the truth about human beings. The concern is that biotechnology distorts the distinctively human. It does so both by the utopian hopes it fills us with, and, unique to biotechnology, by the actual effects it has on us directly through its applications. (Adam WOLFSON, Why Conservatives Care About Biotechnology)



publicado por Alexandre Homem Cristo
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Comentários:
De livra a 17 de Abril de 2008 às 02:28
Tanta inutilidade junta. Ainda se dizem "engagés". Engajados ou masturbadores do ego?


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