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blogue atlântico

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15
Jun08

Vida macaca

Atlântico

por João Pereira Coutinho

Divórcios unilaterais? Nada contra, partindo do pressuposto de que, desfeita a relação, o casal devolve os presentes de casamento que os otários ofereceram na maior ingenuidade. Estou cansado de enfiar dinheiro em “listas” longamente elaboradas que começam a ganhar contornos de roubo institucional. Mas posso levantar uma objecção, não aos divórcios, mas aos “casamentos unilaterais”? Há vários anos que leitoras inflamadas casam comigo sem que eu tenha nada a ver com o assunto


POSSO CONFESSAR O MEU APOIO A HIASL? Muito obrigado. Caso não saibam, Hiasl é um chimpanzé australiano que, aos 26 anos, viu o seu caso ser levado a tribunal por uma associação qualquer. A associação deseja a liberdade para Hiasl, hoje num jardim zoológico, e por arrastamento a elevação do símio ao estatuto de humano. O caso é interessante e, mais do que interessante, inteiramente justo: se já existem seres humanos que desceram ao nível dos primatas (conheço vários), por que motivo não devemos receber certos primatas no clube da nossa espécie? Hiasl, segundo parece, revela inteligência mínima para tarefas básicas, como construir pequenos artefactos e entender um texto de complexidade básica (um génio quando comparado com as nossas crianças do primeiro ciclo). É asseado (ao contrário dos nossos adolescentes) e, segundo os veterinários, revela uma “inteligência emocional” que, se não me engano, é requisito número um nas habituais exigências femininas (ler revistas especializadas). Aliás, se Hiasl entra no clube, não há nenhum motivo para lhe negarmos certas prerrogativas, como casar e constituir família. O problema, claro, é saber o que será de Hiasl se, impedido de verbalizar descontentamento doméstico, lhe for negado o direito ao “divórcio unilateral”, como a nossa esquerda pretende. Isto coloca a noiva (humana de origem) numa situação de vantagem sobre o noivo (humano por convenção). Que fazer? Talvez a solução passe por garantir a Hiasl alguma amplitude comunicacional que passe, não por palavras, mas por actos. Esmurrar a noiva será concerteza um primeiro aviso de que Hiasl está cansado da relação. O uso de ossadas, pedregulhos ou simples troncos de árvore, um convite imediato para que o Estado entre lá em casa e resgate o macaco, perdão, o marido das garras da instituição. Porque uma jaula é uma jaula é uma jaula.

DIVÓRCIOS UNILATERAIS?
Nada contra, partindo do pressuposto de que, desfeita a relação, o casal devolve os presentes de casamento que os otários ofereceram na maior ingenuidade. Estou cansado de enfiar dinheiro em “listas” longamente elaboradas que começam a ganhar contornos de roubo institucional. Mas posso levantar uma objecção, não aos divórcios, mas aos “casamentos unilaterais”? Foi o meu amigo Alberto Gonçalves quem, lúcida e seriamente, falou do problema. Falou bem: há vários anos que leitoras inflamadas casam comigo sem que eu tenha nada a ver com o assunto. O caso agrava-se quando, depois do enlace, começam a chover acusações pungentes de que eu não dou contas ao vigário. Não chego a casa a horas decentes, não lhes presto atenção, não respeito as necessidades delas. Confesso que, na maioria dos casos, nem as conheço e a minha única salvação é saber que, sem a consumação do matrimónio, talvez não haja matrimónio. O pior é convencê-las de que não houve consumação, uma tarefa hercúlea quando já existiram casos de gravidez histérica. Pressinto aqui novas dificuldades para o legislador, subitamente confrontado com duas partes em que só uma deseja estar casada. Será o suficiente para que o casamento seja válido?

ENQUANTO O LEGISLADOR PENSA NO ASSUNTO
, eu penso em Elis Regina. Sempre deplorei Elis, a vozinha irritante a cantarolar letras “revolucionárias” (no sentido amplo do termo). Mas ouço agora um tema conhecido, em que Elis sonha com uma casa no campo, para plantar os seus amigos, livros e discos. É um bom programa, sobretudo quando a única forma de viver no mundo moderno é simplesmente fugir dele. Soube agora que a Grã-Bretanha pondera proibir os copos de vidro nos pubs nativos. Parece que o vidro se converte em arma perigosa quando os bebedores excedem o razoável. O raciocínio é perfeitamente lógico e a conclusão perfeitamente ilógica: qualquer coisa é perigosa se a criatura é perigosa. Até um palito. Mas nada disto convence as “autoridades”: depois dos cigarros, é a caça ao vidro e a defesa dos copos de plástico para impedir as matanças etílicas. A prazo, não será de excluir que seja o próprio álcool e, no limite, os próprios pubs a serem varridos da paisagem, por imperiosos motivos de “segurança pública”. Será nesse momento que qualquer pessoa civilizada procurará a casa no campo de que falava Elis. Para cultivar amigos, livros, discos. E, de preferência, para se poder arruinar em paz.

PORQUE TUDO TEM CAUÇÃO CIENTÍFICA.
Eis o problema. O fumo mata. O vidro mata. O álcool mata. E, segundo a New Scientist, o sexo oral também: indivíduos mais propícios ao desporto correm sérios riscos de desenvolver cancro na boca pela transmissão de um vírus particularmente letal. A confirmar-se o cenário, não excluo medidas duras para os praticantes, e não apenas em restaurantes, hospitais ou repartições públicas. Em nome da “segurança”, essa incontornável palavra, imagino tropas de elite a invadirem quartos privados e a resgatarem in extremis a insensatez dos apaixonados. Que, apesar da ciência, persistem em enfiar o nariz onde, literalmente, não são chamados.

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