Terça-feira, 18 de Novembro de 2008
Os rótulos de Miliband

David Miliband partiu para a Síria depois de ter passado por Israel, tendo trazido na sua pasta o assunto do momento nas relações Reino Unido - Israel: rotulagem. Isso mesmo. Entre outras coisas, esta questão revela que, em determinadas zonas do globo, tudo pode ter um significado político.

 

O que está em causa são os bens produzidos nos colonatos israelitas da Cisjordânia. Qual a designação oficial do seu local de produção? Por norma, antes colocava-se "Israel". Mas recentemente muitos consumidores e cadeias de mercados e supermercados (a última das quais foi a Marks and Spencer) começaram a recusar-se adquirir bens produzidos nos colonatos, e a contestar a sua rotulagem - até porque, tendo origem em Israel, os produtos gozavam de certos incentivos aduaneiros. O raciocínio seguido assentava na ideia de que os colonatos são contra várias normas direito internacional e, neste sentido, a UE não podia pactuar com este cenário. Defendiam, então, que os produtos deveriam ser rotulados como oriundos da Cisjordânia - cujo estatuto internacional está, como se sabe, ainda indefinido. Mas acontece que, se assim fosse, os clientes estariam a comprar produtos com o intuito de contribuir para a economia palestiniana, não obstante estarem, isso sim, a alimentar a economia dos colonatos, que tanto queriam evitar. Ping pong acesso entre Londres e Jerusalém. Um rótulo, um problema.

 

Claro que há quem diga, em Israel, que o facto de Miliband ser judeu faz com que tenha sede de contrariar um rótulo (passe a expressão...) de pró-Israel que se lhe poderia apor - enfim, a tal história da seriedade da mulher de César. Mas o que é interessante notar é presença e a força da diplomacia bilateral no contexto da relação UE-Israel, servindo este caso de exemplo para uma realidade ainda muito presente na política externa europeia. Esta foi uma questão levantada exclusivamente por Londres, que nas últimas semanas tem circulado documentos destinados a sensibilizar os seus parceiros europeus e as instituições comunitárias, exercendo o lobbying de que Bruxelas tanto precisa. Se a isto juntarmos o dinamismo da actual Presidência francesa da UE, vemos que são, ainda, as clássicas potências que dão as cartas na definição e no andamento da diplomacia europeia.

 



publicado por Bruno Oliveira Martins
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