Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008
Os derrotados da história

Quando o comunismo caiu com estrondo no inicio da década de 90, a esmagadora maioria dos partidos comunistas quase desapareceram do mapa. A URSS deixou de existir, foram conhecidos, numa dimensão gigantesca, os crimes cometidos em nome da ideologia assassina, os fracassos das suas políticas económicas tornaram-se evidentes, e deixou de haver uma alternativa credível (se é que alguma vez o foi) à democracia liberal. Apesar de alguns grupos minúsculos de comunistas que continuaram a existir, a maior parte dos partidos radicais de esquerda converteram a sua mensagem, focalizando a sua acção política num ambientalismo fundamentalista, na defesa de políticas sociais “progressistas” e “assistencialistas”, e nos movimentos de anti-globalização. Já neste século, alcançaram um crescimento incrível, politicamente falando, assentando a sua pujança no anti-americanismo crescente das sociedades ocidentais. Foi neste contexto que grupos como o Bloco de Esquerda prosperaram. E o PC português foi mesmo o único que se aguentou assumindo a veia totalitária marxista-leninista e, por vezes, estalinista, conforme se observa no apoio fiel de Bernardino Soares à Coreia do Norte.


Nos últimos dias temos assistido a uma revigorada extrema-esquerda, até mesmo triunfal, a pronunciar o fim capitalismo e do liberalismo económico. Para esta esquerda, agora será a vez do marxismo determinar o funcionamento da economia e da sociedade, e até já organizam congressos para discutir Marx. Jerónimo Sousa já diz que será poder quando o povo português o desejar. Apesar de realçar a evolução que os comunistas fizeram nos últimos trinta anos, quando desejavam apenas chegar ao poder, marimbando-se para a vontade popular, não posso deixar de lamentar que um partido que dá vivas a Cuba e à Correia do Norte tenha o apoio de milhares de portugueses. Mas isso também faz parte da democracia que venero e respeito.


Mas não vejo grandes razões para preocupação. A França também chegou a ter quase 20% da população a votar na extrema-direita, e o país não capitulou perante o radicalismo. Se Portugal tiver esta votação nos partidos da extrema-esquerda, estou certo que os partidos moderados conseguirão dar uma resposta eficaz a este problema. Na grande crise do capitalismo do século XX, os povos voltaram-se para os extremos, com os resultados conhecidos. Mas acredito que será quase impossível a sociedade portuguesa, bem como a europeia, virar-se de forma esmagadora para este radicalismo político ultrapassado. A democracia liberal é a única forma viável de governo. Com mais ou menos intervenção do estado, mais à esquerda ou mais à direita, será num regime democrático e liberal que as sociedades irão enfrentar as dificuldades. Por muito que estes derrotados da história apregoem o fim do capitalismo.


Entretanto, sempre podemos ir lendo os blogues e opinion makers de extrema-esquerda, e sorrirmos perante a euforia do momento. Afinal, eles estavam certos! Viva o marxismo! Odete até ensaia A Internacional para cantar no dia em que o capitalismo morrer! Quem nunca teve o sentido da história nunca perceberá que foi ultrapassado por ela. Estamos em 2008, não em 1929.
 



publicado por Nuno Gouveia
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Comentários:
De Anónimo a 10 de Dezembro de 2008 às 19:48
«Quem nunca teve o sentido da história nunca perceberá que foi ultrapassado por ela.»

Quem tem da História uma concepção evolutiva em que uns são ultrapassados e outros prosperam e seguem adiante tinha muito a ganhar em estudar o que quer fosse sobre o «sentido da História» antes de o puxar para a mesa com espavento. Estamos em 2008, não em 1848, Sr. Auguste Comte.


De Nuno Gouveia a 11 de Dezembro de 2008 às 00:00
A verdade é que não serão as soluções do passado a resolver os problemas do presente. Voltar ao passado seria trágico para a humanidade. Compreendo a frustração de quem tentou e falhou, mas não desiste. Pena é que não saiba analisar os erros cometidos.


De Anónimo a 21 de Dezembro de 2008 às 12:15
Mas quem define se uma ideologia é «do passado» ou do presente, ou sequer se tem futuro? É o NG? A que título? Poderá dizer-se, em havendo caído o apoio à ideia da auto-regulação dos mercados, que essa é uma ideia do passado e que só se oporá à presença do Estado na economia quem não dispõe de «sentido da História»?
O NG não tem culpa, mas o pensamento liberal encara o devir histórico uma forma linear, ascendente, e irreversível. Raras vezes terá pensado neste assunto, e é portanto natural que, ao usar expressões como «sentido da História», se limite a desferir um tiro no pé. Emulou o pensamento que voga dentro da sua ideologia, sem ter sequer pensado se não conhece, ao longo da História, centenas de casos de ressurgimento de ideias e práticas consideradas do passado. Até aos anos 80 do séc. XX qualquer pessoa lhe diria que a instituição de uma política económica liberal tinha pouco sentido, pois que esta tinha sido provada errada pela I Guerra Mundial e pela Crise de 29; se falasse a alguém da exumação do criacionismo pela teoria do «design» inteligente rir-se-iam da sua cara; se afirmasse diante de alguém que entre os muçulmanos reapareceria quem defendessea ideia da Jihad, ninguém o acreditaria e diziam-lhe «não tens sentido da História, a Idade Média já lá vai!».
Em História nunca nada está morto. As ideias não são animais numa selva que se matam umas às outras, sobrevivendo as mais fortes e sadias. Pelo contrário, elas vivem na cabeça dos homens - e cobram maior ou menor espaço dependendo de condições determinadas. O único sentido da História é não ter sentido nenhum. Por algum motivo a História não se moraliza nem se ajuíza. Mas como podia o NG, liberal e ademais português, ter chegado até aqui?


De Maria João Marques a 10 de Dezembro de 2008 às 21:05
Muito bom!


De AJOS a 10 de Dezembro de 2008 às 22:21
Tenham medo...tenham muito medo que os fantasmas andam à solta


De lucklucky a 10 de Dezembro de 2008 às 23:18
Um texto que só posso considerar de autista.
Lembra aqueles que desculpam as ameaças dos extremistas islâmicos porque dizem, aquilo são só palavras, não se deve levar a sério. Felizmente essa espécie está em vias de extinção. Como concilia o elogio á Coreia do Norte e outros dos aliados repugnantes com a Democracia, não têm todos a mesma ideologia , não se apoiam mutuamente ? Ou assume que o PCP é esquizofrénico e ou não genuíno ou então não faz sentido.


De Nuno Gouveia a 10 de Dezembro de 2008 às 23:54
LuckLucky,

Não é porque não os levo a sério, mas não acredito que eles cheguem ao poder. Parece-me que isso não é ser autista, mas sim realista! Ou acredita que o camarada Jerónimo realmente pode ser poder em Portugal?


De lucklucky a 11 de Dezembro de 2008 às 02:55
Acredito que é uma possibilidade. Nós Humanos somos demasiado voláteis quando demasiadas coisas mudam e quando a História acelera demais é impossível fazer previsões.


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