Quinta-feira, 26 de Abril de 2007
Diálogo de civilizações
Desde que Luís Represas não componha nada sobre o assunto...
Vontade, etc.
Caro Henrique,
Telegraficamente, porque não é este - nem sequer a revista é - o lugar para estas coisas. A soberania não pode ser representada, por, na sua essência, não consentir alienação, por exemplo: é um problema infinito, que não se resolve de duas penadas. A indivisibilidade última da soberania: outro problema. A distinção entre vontade geral e vontade unânime: terceiro problema. O que significa, precisamente, num contexto político, "vontade"?: quarto problema. Podia-se continuar por muito mais tempo. O essencial é que, mesmo para alguém que simpatize muito com Hume ou Benjamin Constant, ou com quem o Henrique quiser, trata-se de problemas reais e não puramente verbais. E a articulação entre eles é complexa. Os grandes autores - desculpe a perfeita banalidade - são os que criam, eventualmente no seguimento de outros, novos problemas. Rousseau é um deles.
Abraço,
Paulo
Franças, II
Caríssimo Paulo,
Longe de mim colocar o meu pé no rabo do Jean-Jacques. Quem sou eu? Longe disso. Gosto muito. De o ler, bem entendido. Mas como não sou um grande espírito, o camarada Jean-Jacques fica cá em casa fica junto a (Nelson) Rodrigues e (Guimarães) Rosa. Política literária no seu melhor. Depois, estava mesmo a perguntar, muito humildemente: Por que razão é o camarada Rousseau assim tão complexo? Não é pergunta retórica.
Grande Abraço,
Henrique
Mais maoístas, bloggers e empresários

Para quem a minha Passagem para a Índia ("Maoístas, bloggers e empresários") na revista deste mês tenha criado algum apetite, isto é, para quem quiser mais Nepal e mais transição democrática, ver esta minha
reportagem.
Sem rodapé nem pontapé
Caro Henrique,
Não tenciono meter-me minimamente na sua conversa com o Miguel Morgado, tirando um pequeno ponto. O pensamento de Rousseau é mesmo complexo. A ideia de vontade geral, por exemplo - e é um exemplo entre dezenas -, por ser facilmente compreensível nos seus aspectos superficiais, não é menos abissal. E o interesse do que Rousseau diz não releva unicamente das virtudes literárias. De outro modo não se compreenderia que grandes espíritos (desculpe a linguagem) como Cassirer ou Victor Goldschmidt, entre muitíssimos outros, tivessem perdido tempo com a matéria. Reconhecer isso não é inibidor de discordar activamente de Rousseau ou de detectar (na medida do possível) aspectos nefastos da sua influência - é mesmo condição para que esta discordância seja eficaz. Mas não é preciso dar-lhe um pontapé.
Abraço,
Paulo
É hoje
Franças
Caríssimo Miguel Morgado,
Já tive esta conversa várias vezes. Vou repeti-la consigo.
Um blog é um blog. Uma crónica é uma crónica e não um artigo analítico. Numa crónica, sacrifica-se o conteúdo no altar da forma. No dia em que um blog tiver notas de rodapé, deixa de ser blog. Dê-me o seu mail, trocaremos posts com notas de rodapé. Já tentei várias vezes. Em vão. Talvez seja V. o escolhido.
Eu não associei Blair ao Sarkozy. Apenas disse que há quem o faça. Tentei parvamente dizer que não é possível fazê-lo.
Eu não elogiei o Blair. Aliás, não gosto do Blair, precisamente pela sua cegueira na tal guerra ao terror, e pelas suas parvoíces internas (escolas de fé, por exemplo). Elogiei a Thatcher.
Critico correntes francesas da mesma forma que critico correntes americanas. Não há América, nem França. Há franças e américas. Não faço caricaturas. Aliás, critico mais correntes americanas que correntes francesas. As minhas grandes referências são francesas. É fácil ver quais são. Se quiser, o meu liberalismo é francês, apesar de só existir na prática nos anglo-saxónicos. O meu desespero com a França advém da paixão que tenho pela mesma.
V. pode fazer revisionismo o quanto quiser, acho muito bem. Mas não ver Rousseau na revolução francesa é revisionismo a mais.
Precisamente: é o carácter reaccionário de Rousseau que está em causa. Não há nada mais reaccionário do que a França que tem a vontade geral no neurónio.
Onde é que V. viu eu dizer que o Condorcet é a solução para França de hoje? O que disse, num palerma exercício, foi isto: o caminho dos concercet teria sido menos drástico do que o caminhos dos rousseaus aquando da revolução francesa. O caminho branco teria sido menos mau do que o caminho vermelho. Era este o exercício parvo de virtualidade histórica. Onde é que V. viu a minha predilecção pelos matemáticos-liberais para os dias de hoje? Mas não seja arrogante com o Condorcet. Já não é lido, mas há muita gente que, hoje, pensa daquela maneira. É um homem importante na história das ideias. Não devemos ler apenas aqueles que "venceram". Ou não?
Quando digo Montesquieu e afins digo pelo seguinte: a França é demasiado democrática e pouco constitucional. Aliás, como Portugal (esse país traduzido do francês, como há dias dizia Rui Ramos). Vive da rua e dos presidentes-rei, e não das instituições. Aliás, as instituições vão-se adaptando à rua e aos monarcas-presidente.
Ver Rousseau em Montesquieu! Sim, eu também vejo Bentham em Marx, mas há um mundo de diferença entre os dois. V. pode dizer o que bem quiser, mas há duas visões de política distintas em Rousseau e Montesquieu. V. faz-me lembrar aqueles jovens académicos que querem rever tudo, destruir todas as asserções e mitos. Acho muito bem. Só que que há asserções que são mesmo verdade. Matéria de facto.
O pensamento de Rousseau é complexo? Acha? Porquê? Foi complexo na busca da unidade, da não complexidade política? Eu diria que o pensamento de Rousseau é bem escrito... Encanta pela forma.
Agradecido por usar um post meu como referência para tamanha reflexão sobre as incapacidade da direita. Agradecido por usar um post meu para fazer uma caricatura da minha pessoa. Mas é mesmo para isso que serve a blogosfera. Sempre às ordens.
Saudações maquiavélicas,
Henrique Raposo
Será?
A ilusão da escolha francesa
"Ségolène Royal talks of a gentler pace of reform and she is trying to forge a coalition with Bayrou. Last week Jacques Attali, one time sherpa of François Mitterrand and first president of the European Bank for Reconstruction and Development, spoke for them when he wrote that, far from switching to an Anglo-Saxon free market economy,
France should follow its own destiny and protect the French model. ‘The rest of the world criticises us because it is jealous,’ he concluded. The argument may be elephantine, but it is undoubtedly a winner with the millions of French voters who depend on the French state, and who may yet sabotage Mr Sarkozy’s best efforts to lead them towards the world economy."
Na
Spectator online
COM LIBERDADE E SEM FOLCLORE
Tornei-me, a partir de hoje, fã da jornalista Isabel Coutinho, que escreve hoje no Público (p. 5): “A deputada Maria de Belém Roseira iniciou o seu discurso com «Era Primavera, cheirava a madrugada e havia música no ar! E o dia foi abrindo, a esperança deu à luz e fez-se Praça da Canção e a canção na praça. E flores, muitas flores vermelhas que passaram a chamar-se liberdade.» (Arrepiados?) A seguir citou – às dez e meia da manhã – Paul Virilio, Zygmund Baumen, Thomas Friedman, Kant, Jeffrey Sachs, Ricoeur, Damásio.” Se para alguma coisa o que se passou em 1974 serviu – e justifica por inteiro o “25 de Abril” - foi para tornar as pessoas mais capazes de pensarem de maneira adulta. Como Isabel Coutinho, que obviamente não acha graça ao serafim-saudadismo parlamentar nem às exibições pedantes de cultura esforçada da deputada Dra. Maria de Belém Roseira. Sem dúvida que pode ser acusada, na sofisticada expressão do nosso primeiro-ministro, de “bota-abaixismo”. Mas foi ela quem, de facto, “comemorou” o “25 de Abril”, não a deputada. Com liberdade, e sem folclore.
Sarjeta ou não?
Do ponto de vista da definição do ministro Santos Silva, a extensa e divertida cobertura noticiosa do problema de saúde de Eusébio enquadra-se no jornalismo de sarjeta?
Lembro que quase todos os jornalistas estiveram à altura do pacto eh-pá-é-chato-dizer-que-o-Eusébio-bebe-e-fuma-vamos-deixar-isso-de-lado-
-que-esta-obstrução-das-artérias-podia-acontecer-a-um-monge-tibetano-
-que-só-come-farelo.E digo isto porque houve um jornal que escarrapachou na primeira página a seguinte informação: "Eusébio tem de parar de beber e fumar". (não faço ideia se Eusébio o faz, mas espero que sim, se gostar e se isso lhe der prazer).Em suma, é sarjeta não referir as hipotéticas causas da aflição do King, ou é sarjeta afirmá-las?Já agora, belo layout da renovada Atlântico. Os parabéns à L.P. e ao PPM.
Ressaca
As revoluções são uma coisa chata que depois se comemoram de forma alegre.
Cá fizemos uma alegre que depois comemoramos de forma chata.
Hoje nas bancas
Cinderela em S. Bento
RUI RAMOS
Já sabemos – dito por quem de direito – que a licenciatura de Sócrates não é o maior problema do país. Estamos ainda para saber se não é o maior problema do primeiro-ministro. Entretanto, o governo e os seus procuradores tentam, sem excessos de subtileza, convencer-nos de que pode tornar-se um problema sério... para quem tiver o atrevimento de falar sobre o tema. É verdade que ainda não chegámos à Rússia de Putin, e que continua a ser geralmente seguro beber em restaurantes. Presumo, portanto, que ninguém arrisque mais martírio do que o de um telefonema zangado. De resto,
a campanha oficial e oficiosa contra o “golpe de estado através da imprensa”, indistintamente atribuído à vingança de um “grupo económico” ou a mais uma conspiração da “direita radical”, esclareceu as regras do jogo: prosas a duvidar da mais célebre licenciatura de Portugal garantem pelo menos uma ficha de “vendido” ou “fascista”.
Felizmente, não corro esse risco, porque o objectivo deste texto é dar razão ao governo. Em tudo. Primeiro, no que diz respeito à conspiração.
Há de facto uma conspiração contra Sócrates. Lembro-me perfeitamente de quando começou: no dia 25 de Abril de 1974, faz hoje 33 anos. Foi nesse dia que os membros do governo em Portugal deixaram de estar devidamente calafetados contra o “jornalismo de sarjeta” e as “campanhas orquestradas”. Foi também por esses tempos que se começou a notar uma certa irreverência no modo como os cidadãos se referiam em público aos dirigentes do Estado. Para facilitar ainda mais a vida aos conspiradores, os portugueses cometeram o erro de preferir uma “democracia formal” (como Sócrates lhe chama), e portanto pluralista e aberta à controvérsia. Resultado: nunca mais se pôde trabalhar em paz no governo deste país. Como todos sabem, a situação tem-se agravado. Nos piores momentos, dir-se-ia que estamos em Inglaterra ou na América. Sim,
a conspiração contra Sócrates tem um nome: chama-se democracia. Terá ele percebido isso? A prometida “regulação” do jornalismo e a descida dos seus homens, em missão “ideológica”, até às empresas de comunicação social provam que percebeu.

Há quem acredite que Sócrates deveria ter-se conservado acima do que, no fundo, seria uma mera querela académica e de arquivo. Para quê afligir-se? Ninguém lhe contestou legitimidade para governar, e nenhum outro poder (presidente, parlamento, tribunais) o incomoda. Quando muito, seria uma questão de “imagem”, daquelas que vão e vêm conforme as manchetes dos jornais. Estão enganados.
A reacção de Sócrates, da entrevista aos avisos à navegação, é justificadíssima. Ele compreendeu aquilo que a maioria dos seus críticos ainda não percebeu: que o seu é um governo de Cinderela, que não foi feito para resistir a demasiadas badaladas. E não apenas pela razão de que um dos outros efeitos perversos da “democracia formal” foi tornar todos os governos precários.

Cavaco Silva em 1985 e Guterres em 1995 surgiram com fórmulas mais ou menos novas, e perante uma economia a crescer. Passaram assim por cima das primeiras gafes e escândalos. Em 2005, Sócrates trouxe velhas “paixões” para enfrentar uma ruína. Não era um líder popular, nem a sua eleição correspondeu a uma vaga de entusiasmo. Venceu Alegre e depois Santana, porque teria sido preciso génio para falhar contra Alegre e Santana. Os votos que lhe deram a maioria absoluta (2,5 milhões) poucos mais eram do que os que, em 1999, não deram uma maioria absoluta a Guterres (2,4 milhões). A partir dessa base,
Sócrates perdeu tudo o que havia de importante para perder. Perdeu as autárquicas e os principais municípios – com 1 930 191 votos, quase o mesmo resultado (1 918 359) que, em 2001, fez Guterres desistir. E perdeu as presidenciais, com um candidato que arranjou a pior votação de todos os candidatos apoiados por governos desde 1976.

Com certa habilidade, passou a viver de um equilíbrio fundamental: por um lado, deu ao PS o pasto das administrações do Estado e das empresas públicas, e ofereceu às esquerdas em geral, com a nacionalização dos abortos, uma viagem de saudade até 1911; por outro lado, satisfez as teorias daqueles que, à direita, estão convencidos de que nada como músculos de esquerda para meter na ordem funcionários e pensionistas. Mas quanto tempo pode durar este ajuste? O presidente, como lhe compete, coopera. E o eleitorado?
Que acontecerá em 2009 se o país prolongar o maior período de divergência com a Europa desde há 60 anos? E se o PSD, por distracção, elege alguém com bom aspecto?
Sócrates não está condenado. Mas está mais vulnerável do que a rotina dos comentários tem reconhecido. O governo sabe que a série de badaladas para a meia-noite pode começar assim, com os percalços de uma licenciatura. Quando os pajens voltarem a ser ratos e a carruagem uma abóbora, desta Cinderela talvez nem fique o sapatinho.[
PÚBLICO 25.04.07]
A ler
O país do ódio, de Duarte Calvão, no
Corta-Fitas. São realmente bizarras algumas reacções ao túnel do Marquês. É pena aliás que não se constitua uma petição dos cidadãos de Lisboa para exigir uma indemnização pelos atrasos na construção da obra, respectivo prejuízo financeiro para o Estado e outros danos provocados aos automobilistas e peões da cidade apenas pela acção de meia-dúzia de irresponsáveis liderados pelo inefável vereador do Bloco de Esquerda, José Sá Fernandes. Ainda hoje o ouvi na televisão a dizer - uma vez mais irresponsável e contra todos os estudos - que a velocidade máxima no túnel deveria ser de 30 e não de 40 ou 50 como está estipulado.
PS: Bizarro também foi assistir às reportagens do enviado da SIC no local da inauguração - um senhor que julgo saber sobretudo de finanças mas que, para além de todos os outros putativos malefícios da obra, perguntava repetidamente aos que se passeavam no túnel se não tinham medo que aquilo lhes caísse em cima. Não sei onde o senhor foi buscar essa hipótese ridícula, mas o certo é que mesmo a terminar as peças lá vinha de novo com a história da queda do túnel, que não sabia se aguentaria o peso da estátua do Marquês. Deve-lhe ter saído o diploma de engenheiro na Independente.
Obrigado
Agradeço em primeiro lugar à
Lucy Pepper, ilustradora mais que principal da revista Atlântico e responsável pelo grafismo deste blogue e do futuro (próximo) Atlântico Online. Ela também irá postar por aqui. Depois, a todos os bloguiadores que assinalaram a nossa revolução gráfica e a transferência para este fabuloso WordPress - para um liberal conservador a mudança só custa quando não é para melhor e aviso já que o serviço desta casa fica a anos-luz de outros fornecedores.
Quarta-feira, 25 de Abril de 2007
O Pina Moura da questão
Cavaco Silva defendeu hoje uma "clara separação entre actividades políticas e actividades privadas, que as situações de conflito de interesses sejam afastadas por imperativo ético e não apenas por imposição da lei ". Mensagem para Pina Moura e para o Partido Socialista de José Sócrates?
Abril não é só evolução
A não perder o artigo de Rui Ramos, hoje no "
Público". Brevemente, será publicado aqui, com edição do próprio autor. Bem, também, o discurso de Paulo Rangel, sobre o ambiente de "
claustrofobia democrática" que se começa a viver em Portugal. O primeiro-ministro reagiu
como seria de esperar de quem não parece ainda ter percebido qual é o papel da oposição.
A escolha de Bayrou

"
Je ne donnerai pas de consigne de vote"
Como se esperava, François Bayrou
não deu o seu apoio a nenhum dos candidatos que passaram à segunda volta das presidenciais francesas. Embora o seu apoio não fosse vinculativo para os seus eleitores, seria um trunfo de luxo. Royal, que se apressou a propor um debate com o candidato centrista, já obteve a sua resposta. Bayrou aceitou o desafio, mas afirma-se disponível para outro debate com o outro candidato, Nicolas Sarkozy.
Com este afastamento de ambos os candidatos, Bayrou demonstra a sua preocupação com as legislativas. O anúncio da criação de um novo partido centrista, especialmente dirigido para as próximas eleições reforça a ideia de independência, já que o seu UDF era parceiro de coligação do UMP (partido de Sarkozy). O novo partido democrata, como foi baptizado, assume-se assim como um partido capaz de entrar quer numa coligação à esquerda, como à direita. Bayrou pode não ter ganho a presidência, mas está a trabalhar muito bem para garantir lugares no próximo governo.
Para Sarkozy e Royal, acaba-se o mistério em volta de Bayrou. Começa agora a conquista do seu eleitorado.
O Blair foi Blair porque (antes) existiu a dama de ferro
Fala-se da chegada de Blair a França. Não sei se faz sentido falar nisso. Mas sei de uma coisa: Blair só foi possível porque antes dele alguém fez o corte, o trabalho sujo e difícil: Thatcher. O sucesso dos blairs baseou-se na manutenção da revolução feita por Thatcher. Blair foi o
conservador da revolução de Thatcher. Ora, Sarkozy ou Royal até podem ser blairianos na forma, mas nunca o serão na substância. Porque Chirac não foi Thatcher.
Royal e Sarkozy têm de fazer a ruptura com o passado. Não o passado metido em anos, mas em séculos. A França só vai lá quando tiver a humildade para assumir que os últimos dois séculos foram um fracasso. Mais simples: a França falhou. Virou em
Rousseau, quando deveria, no mínimo, ter continuado
Turgot ou
Condorcet. A França só recuperará quando jogar no lixo dois séculos de mitos ideológicos falhados que inventaram a maior ficção política: a
grandeur de França. A França nunca foi grande a não ser em pão com manteiga e cavalos brancos a fazer o cavalinho com ditadores neles montados. A França será a novamente a França, a nossa França (não a França do umbigo ideológico de Paris), quando Tocqueville, Montesquieu, Aron ou Constant deixarem de ser estranhos na seu própria pátria.
Cavaco kicks ass
"A democracia não é de ninguém". "O 25 de Abril não é de ninguém". All right, Mr. President!
O regime não tem dono. Melhor: deixou de ter dono. Já chega destas comemorações saudosistas e folclóricas do 25 de Abril. Já somos uma democracia. Não há risco de golpe. Agora vamos lá trabalhar para ser uma democracia liberal como as outras; é que ser-se uma
democracia liberal não é o mesmo que ser-se uma
democracia. Isto da Democracia é como os chapéus: há muitas, e a nossa não é (ainda) muito boa. Tirar os ( ) depende do que fizermos a partir de agora. Chegámos ao ano zero. Deixámos a escala negativa. Agora é trabalhar.
25 Abril 2007
33 anos depois deixaram de se usar patilhas até aos maxilares, a tropa fez as pazes com os barbeiros (cujas barbearias deixaram de estar nacionalizadas) e Eanes mudou de óculos. Mas não foi apenas isto que Abril nos trouxe. Este Abril deu início a um renovado e desafiante projecto. Liberal e pluralista, aberto à esquerda e à direita. Um caminho que ajuda a que o país debata, aceite opiniões contrárias ao politicamente correcto e tenha muito mais sentido de humor.
Viva a Atlântico!
“Macacos”
Ficamos a saber que o racismo ainda faz parte do DNA do império do meio; um racismo refinado por aquela boa educação maquinal armada com sorrisos amarelos e arroz entre os dentes. Ficamos a saber que "macaco" continua a ser termo de comparação para povos não-chineses (sobretudo brancos e negros). Enganar o
bife faz parte do protocolo diplomático chinês. A xenofobia é um instrumento de estado.
O facto de haver uma voz (genuína) para o chinês e outra voz (dissimulada) para o estrangeiro dificulta a apreensão desta realidade por parte dos estrangeiros, que só vêem o que a elite chinesa deixa ver.

Felizmente, há uns avariados, como James Kynge, que sabem ouvir mandarim.
Do mal o menos, o universalismo não faz parte da China. Não quer exportar modelos. Quer apenas o seu antigo domínio imperial sobre a Ásia, numa espécie de sistema feudal.
Temos uma justiça venezuelana
Mais grave ainda que o canudo virtual do PM é a justiça portuguesa. Temos uma justiça venezuelana que acha bem que um jornal não possa dizer a verdade quando essa verdade põe em causa do bom nome do mentiroso. Eternamente, o país dos bons costumes e do respeitinho. Quem é que temos como juízes? Madames Bobones do Salazarismo? 33 anos depois do 25 de Abril continuamos presos no coito interrompido que foi PREC. Somos um país mal-resolvido, para não usar outro termo. E é na justiça que essa condição de não resolvido é mais evidente.
Se alguém tivesse coragem para chamar a
freedom house a Portugal a fim de investigar a nossa justiça (e tudo o que a envolve, sobretudo a sua relação com o poder político), teríamos uma surpresa: Portugal é só partly-free. Na verdade, deveríamos ser amarelinhos neste
mapa e não verdes. Nós ainda não somos uma democracia liberal como as outras. 33 anos não é nada. Estamos só no ano
zero. Agora é subir na escala e ganhar alguma normalidade, alguma semelhança com as outras democracias. E essa normalidade passa por enfrentar a besta da justiça portuguesa. Não há prioridade maior. PIB o quê? Só conheço o El Pibe. Justiça, Justiça e Justiça.
[como é que se fecha os comentários nesta geringonça?]
Olhares alternativos (ou simplesmente parvos) do Arcebispo de Cantuária
"Aqui Posto de Comando das Forças Armadas.
Portugueses, a partir de hoje são livres de rapar o bigode e aparar as patilhas"
“Por um Portugal livre!Por um Portugal sem sura!”
- “Dr. Marcelo, os militares tomaram o poder”.- “Ena! Cum Caetano”!
- “Vamos fazer um debate, com o Mário e o Álvaro”.- “Excelente ideia...“- “… o que é um debate”?
- “Camaradas, há que sanear pela base”.- “De que é que estão a falar”?- “Parece que finalmente vamos ter saneamento básico”.
- “Em Otelo, Shakespeare fala-nos de...de…”- “Do 25 de Abril!”.
- “Já caiu o Carmo, Trindade”?- “O povo, Está, Com o MFA”- “Então vão chamá-lo”!
“A revolução foi pacífica porque na verdade eles não disparavam, era o Otelo que ia gritando pá, pá, pá, pá, pá...”“Chai Mite, chai daqui”.“A revolução foi tão genuína que no dia 26 se foi comemorar fazendo... engarrafamentos de trânsito de tanques e chaimites”!- “O sinal é quando passar a “Mãe Preta”.- “Não, pá, isso é racista, põe a “Grândola Vila Morena”.
- “Põe cravos para chatear o Rosa Coutinho”.
Quinta-feira nas bancas
Nova tentativa:
A TV policial
Não quero ser excessivo, mas parece-me que o ministro das polícias faz de editor na RTP. Quando estou a ver os telejornais da RTP fico com aquela impressão que estou a ser educado. Todos os santos telejornais reportam sempre qualquer acção heróica das polícias, seja na luta contra os ciganos da contrafacção na Pampilhosa da Serra, seja contra os gangs suburbanos, traficantes, condutores embriagados. A polícia, e aquilo que a dita faz, está sempre na TV do estado. Isto é um bocadinho mais grave do que o canudo do PM.
Comemorar o 25 de Abril
Esta é a nossa revolução, camaradas atlânticos. Abril é do povo, não é de Moscovo. E ainda vou ter de aprender a publicar com fotografias. Um dia será.