Sexta-feira, 27 de Julho de 2007
O precedente turco
Uma adesão da Turquia à UE traria não só custos políticos à lógica da organização, como alteraria radicalmente os equilíbrios de poder que a vêm sustentando desde a fundação. A Turquia seria a médio prazo o país mais populoso da UE, a primeira força no Conselho Europeu e o Estado membro com o maior número de deputados no Parlamento Europeu. Convém não fugir à realidade e mesmo que os principais decisores políticos europeus não o queiram assumir por razões óbvias, são estas as verdadeiras razões daqueles que se opõem à sua entrada.

Mas, para além destes pontos relativos à geografia do poder, uma outra consequência teria de ser assumida pelos restantes Estados: como negar que países como a Argélia, Marrocos, Tunísia e sobretudo Israel, possam ser membros de pleno direito da UE? De facto, abrir o precedente da adesão turca seria, em primeiro lugar, assumir que a União não tem limitações geográficas, culturais, históricas ou religiosas; em segundo, que tem ambições territoriais fora do continente europeu e que deseja estar no coração do Médio Oriente como actor principal. Estará preparada para tal?

Foquemo-nos em Israel. Democracia mais consolidada que a turca, goza de uma ligação umbilical bem mais forte com os principais Estados europeus. Além de ter sido abençoada por estes, tem hoje em dia na UE o seu parceiro comercial mais importante. A própria União atribuiu ao Estado judaico um “estatuto especial” na declaração de Essen (1994) e um ano depois, na de Barcelona, alargou o âmbito a outros países da orla Mediterrânea, incluindo a Turquia. Sondagens nos últimos três anos apontam para uma média de 75% de apoiantes israelitas à adesão, bem mais do que aqueles que em Ancara ou Istambul exultam com a ideia. Se a União recusa limitar-se aos valores católicos, não há razão nenhuma para recusar entradas de países em vias de democratização – ou democráticos, como Israel -, sejam eles de maiorias muçulmana ou judaica. Mais: se o propósito da UE é extender o seu âmbito além-continente, então Israel cumpre critérios de adesão que a Turquia talvez não faça.

O meu ponto é, contudo, bastante mais realista. A UE tem de se concentrar na consolidação dos seus últimos alargamentos e criar condições para a adesão dos restantes Estados balcânicos. Estrategicamente, são estas as zonas vitais de sedimentação da construção europeia e todas aquelas fora do âmbito continental devem ser alvo de atenção no plano de associação multilateral. Uma organização que teima em exagerar no idealismo corre o risco de ter dissabores pouco agradáveis.

[Atlântico 28, Julho 07]

publicado por Bernardo Pires de Lima
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