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blogue atlântico

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03
Set08

O machismo dos liberais americanos

Maria João Marques

O que se tem escrito e dito de Sarah Palin pelos comentadores e media liberais (cof, cof, cof) é absolutamente inacreditável. Está muito bem que se questionem as opções políticas de Palin, mas vasculhar a sua vida privada para a desacreditar politicamente, e com os argumentos apresentados, é verdadeiramente de esgoto.

 

Sarah Palin tem uma filha de 17 anos grávida. Eu não sei que adolescências entorpecentes esta gente levou, mas pela minha experiência pessoal, durante este período de vida, bastava a minha mãe sugerir-me alguma acção para eu fazer o contrário, e deve ter sido alvo de bastante pedagogia invertida para ter resultado tão bem (digo eu, claro). O meu ponto: que culpa tem Palin que a filha tenha engravidado? Deveria tê-la encarcerado a partir do momento que desconfiou que o sexo oposto agradava à rapariga? O mais curioso nesta situação: foram os falcões liberais que espumaram de contentamento ao saber desta gravidez, esperando um repúdio generalizado da direita conservadora, milhões de dedos acusadores espetados à Menina Palin e respectiva mãe que não foi capaz de guardar a virtude da filha para ocasiões mais propícias. Como não entendem nada de religião, ficaram deveras desiludidos quando os evangélicos apenas reconheceram o que é admirável nesta história: que uma adolescente de 17 anos grávida escolha levar a gravidez ao seu termo e case com o pai do seu filho.

 

Isto piora. Não havendo rasgar de vestes nas hostes evangélicas (pelo contrário) tenta-se outra estratégia, que está agora em grande debate: pode/consegue uma mãe de cinco filhos, e um filho pequeno com necessidades especiais, ser candidata a VP? Esta gente moderna, progressista, libertária, certamente cosmopolita, ainda não percebeu que uma mulher consegue ser aquilo que quiser ser, dados os seus talentos, independentemente da existência de filhos ou do estado civil. O nosso problema (se é problema, e eu acho que não) depois de termos filhos é acharmos mais reconfortante e gratificante dedicarmos mais tempo aos filhos do que às pessoas entediantes que encontramos na nossa actividade profissional - novamente pela minha experiência, por exemplo, acho a expressão oral do meu filho de dois anos e meio muito mais inspiradora e entusiasmante do que qualquer discurso de Obama. A questão é o que queremos nós, mães, fazer;  nunca o que conseguimos ou temos capacidades para fazer. Voltando ao início do parágrafo, os modernos, progressista, liberais e certamente cosmopolistas sugeriram que não, uma mulher mãe de cinco e com um filho com síndrome de Down não consegue ser VP.

 

Estejam descansados: continua a piorar. Caso o argumento anterior não singre, as mesmas fontes asseguram que não podemos confiar em Sarah Palin. Vejam que tipo de mãe ela é: vai trabalhar dias depois dos filhos nascerem (coisa estranhíssisssissima nos Estados Unidos), sujeita a filha adolescente a uma gravidez sob o escrutínio dos media, fez uma grande viagem de avião antes do parto do quinto filho, vai fazer campanha enquanto está a amamentar (essa actividade debilitante).

 

É escusado dizer que nunca candidato algum de género masculino foi avaliado pela sua capacidade parental. É até ponto assente que a fraca performance como maridos não tem correspondência com a performance governativa (desde que não mintam em excesso aos eleitores). JFK teve um filho e perdeu-o enquanto presidente e nunca ouvi questionados os resultados executivos desses tempos; pelos vistos o nascimento e morte de um filho não agitam os pais. Churchill teve três filhos problemáticos e nem por isso deixou de ser a pessoa que definiu a segunda metade do século XX. É certo que os papeis de mãe e pai não se confundem, no entanto não vejo porque uma mulher que seja má mãe (e nada nos garante que seja o caso) não possa ser uma talentosíssima política.

 

Como o pior machismo vem sempre das mulheres, podem ver um bom resumo destas argumentações pela pena de Sally Quinn aqui e aqui. Enfim, isto vem de quem há uns meses dizia que a Silda Spitzer, para bem da instituição casamento, se devia divorciar do marido (presumo eu que sem que algum dos esposos lhe tenha confidenciado as agruras da vida conjugal, as queixas recíprocas ou a qualidade da vida sexual). Agora, Sally Quinn sabe (presumo mais uma vez, sem conhecer Palin) quais deveriam ser as prioridades de Sarah e como deveria ela organizar a sua vida. Maravilha.

 

Nós, por cá, temos a Ana Gomes (num texto descoberto via CAA), que não deve ler a Vogue com a assiduidade que eu considero recomendável (para mim, lá está), apesar da Anna Wintour ser uma angriadora de fundos importante para Obama. A Vogue fez na edição de Fevereiro uma peça sobre Sarah Palin, engraçada e bem escrita (como sempre); ao lado de outra peça sobre outra governadora atraente e elegante, a democrata Kathleen Sebelius, que também foi referenciada como veepeável para Obama.

 

Como se vê pelo exemplo de Ana Gomes, não estamos imunes a estes comportamentos só porque ninguém se lembrou de questionar se Manuela Ferreira Leite fez terapia de substituição hormonal e se isso lhe provocou alterações de humor. Recordo-me dos comentários quando a senhora foi a Londres por ocasião do nascimento de um neto a meio das directas do PSD. Caso o candidato fosse homem e tivesse interrompido a campanha das directas para ir assistir a um jogo da liga dos campeões de um clube do seu coração, tenho a certeza que toda a gente acharia normal; e há uns anos Guterres, já líder de um partido e primeiro-ministro, visitava todos os fins-de-semana a mulher doente em Londres sem que tal fosse comentado ou, sequer, noticiado. Dos dois lados do charco os golpes baixos são aceitáveis se se destinarem a alvos femininos.

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